China

cisnes selvagens chang                Quanto mais leio sobre a China, mais me surpreendo com o nosso desconhecimento, sobre o país, e principalmente sobre o povo chinês. Me intriga a incompatibilidade de algumas crenças; a dos chineses, #falsificadorescomerciantessujos# e de uma outra, que desconhecemos, e que diz respeito aos milhões de habitantes (1.379.021.544) que vivem lá, no país de dimensões gigantescas e de cultura milenar. É muita gente, e são alguns milhares de anos(uma das civilizações mais antigas do mundo), para formar um povo, então não se pode usar apenas uma crença, para definí-lo. é muito injusto com eles. Ao ler um romance como o de Jung Chang, Cisnes Selvagens – Três filhas da China, as imagens vão se sobrepondo umas às outras, como aconteceu com Adeus China, de Li Cunxi,, histórias reais de chineses que desconhecíamos completamente, guerreiros, amorosos, cultos, sofridos, enfim um povo do qual conhecemos muito pouco, apenas o talento para o comercio.

               Neste romance, autora conta a história de sua família, abrangendo três gerações, a avó, a mãe e a dela. A saga da família, (a avó foi oferecida como concubina, pelo pai, a um general caudilho, os pais eram altas autoridades do partido comunista, e ela entrou para a guarda vermelha) acompanha o destino da própria China, em sua tumultuada história ao longo do século XX. Uma história que assistiu a instauração da república, a ocupação japonesa, uma guerra civil, a vitória de Mao Tsé-Tung, a criação do Partido Comunista, a Revolução Cultural, e por aí vai. É indescritível a sensação de voltar no tempo e estar mergulhando na história, conhecendo os costumes dos chineses, suas tradições e cidades. Além de narrar com riqueza de detalhes os fatos em seus contextos históricos, ela nos transmite as emoções vividas, além de dissecar a personalidade de Mao Tsé-Tung e o efeito devastador sobre a China. Não consegui parar de ler.

Togo

IMG_0118Pequeno no tamanho, mas cheio de história, a começar pelas migrações de vários povos da própria Africa, que lá chegaram em busca de melhores lugares para viver. Constituindo-se desta maneira, um pais com grande diversidade cultural. Na sequência vieram os comerciantes europeus em busca de escravos; portugueses, dinamarqueses, alemães, franceses, e os britânicos. No século XVIII, milhares de pessoas foram raptadas pelos europeus, para trabalharem nas plantações do Novo Mundo. E ao final do século XVIII os escravos libertados do Brasil, “os brasileiros” começaram a voltar, passando a viver com os descendentes dos comerciantes portugueses, e continuaram o tráfico dos negros com a Europa. A partir de 1884, começou a colonização alemã, que durou até a primeira guerra mundial. Em 1922, a Liga das Nações dividiu o Togo entre o Reino Unido e a França. A parte inglesa passou a chamar-se Gana após a independência e a parte francesa, atual Togo, conquistou sua independência em abril de 1960.

Ténèbres à midi“, em tradução livre, “Escuridão ao Meio-dia”, de Théo Ananissoh, se passa no Togo nos dias atuais e conta a história de um escritor togolês, que vive na Alemanha, e retorna ao país após 20 anos, para escrever seu próximo romance. Aparentemente parece tratar-se da própria história do autor, embora ele negue. No livro, ele decide passar 4 semanas no Togo, para poder reencontrar suas raízes e absorver a realidade de um pais que ele perdeu de vista, como comenta no livro “um pais onde não se ganha a vida é mais imaginário que real.” E é Nadine, uma amiga francesa, nascida no Togo, que o vai ajudar a se reconectar com o seu país. Assim apresenta-o a um jovem e brilhante alto funcionário do governo, Éric Bamezon. Os dois têm muito em comum, ambos são intelectuais, que se exilaram e fizeram sua formação superior em Paris. No entanto Eric, não resistiu ao convite do presidente, para trabalhar para o seu país, e partilhar a experiência adquirida no exterior. Ao longo da noite, os dois vão refletindo sobre as respectivas decisões, Eric de voltar para a África e o narrador, de permanecer no exterior. alheio a realidade do Togo.  E a medida que as horas passam, o escritor vai se surpreendendo com as revelações de Eric Bamezon, das armadilhas que o esperavam ao retornar de Paris, a ditadura que controla e aterroriza o país, e onde se mata por brincadeira. E por outro lado, o reencontro do escritor com a sua terra e o vínculo restabelecido. Excelente romance, um enredo envolvente, e uma leitura agradável e fluente.

Ilha do Marajó-onde estavam os guarás?

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                            Esse post poderia se chamar sessão nostalgia, porque descreve uma viagem realizada em 2005, muito antes de criar esse blog com o objetivo de fazer o registro de minhas viagens. No entanto, depois de ler o conto de Olinda Beja, Izunari – uma história de amor, onde as garças são personagens, e Izunari, é a garça protagonista, me veio a memória aquelas do Pará, e principalmente os guarás. Morei lá por quase dois anos e eles sempre me fascinavam, principalmente os guarás. Eles são lindos, extremamente exóticos com aquela cor vermelha, que adquirem graças aos crustáceos que lhes servem te alimento. Mais fantástico ainda são os ninhais de guarás, conforme tinha visto em inúmeras fotos em folhetos turísticos que vivia pesquisando, e fiquei ansiosa para conhecer. Me informaram, que na Ilha do Marajó, tinha os tais ninhais de guarás, e será que foi por isso que escolhi a Pousada dos Guarás para a estadia na ilha, achando que encontraria facilmente os guarás? Veremos.

Nosso chalé na Pousada dos Guarás
Nosso chalé na Pousada dos Guarás

                         Infelizmente perdi(vírus no PC) quase todas as fotos que tinha de todo o período que morei no Pará, e de todas as viagens que fizemos pelo norte. As únicas fotografias que consegui salvar, foram as que estavam em rede social. Mais um motivo para deixar esse registro histórico. Fizemos a viagem para a Ilha do Marajó, no feriado da semana santa, juntamente com alguns amigos. E para ir de carro, tivemos que pegar o ferry boat, no Terminal Hidroviário de Icoaraci, que é um distrito de Belém, distante uns 20 km do centro. É lá, no distrito de Icoaraci, que existe uma grande produção da cerâmica marajoara, já que diversos artesãos, descendentes de índios, tentam preservar e manter a tradição marajoara, fabricando réplicas da cerâmica.  Mas a origem da cerâmica marajoara, veio mesmo dos indígenas da Ilha do Marajó, então claro que não poderíamos deixar de visitar

Produção de cerâmica marajoara, em Soure,Ilha do Marajó.
Produção de cerâmica marajoara, em Soure,Ilha do Marajó.

                    A viagem de ida demorou umas quatro horas mas foi super tranquila. Já a volta foi um horror, o ferry boat balançava tanto que vi a hora os carros caírem dentro do mar, mesmo com as rodas amarradas com correntes.

Travessia Belém-Ilha do Marajó, parte de cima do ferry boat, tranquila como se pode ver pelas águas.
Travessia Belém-Ilha do Marajó, parte de cima do ferry boat, tranquila como se pode ver pelas águas paradas.

                  A travessia de Belém/Ilha do Marajó termina no Porto de Camará, em Salvaterra, entrada obrigatória para todos que chegam na Ilha. A Pousada dos Guarás aonde ficamos hospedados, ficava no município de Salvaterra, com poucas opções de passeio, mais concentrados em Soure, considerada quase a capital da Ilha do Marajó. Para aproveitar que estávamos em Salvaterra, fomos até o vilarejo de Joanes para conhecer as ruínas de uma igreja jesuíta, mas confesso que esperava mais! Foi muito chão pra pouca ruína.

Travessia Soure-Salvaterra, rio
Travessia Soure-Salvaterra, rio Paracauari.

                     Para chegar em Soure, temos que atravessar o Rio Paracauari de balsa, em torno de quinze minutos. Quase todos os dias fizemos essa travessia, para conhecer a cidade, as praias, e a Fazenda São Jerônimo. Na Fazenda São Jerônimo fizemos muita trilha, passeamos na praia, e os meninos se divertiram com o que restou das provas do programa “No Limite” da Rede Globo que foi filmado lá.

Entrada da Fazenda São Jerônimo.
Entrada da Fazenda São Jerônimo.
Praia do Pesqueiro
Praia do Pesqueiro

                       Conheci várias praias no litoral do Pará, e sempre ficava impressionada com o costume que eles têm de frequentar a praia com os carros, e o som alto. Nunca me acostumei, achava bizarro.

Lojinha de artesanato.
Lojinha de artesanato.
Eu e Belinha no carimbó.
Eu e Belinha no carimbó.

                      Foi maravilhoso ter a oportunidade de conhecer a Ilha do Marajó, que um dia foi tema das aulas de geografia, e nunca me saiu da cabeça. Descobrir uma natureza totalmente diversa da que estamos acostumados, e algumas curiosidades, como a da enorme população de búfalos, que dizem ser maior em números do que a de habitantes. Mas guará mesmo, não vi unzinho sequer!

Guiné-Bissau

  IMG_0125As vezes um nome do país não é nem tão desconhecido, mas conhecimento mesmo, não existe. Então, não tem jeito, tem que dar uma “googlada” Esse pequeno país é banhado pelo Oceano Atlântico, fazendo fronteira com o Senegal ao norte, e foi colonizado por Portugal. Embora,  para mim, o mais certo seria dizer que foi invadido e explorado por Portugal, assim como o são todas as colônias, por seus colonizadores. Através, da leitura de romances que contam histórias, de seus países, como estamos fazendo neste projeto #198livros,  vamos nos enriquecendo.

Para representar a Guiné-Bissau, o escolhido foi A Última Tragédia, de Abdulai Sila. Com este título, poderíamos pensar que se o enredo fizesse jus a ele, seria o maior baixo astral. Mas aí é que vem a surpresa, o livro conta de forma extremamente divertida, a história dos três protagonistas, Ndani, o Professor e o Régulo, personagens, que se entrelaçam entre si. Ndani, é uma adolescente que resolve sair de casa, no povoado de Biombo, depois que um feiticeiro fez uma profecia, segundo a qual, ela teria uma vida de tragédias por ser portadora de maus espíritos. Ela vai para Bissau, para se tornar criada na casa de brancos; O Professor foi educado por padres italianos, e teve uma história de vida trágica, após perder o pai que foi preso e torturado pelos brancos, pela cobrança injusta de impostos; E o Régulo, que é o administrador da aldeia de Quinhamed, tem um desprendimento e grandeza absolutos. E apesar de analfabeto, tem uma sabedoria, que segundo ele vem do hábito de pensar.

No meio das relações conflituosas, entre colonizador branco e opressor e do preto oprimido dentro de sua própria terra, esses três personagens, ousam viver sua liberdade, e o direito de ser africano. Eles se insurgem contra o colonialismo, ainda que essa ousadia venha acompanhada de sucessivas tragédias. Mas ainda assim, é um livro delicioso de se ler.

 

 

Iêmen

 51grNsv+58L._SX373_BO1,204,203,200_Em janeiro deste ano, foi veiculada a notícia da morte, por apedrejamento de uma mulher, por combatentes do  Al-Qaeda, sentenciada por adultério e prostituição. Ela foi colocada dentro de um buraco no meio de um pátio de um prédio militar, e apedrejada até a morte diante de dezenas de habitantes da cidade de Mukala, capital da província de Hadramut. Isto aconteceu este ano. O Iêmen é considerado o país mais pobre do Oriente Médio, e onde está baseado o braço mais ativo do Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), a organização fundada por Osama Bin Laden. O país faz jus, a imagem conflituosa, que temos da maioria dos países do Oriente Médio. Faz fronteira com Omã, que vive uma situação política, bem diferente. Mas, se na política os dois países vivem situações opostas, encontrei semelhanças na literatura.

Assim com no livro de Omã, o escolhido para representar o Iêmen, A Land without Jasmine, de  Wajdi al-Ahdal, tem vários narradores, e o autor também faz uso do surrealismo, para mandar sua mensagem. O livro está dividido em 6 capítulos, cada um narrado por um personagem diferente, sendo o primeiro narrado por Jasmine, a personagem em torno do qual a história se desenvolve. Ela tem 20 anos e é estudante do primeiro ano da faculdade de Ciências na Yemen’s Sanaa University, e narra o constrangimento que sente pelo assédio dos homens, pois,segundo ela, no Iêmen, todas as jovens mulheres quando saem a rua, são como as celebridades em outros países, devido aos inúmeros olhares que atraem. A maioria dos homens a olham de forma lascíva, e tem a sensação, que seria estuprada várias vezes ao dia, se não tivesse a garantia de que todos estivessem vigiando uns aos outros. Jasmine percebe que nem todas as mulheres se sentem, tão ofendidas e revoltadas, como ela, que não é casada e nunca teve experiência sexual, e reflete que, talvez depois de casada possa reagir de forma diferente, assim como as outras mulheres. Além da pressão que sofre na rua, em casa, está sob vigilância constante do pai, da mãe, e dos três irmãos mais velhos, que consideram que por ser uma jovem mulher, a qualquer momento pode vir a desonrá-los. Sua vida, é um sofrimento sem fim, pois ninguém pensa  nos seus sentimentos, sonhos, ambições, e no direito que tem viver uma vida feliz. A sociedade, transformou sua existência de ser humano, que pensa e sente, em um mero objeto de prazer. Até que um dia, ela desaparece! E se inícia a investigação policial para descobrir o paradeiro de Jasmine, e a medida que os outros capítulos vão sendo narrados, vamos conhecendo mais dos personagens que fazem parte desta sociedade tão opressora.

 

Chile

IMG_0116Até então, todo meu conhecimento da literatura chilena, se restringia a Isabel Allende, com quem eu me deleitava, pois adorei todos os livros que li dela. Mas estava na hora de conhecer outros nomes, e a oportunidade se deu com Alejandro Zambra. Nascido em Santiago, em 24 de setembro de 1975, foi eleito em 2010, pela revista britânica Granta, como um dos 22 melhores escritores de língua espanhola com menos de 35 anos. O livro escolhido para o projeto #198livrosFormas de Voltar para Casa, é o terceiro livro de Zambra, precedidos por Bonsai e A vida privada das árvores.

O livro se desenvolve em quatro partes, e em dois momentos; o passado vivido em Maipú, onde o protagonista viveu a infância, na época da ditadura de Pinochet, e o momento atual, em Santiago, em meio a uma crise, no qual tenta retomar o casamento e terminar de escrever um romance. São momentos de dor e reflexão; no passado pelas sequelas deixadas pela ditadura e pelo relacionamento familiar; e no presente, a separação, que ele tenta superar através da escrita. A frase do escritor Romain  Gary, “Em vez de gritar, escrevo livros” no livro A Promessa da Aurora, citado pelo protagonista duas vezes neste romance, representa bem o estado de espírito do narrador. Embora seja uma leitura muito agradável, pois flui facilmente, um livro de pegada, tem um tom depressivo, uma desesperança em relação a vida que não compartilho. Vi que este livro, dialoga diretamente com os dois anteriores, e que o autor comentou em entrevista, que sempre se escreve o mesmo livro, e é ele que vai mudando. Fiquei com vontade de ler os outros dois, e descobrir se o tom depressivo foi apenas um momento ruim, ou seria a essência do autor.

 

Alemanha

462a6fae-02ef-4b93-b093-464df9fa29f9Embora só tenha conhecido a Alemanha já unificada, a visão do que restou do muro é suficiente para imaginar o absurdo que foi a separação física do país. A gente lê todo tipo de história, aqueles que morreram, na vã tentativa de fugir para o lado ocidental. Mas que vida seria essa, que levou tanta gente direto para a morte? E os que permaneceram, por falta de opção ou por escolha, como foi que seguiram em frente nos 28 anos que se seguiram. Pelo que andei pesquisando, a Alemanha Oriental dos países do leste era talvez o que tinha melhor qualidade de vida. De acordo com Debbie Corrano, nesse post, eles tinham dinheiro, pois recebiam o suficiente para comprar o necessário e como não havia inflação, acabava sobrando. Só que não tinha muita variedade no que gastar. E aí é que fica a curiosidade sobre o estilo de vida que levavam, as perspectivas de trabalho, os sonhos dos jovens.

O romance de Ingo Schulte,  Adam e Evelyn, conta a história desses dois jovens, iniciando numa pequena cidade da Alemanha Oriental, e se estendendo pelos países fronteiriços do leste europeu, pouco tempo antes da queda do muro de Berlim. Eles se preparavam para sair de férias para o lago Balaton, na Hungria, quando Evelyn, surpreende Adam, que era alfaiate, com uma cliente. Ela decide então viajar com amigos, e ele inconformado segue atrás. Schulte escreve de uma forma simples e fluida, com frases e capítulos curtos. Os personagens são intensos e divertidos, e a história do casal vai acontecendo, em meio aos acontecimentos históricos. No convívio com eles vamos aprendendo sobre a vida do outro lado da cortina de ferro, insatisfação para uns e realização para outros. A chegada ao ocidente e a surpresa com os contrastes. Livro de pegada, não consegui parar de ler, até chegar ao final.