Arquivo mensal: janeiro 2017

Coreia do Norte

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img_1697 Que a Coréia do Norte, era uma ditadura, e um dos países mais fechados do mundo, eu já sabia, por isso conhecer como acontece a vida por lá, parecia uma tarefa quase impossível de realizar. Mas graças ao relato auto-biográfico de Kang Chol-Hwan, em seu livro Les Aquariums de Pyongyang, consegui abrir um pouco a caixa preta da Coréia do Norte.

Neste livro, Kang, relata como era sua vida na Coréia do Norte, do nascimento até a fuga para a Coréia do Sul, onde vive até hoje.  Até os nove anos, ele vivia uma vida tranquila e feliz em Pyongyang, com sua família, pois este era o universo que ele conhecia, e achava até que o Grande Líder, Kim Il-Sung dava proteção e cuidava dos coreanos. Os avós de Kang haviam emigrado para o Japão, muitos anos antes, em busca de melhores condições de vida, no período em que a Coréia era colônia do império japonês(1910 a 1045). No Japão, o avô fez fortuna e eles viviam bem, até Kim Il-sung assumir o poder no país, em 1948. A avó dele, que era militante do partido comunista, ficou ansiosa para retornar a terra natal, e apesar do avô não compartilhar da ideia, a vontade da avó prevaleceu e terminaram voltando. No início, o governo dava apoio e respeitava os que haviam retornado do Japão, mas pouco a pouco foram se apossando dos bens e da liberdade de todos de sua família, mesmo o avô tendo doado sua fortuna para o partido. Até que um dia o avô desaparece, e descobrem que ele havia sido preso por ser considerado traidor da pátria. Logo em seguida a família é levada para o campo de trabalhos forçados de Yodok, onde são mantidos os opositores políticos do regime. Na verdade eles são considerados culpados por associação, por serem parentes do “criminoso”.

É chocante o relato de Kang sobre o que foi a vida dele nos dez anos que viveu em Yodok, na verdade como sobreviveu a fome, frio, maus tratos, torturas físicas e psicológicas, humilhações, etc. Depois de 10 anos eles foram libertados, segundo Kang, seria a morte do avô uma das razões. Outra possibilidade seria as inúmeras petições da família que morava no Japão, em busca de informações, daqueles levados para o campo, recebendo sempre a mesma resposta de que estariam viajando. Essa situação vivida por muitas famílias, havia sido tema de um programa de televisão no Japão. Mesmo fora do campo, a vida continuava sob vigilância, e inúmeras restrições. Kang sabe que existe outra realidade fora da Coreia do Norte, e anseia por descobrir como é a vida lá fora. E é escutando outras estações de rádio, não permitidas pelo governo, que acaba sendo denunciado. Percebendo que existe a possibilidade de voltar para o campo, resolve arriscar tudo e fugir do país. Sua grande preocupação além de salvar a própria pele é denunciar os crimes cometidos contra o povo coreano. É muito triste saber que tudo que está no livro não é ficção, são fatos reais.  Sempre gosto de aprender sobre outros povos, mas nesse caso, não sei se foi melhor conhecer essa realidade e não poder fazer nada.

Vaticano

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bentoComo ainda não visitei o Vaticano, mesmo sabendo que era considerado um pais, imaginava que se restringia apenas a Praça e a Basílica de São Pedro. Mas eu estava completamente equivocada, embora seja o menor país do mundo, vai além da minha imaginação, por isso achei interessante saber que tem fronteiras, rádio, jornal, farmácia, correio, estação de trem, museu, praças, igrejas, etc. E sendo a sede da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa além de autoridade máxima da igreja, também é o chefe absoluto dos poderes executivo, legislativo e judiciário.

O livro escolhido para representar o país, O Homem que não queria ser Papa, foi escrito por Andreas Englisch, jornalista alemão, especializado em Papas, e correspondente alemão no Vaticano desde 1987. Neste livro ele traça um perfil do papa Bento XVI, e do papado, que se iniciou em 2005, após a morte de João Paulo II, e terminou em fevereiro de 2013, depois de ter renunciado. Bento XVI não era um papa carismático, para mim inclusive, nunca inspirou muita simpatia, muito conservador, e aparentava mesmo ser simpatizante do nazismo. Após a leitura do livro, passamos a entender melhor quem era o papa e porque passou essa imagem para mim, e para um mundo de gente. Ele faz uma análise da personalidade de Joseph Ratzinger, um teólogo, um estudioso, que não tinha perfil para ser papa, e nem queria, conforme afirmou em algumas ocasiões, e como isso repercutiu na sua atuação como sumo pontífice. Foram muito erros cometidos pelo papa, que poderiam ter sido evitados se tivesse contado com a ajuda da Cúria Romana, o que leva a crer que o papa foi boicotado pela própria Cúria Romana. Com sua vivência e conhecimento nos assuntos do Vaticano, Andreas Englisch vai relatando os dramas vividos por Bento XVI, e os bastidores da Igreja Católica, sua política e disputa pelo poder.

Vale a pena a leitura do livro, apesar de ter sentido algumas falhas de concordância verbal e erros de digitação, por conta da tradução, e um hiato entre o final do livro que se passa em 2011, e o discurso de renúncia do Papa em 2013. Fiquei achando estranho até descobrir que o livro tinha sido originalmente escrito e publicado em 2011, e assim tinham ficado de fora os últimos acontecimentos como Jornada Mundial da Juventude em Madri e os escândalos do Vatileaks e das contas do Instituto para as Obras Religiosas (o famoso Banco do Vaticano).  E que as falhas na tradução, foram o resultado da pressa das editoras para publicar o livro no Brasil, após terem sido surpreendidas com a renúncia do papa.