Arquivo mensal: maio 2018

Egito

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Na dúvida, escolha um Premio Nobel, essa tem sido uma das máximas para minhas escolhas dos livros, nesse projeto, sempre que possível, claro. E foi assim que a escolha recaiu sobre Naguib Mahfuz, o primeiro autor de língua árabe a receber um Nobel, em 1988. Ele nasceu no Cairo, no bairro de Gamaliyya, em 1911, onde cresceu, e onde ambietou mais tarde, vários de seus romances. Formou-se em filosofia pela universidade do Cairo, em 1934, tendo publicado seu primeiro romance aos 17 anos. Possui uma vasta obra, simbolicamente dividida em quatro fases. Sendo a primeira, composta de romances históricos ambientados no Egito Antigo; a segunda, a partir de 1945 é considerada de cunho realista, e da qual fazem parte Trilogia do Cairo; na terceira fase aborda temas reflexivos e digressões filosóficas; e a partir de 1967, inicia um enfoque mais social e político. O livro escolhido, Miramar, pertence a essa última fase, e foi publicado em 1967.

O romance é ambientado na cidade de Alexandria, no início dos anos 60, na elegante e decadente pensão Miramar. O início do romance coincide com a chegada do primeiro, dos quatro hóspedes(Amer Wagdi, Hosni Allan, Mansur Bahi e Sarhan Al-Biheiri), e da jovem e bela camponesa Zohra, que chega a procura de emprego, e junto com a dona da pensão, Mariana, comporão os personagens da história. Por razões diversas os quatro hóspedes, procuraram a pensão Miramar, para nela residir. Em torno de Zohra, e do seu relacionamento com os hóspedes, se desenrolará toda a ação do livro, até que a uma certa altura, um deles aparecerá morto. Teria se suicidado? Quem teria interesse na sua morte? O livro, está dividido em 5 capítulos, narrados pelos hóspedes, sendo que Amer Wagdi, o mais velhos deles, é quem inicia e faz o fechamento. Através do relato de cada um, vamos conhecendo-os mais intimamente, e obtendo maiores esclarecimentos sobre os estranhos acontecimentos. Uma excelente história, que nos conecta a situação política e social do Egito naquela época, após sua independência. Narrado de forma fluída prende a atenção, até o desfecho. E tem uma capa linda!

Rússia

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  Por incrível que pareça, até o ano passado, eu só tinha lido um clássico da literatura russa, Crime e Castigo, de Dostoiévski. No último trimestre resolvi seguir alguns projetos e entrei com tudo nos clássicos russos, o que me deixou no maior embalo em relação a essas leituras. A escolha de apenas um, para o projeto seria difícil, se Camila, não tivesse proposto uma leitura coletiva, de uma escritora contemporânea: The Mountain and The Wall, de Alisa Ganieva. 

A escolha desse romance trouxe algumas dificuldades e considerações, porque a história se passa no Daguestão, local de nascimento da autora, e do qual nada sabia; o que me levou de volta as minhas pesquisas, que me deram um enorme prazer. Assim, descobri que o Daguestão é uma república autônoma, que faz parte da Federação Russa, com uma população de 2.910.249 de habitantes, e diversas etnias. A língua russa é a principal língua oficial e o elo de ligação entre as diversas etnias. Essa, foi uma das dificuldades, da leitura, pois este foi o primeiro romance daguestanês, a ser traduzido para o inglês, e muitas expressões permaneceram em seus idiomas originais, e mesmo com o glossário, no final do livro, senti dificuldades para assimilar os termos. Pelo que entendi, os conflitos ali já existem há bastante tempo, pois de um lado está a Rússia cobiçando as terras do cáucaso, por sua posição estratégica; entre o mar negro e o mar cáspio, bem como o acesso a outros países; seus recursos naturais; fontes minerais e o agronegócio, além das reservas petrolíferas e de gás natural; e por outro lado a região do cáucaso, com uma etnia, cultura e religião islâmica, diferentes, e que não querem ser russos. No início, o conflito era apenas de ordem nacionalista, queriam a separação, e a religião muçulmana era apenas uma questão de escolha.  Porém com a ofensiva russa, que eliminou as principais lideranças separatistas, entraram em cena lideranças mais radicais, com a figura dos jihadistas, e que fazem parte da guerra santa global.

É basicamente este o cenário onde se desenvolve o romance de Alisa Ganieva, com a decisão da Rússia de construir um muro, para se proteger da tensão crescente, e do aumento da violência, nas províncias muçulmanas. Os rumores dessa decisão só tendem a aumentar a tensão crescente e a violência na região. Quem narra os acontecimentos é o protagonista, Shamil, um jovem repórter, que vê seu mundo desmoronar, tanto a nível pessoal, ao ser dispensando pela noiva, que o deixou para casar com um fundamentalista islâmico, quanto junto a família e os amigos, com a crescente tensão, provocada pelo avanço dos fundamentalistas, na comunidade local. Além, da situações vividas pelo protagonista, participamos junto com ele da leitura de diversos livros, de forma a contextualizar o leitor no universo deles. O sofrimento enfrentado por Shamil, vai transformá-lo, fazendo dele uma pessoa mais amadurecida. Não foi uma leitura cativante, primeiro pelo próprio enredo, e depois por se tratar de um tema bastante específico, que requer um esforço para assimilação, pelos termos difíceis de traduzir, e que impedem a leitura de fluir.