Arquivo mensal: dezembro 2013

Orléans

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                            Na França, o dia 8 de maio, é feriado nacional em comemoração a vitória dos aliados na 2ª guerra mundial, pois nesse dia foi assinado o armistício em Berlim. Na cidade de Orléans, a comemoração é dobrada! Na mesma data, há 584 anos,  sob a liderança de Joana d’Arc, os franceses conseguiram romper o cerco à cidade, vencendo os ingleses, e dando início ao fim da guerra dos cem anos.  Desde então todos os anos, quase que ininterruptamente, Orléans comemora a libertação da cidade por Joana d’Arc. Para comemorar, se revive toda a trajetória da Donzela de Orléans, como era chamada, desde a entrada na cidade, em 29 de abril, até a libertação com a batalha vitoriosa, em 08 de maio. A festa se faz com desfiles, concertos, animações medievais e espetáculos pirotécnicos.

                           A história de Joana d’Arc para mim é tão fascinante quanto dramática. É difícil imaginar uma jovem camponesa de 17 anos, que não sabia ler e nem era militar, liderar um exército e vencer. Conduzir o delfim a cidade de Reims para garantir que fosse coroado Carlos VII, Rei da França, e depois ser presa, julgada e condenada a morrer na folgueira, sem que o Rei viesse em seu auxílio, é simplesmente inacreditável e revoltante. Então aconteceu de estarmos na França no dia 8 de maio, e aí não tinha nem o que pensar, era pegar o trem e ir festejar Joana d’Arc em Orléans.

                            Pegamos o trem na Gare d’Austerlitz-Paris e em menos de uma hora chegamos na Gare des Aubrais em Orléans.

Gare des Aubrais em Orléans.

Gare des Aubrais em Orléans                        

Orléans

Orléans

                          Ao descer do trem nos dirigimos as informações turísticas, na própria estação. A atendente muito simpática nos deu um mapa da cidade e a programação das festas do dia. Assim ficamos sabendo que além do desfile, que sairia às 15:00 h defronte da Catedral, estava acontecendo um festival  medieval, no mercado medieval do Campo Santo. Depois de tomar conhecimento da programação, fizemos nosso roteiro: caminhar pela cidade; ir ao mercado ver a festa medieval e almoçar; ir a Catedral, para conhecer e assistir ao desfile.

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Mercado Medieval do Campo Santo

Mercado Medieval do Campo Santo

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Local onde compramos nosso almoço.

Local onde compramos nosso almoço.

Comida típica medieval .

Partilhando a mesa

Vinho e prato típico medieval.

Vinho e prato típico medieval. Deliciosamente inesquecível.

                   Saímos do mercado e encontramos com “Joana d’Arc” a cavalo, vestindo armadura e acompanhada por cidadãos c0muns vestindo trajes medievais, e caminhando em direção a catedral. Lá haveria uma cerimônia com representantes da igreja, do estado, políticos locais, militares, etc, antes do cortejo sair em direção ao rio Loire, no local onde Joana entrou na cidade.

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                         Enquanto o cortejo seguia até a Catedral de Sainte-Croix d’Orléans, onde aconteceria a cerimônia, nós nos adiantamos para conhecer a Catedral, onde Joana d’Arc rezou no período em que esteve em campanha na cidade.  A igreja inicialmente românica foi substituída por uma igreja gótica em 1278. No seu interior dez vitrais modernos contam a trajetória de Joana d’Arc.

Catedral ao fundo.

Catedral ao fundo.

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                     Incluímos no nosso roteiro uma visita a Maison de Jeanne d’Arc, localizada na Place du Géneral de Gaulle, onde Joana ficou como hóspede de Jacques Boucher, ministro das finanças do duque de Orléans, nos dez dias que ficou em Orléans. Comenta-se que todos os dias ela subia no telhado, de onde tinha uma excelente visão do acampamento dos ingleses. Infelizmente, como era feriado a Maison estava fechada, e o jeito foi deixar para uma próxima vez. Sempre é bom deixarmos um motivo para voltar!

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Bósnia-Herzegovina

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                                BosniaMais um destino assolado pela guerra. Mais uma guerra, onde crimes contra a humanidade foram cometidos. O genocídio na Bósnia ocorreu na cidade de Srebrenica em 1995, com o massacre de milhares de muçulmanos bósnios, pelos sérvios bósnios, liderados pelo general Ratkp Mladic.

                             A origem dos conflitos na ex-Iugoslávia, que culminaram com a guerra da Bósnia, era antiga e já vinha de séculos atrás. Após a segunda guerra mundial o General Tito, conseguiu unir todos os povos da Iugoslávia, e manter a unidade nacional até sua morte, em 1980. A partir de então, começaram os conflitos, causados pelas diferenças de religiões e de etnias, e por ódios e ressentimentos mútuos, desencadeando a mais longa e violenta luta armada após a segunda guerra mundial, entre abril de 1992 a dezembro de 1995. Para que se tenha uma ideia do que era a Iugoslávia na época de Tito, nada como conhecer uma espécie de anedota que circulava na época, para tentar sintetizar o sistema político-étnico de então: “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido”.

                             De maneira resumida, segundo pude entender, havia três grupos oponentes entre si, os sérvios (católicos ortodoxos), os croatas e eslovenos (católicos romanos) e os bósnios (muçulmamos). Cada um tentava criar seu próprio estado independente e etnicamente homogêneo.  Quando no início de 1992, os muçulmanos declararam a independência da Bósnia-Herzegovina, com a capital em Sarajevo, os sérvios da Bósnia não aceitaram. Com o apoio da Sérvia, iniciaram os combates e criaram a República Sérvia da Bósnia. E é exatamente nesse panorama, que se desenvolve a história do romance – Como o soldado conserta o gramofane, de  Sasa Stanisic.

                              O livro narra a história de Aleksander Krsmanovic, um menino que passou sua infância na cidade de Visegrad, na Bosnia, até a chegada da guerra, quando tem que fugir com sua família para a Alemanha. A história se inicia com a morte do avô Slavko, com quem tinha uma grande ligação e afinidade. O avô era um nacionalista sérvio, admirador de Tito, e dotado de uma  personalidade marcante, que exercia uma grande influência sobre o neto. Entre pescarias no rio Drina, que corta a cidade, truques de mágica que aprendia com o avô, jogos de futebol, pinturas inacabadas e histórias inventadas, Aleksander vai atravessando a infância, feliz, até a morte do avô, quando então verá sua vida desmoronar, assim como a Iugoslávia foi desintegrando com a morte de Tito.

                               A história é narrada através da visão infantil e cheia de imaginação do personagem, numa mistura da realidade como  a visão que tem dos acontecimentos que se desenrolam ao seu redor, criando uma pintura inacabada do quadro da sua vida. O livro se divide em três partes. Na primeira, Aleksander vai narrando os acontecimentos que permearam sua infância, a medida que eles foram se sucedendo, até o exílio na Alemanha. A segunda parte se inicia, quando ele recebe de sua avó, que ficou na Bósnia, um pacote de lembranças.  Ele revive o paraíso perdido na infância, “Quando tudo era bom”, tornando cada fato um capítulo dentro de outro livro. Na terceira e última parte, ele volta já adulto para sua cidade natal, para tentar se encontrar, e deixar para trás a infância e só assim ter esperança de uma nova vida.

                                  A história do personagem se mescla com a própria história do autor, que nasceu em Visegrad no ano de 1978, hoje Bósnia-Herzegovina, e teve que fugir para a Alemanha por ocasião do começo da guerra. Assim com Aleksander, Sasa é filho de pai sérvio e mãe Bósnia.

                               Achei que o recurso que o autor usou, de narrar a história através da visão de uma criança, tornou a leitura confusa, difícil de assimilar. No entanto,  para mim, o livro, cumpriu a missão, de nos introduzir em uma nova cultura, mergulhar na história e alimentar o desejo de conhecer novos destinos. Foi interessante descobrir a paixão que eles têm pelo futebol, justamente na época em que a Bósnia se classificou para a copa do mundo pela primeira vez!

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