Arquivo da categoria: #198 livros

Índia

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Estava na dúvida sobre qual livro ler para a Índia, pois havia muitas indicações, mas bastou ler a sinopse de “O Deus das Pequenas Coisas” de Arundhati Roy, para que me decidisse por ele.  Arundhati, nasceu em Kerala, na Índia, em 1961, estudou arquitetura e trabalhou em cinema como designer de produção e roteirista. É uma ativista dos direitos humanos e causas ambientais. Esse foi o primeiro livro da autora, ganhou o Prêmio Booker Prize de 1997.

A história tem início com o retorno dos gêmeos fraternos Estha e Rahel, já adultos, à Ayemenem, cidade do estado de Kerala, sudoeste da Índia. Eles, apesar de serem gêmeos fraternos, têm uma ligação visceral, quase siamesa, e foram separados depois da noite do terror, há 23 anos. Só saberemos o que se passou nessa noite, e em todos os desdobramentos que se seguiram, e que afetaram toda família, no final do livro. A autora, vai soltando aos poucos, as características de cada personagem, e como a estrutura familiar, extremamente conservadora, numa sociedade dominada pelo sistema de castas, contribuiu para aprisionar todos os membros da família, num looping de infelicidade, até o desfecho trágico. Partindo da perspectiva dos gêmeos, a família é composta pela mãe divorciada: Ammu, que precisou sair de casa para fugir da violência, e como não tinha dote, casou com o primeiro que aparaceu, solução essa, que se revelou ineficaz, uma vez que o marido era alcoólatra e abusivo, e após o divórcio, ela volta para casa com os gêmeos, mas sem perspectivas, por ser mulher e divorciada, sem espaço no universo familiar e na sociedade; a avó, de personalidade forte, mas vinda de um casamento abusivo, só tem olhos para o filho homem Chacko; a tia-avó, amarga, que viu todos os seus sonhos desmoronarem por um amor não correspondido; um tio perdido, parado no tempo, sem forças para seguir em frente. Com a chegada da prima Sophie, filha do tio Chacko, nascida na Inglaterra, branca, e que mereceu ser amada desde o princípio, os gêmeos, aprendem que existem “leis do amor”, que podem definir quem deve ser amado, e o quanto.  É um livro fantástico, uma história extremamente triste, mas que não se pode ignorar.

Macedônia

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Não foi difícil encontrar um livro para a Macedônia, na verdade eu nem cheguei a  procurar, porque decidi pegar carona nas pesquisas das meninas (Camila Navarro e Luciana Malheiros) do projeto 198 Livros, pois já sabia, que não haveria muitas opções, pelo menos com fácil acesso. O livro em questão foi o The Last summer in the Old Bazaar, da macedônia Vera Bužarovska, nascida em 1931, em Bitola, Macedônia, e morta em 2013, em Skopje.Vera começou a carreira de escritora em 1962, tendo publicado mais de 40 trabalhos de prosa e poesia, tanto para adultos como crianças.

The Last Summer in the Old Bazaar, foi publicado em 1974, e trata-se de uma autobiografia da autora, durante sua infância em Bitola, no período em que aconteceu a segunda guerra mundial. A maior parte da história acontece no “Velho Bazaar”, onde brotam todos os talentos e onde tudo acontece, um verdadeiro termômetro da vida em Bitola. É lá que fica o restaurante de Gazda Mito, onde a narradora Oli, trabalha, junto com seus dois amigos, Sami e Leon, quando não estão aprontando. Por meio dos relatos de Oli, nós percebemos as dificuldades, cada vez maiores, causados pela guerra, a terrível ameaça que a chegada dos alemães provocam na cidade, a perseguição aos judeus. Esses, no entanto, são o pano de fundo da história, que nos conta também, da amizade entre três crianças, do amor que essa amizade faz brotar, que faz com que queiram conhecer os sonhos uns dos outros. Que se importem tanto, ao ponto de usar toda a força e a coragem necessários para conseguir realizá-los. Uma história sensível, que nos toca o coração.

Jamaica

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Para mim, não tem como pensar na Jamaica, sem associar imediatamente ao incrível Bob Marley, de quem sou fã incondicional, das suas músicas, que embalaram muitos momentos divertidos, vividos na faculdade. A Jamaica, é uma ilha exótica e paradisíaca, situada no Caribe. Essas características promoveram o incremento do turismo, e suas consequências foram magistralmente problematizadas no romance de Nicole Dennis-Benn. 

A autora, nasceu em Kingston, a capital da Jamaica, onde viveu até os 17 anos, quando mudou-se com o pai, para os Estados Unidos, para estudar medicina. Depois de ter concluído o mestrado na área de Saúde Pública, e atuado alguns anos na área, resolveu se dedicar a atividade que realmente gostava, a escrita. Seu livro de estreia, “Bem-Vindos ao Paraíso“, escolhido para representar o pais, no projeto #198livros, foi muito aplaudido, tendo vencido o Lambda Literary Award.

Eu terminei de ler ontem, mas ainda continuo lá, na Jamaica, convivendo com os personagens, torcendo por eles e me indignando com a miséria humana: que despreza e exclui quem é diferente; que desconhece o humano no outro para cruelmente usar como fonte de renda, ou em benefício próprio; que se apropria da natureza e da cultura de um povo, pelo dinheiro. Ao narrar a trajetória de Margot, e todos os seus personagens, a autora explora temas como sexualidade, gênero, turismo sexual e racismo. Margot trabalha “oficialmente” no resort de luxo, numa praia da Jamaica, e luta com todas as suas forças para manter sua irmã mais nova, Thandi, na escola, para que ela possa ter uma oportunidade de vida melhor do que ela própria. Ela complementa sua renda usando o corpo, como foi acostumada a fazer desde sempre. O enredo se desenvolve ambientado numa pequena vila litorânea, River Bank, próxima ao resort onde Margot trabalha, e que agora também está ameaçada de ser engolida por mais um resort de luxo. Aos poucos, vamos conhecendo todos os personagens envolvidos na trama, bem como seus dramas profundos; a luta pela sobrevivência diária, marcada por um passado cruel, que volta sempre para assombrar, de mãos dadas com a pobreza, e a mercê da ganância dos poderosos, que não conhecem limites. Parece que todos os personagens foram vítimas de violência, e praticam a violência, talvez para sobreviver, difícil julgar. Uma leitura de pegada, não conseguimos parar, e quando acaba, não conseguimos esquecer

Myanmar

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     Localizado no sudeste asiático, o país deixou de integrar o Império Britânico, em 1948. O Budismo teravada, é praticado pela maioria da população, que no entanto, convivem com outras religiões, como cristãos, hindus e muçulmanos. Existem mais de cem grupos étnicos, mas atualmente o maior conflito, está na violenta perseguição que estão sendo vítimas, a minoria muçulmana rohingya, por parte do exército.

       Para representar o país, não precisei procurar muito, tanto pela facilidade de baixar para o kindle, como pela unanimidade de indicação, escolhi o romance de Nu Nu Yi, Smile as They Bow. O livro narra o Festival Taungbyon, que acontece na cidade de Taugbyon, nas imediações de Mandalay, e teve origem na época do Rei Anawrahta, no início do século XI. Trata-se do festival nos nats(espíritos), que acontece numa grande celebração que dura 7 dias, e movimenta toda a cidade, com fieis vindo de todas as províncias. Invocam-se os espíritos por meio de cantos, danças, e orações, que são incorporados pelas natkadaws. São figuras femininas preferencialmente representadas por gays, embora o homossexualismo seja proibido no país, exceção feita ao período do festival.

No romance, a personagem principal, é a natkadaws Daisy Bond, que ganhou esse nome, ao enfrentar a polícia, numa tentativa de viver a sua sexualidade. Mas no momento em que conhecemos a personagem, ela não tem mais tanta jovialidade, e apesar de sua importância, emocionalmente vive na dependência de seu “marido”, Min Min, trinta anos mais jovem, e a quem ela comprou, quando era adolescente. Ela vive o desespero de perceber que ele está lhe escapando, e tem medo que a deixe por uma mulher de verdade. Por trás da história de Daisy, e sua trajetória até tornar-se o que é hoje, a autora no mostra os bastidores do festival, como tudo envolve dinheiro e poder. Como toda a população vive em função desses dias de festival, dos fieis, aos cantores, dançarinos, ambulantes, vendedores de comida, até os “pickpoket”. Tudo gira em torno do dinheiro!

 

 

Djibouti

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         O Djibouti, é um minúsculo país localizado no nordeste da África, numa região conhecida como os “Chifres da África”. Possui uma localização estratégica, situada no estreito de Bab el Mandeb, que liga o golfo de Áden ao mar Vermelho, o canal privilegiado para rumar ao de Suez, pode onde passa 10% da circulação de petróleo e 20% do comercio mundiais.  Pela sua proximidade com a Somália e o Oriente Médio, fazem do país uma área de importância geopolítica e militar. Nada mais do que 7 nações ocupam o Djibouti com presenças militares, EUA, Japão, França, Itália, Espanha, e recentemente Arábia Saudita e China. Sendo que os Estados Unidos e a China possuem bases permanentes, e pagam anualmente  63  e 100 milhões de dólares, respectivamente pelo aluguel das bases.

         Abdourahman A. Waberi, é o autor do romance escolhido Passage des larmes, publicado pela Editora Jean-Claude Lattès, em 2009. Waberi, nasceu em Djibouti, capital do  Djibouti, em 1965. Mudou-se para a França em 1985, onde concluiu os estudos na universidade de Borgonha. Escreveu vários romances, foi saudado pela crítica, recebeu inúmeros prêmios. Vive entre a França e os Estados Unidos onde ensina literatura.

Passage des larmes(– باب المندب, nome do estreito Bab el Mandeb, em árabe), é um romance de espionagem, misterioso, tenso, que faz eco a situação atual, mas ao mesmo tempo, agradável de ler, pela forma poética como é narrado. Fala do exílio, do fanatismo religioso, e a geopolítica da região dos chifres da África. Estruturado de forma a dar voz a dois narradores, Djibril, que tem 29 anos, vive em Quebec, no Canadá e está retornando a Djibouti a trabalho, depois de 15 anos de exílio; e um fanático religioso que se encontra preso, e que terá sua identidade revelada aos poucos, a medida que a narrativa for avançando, e que parece tudo saber sobre Djibril e os seus passos. Entre os dois narradores, o autor inseriu, no contexto atual, a presença de Walter Benjamim, filósofo, ensaísta e tradutor, que morreu no exílio, enquanto tentava fugir dos nazistas, e que parece ser a inspiração dos dois personagens, antagônicos entre si. Ao chegar, Djibril vai se deparar com dois inimigos, um real, tangível, que é o inimigo político, representado pelos grupos fanáticos que utilizam o islamismo, para aterrorizar, e o outro é ele mesmo, quando confrontado com seu passado, que havia deixado para trás ao sair do país. Todas as dores e lembranças do passado, pouco a pouco vão lhe invadindo e assustando. A intriga é eletrizante, além de extremamente instrutiva, para aprender sobre a região.

Hungria

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                    Não tive dificuldades para encontrar um livro para representar a Hungria, pois já conhecia o clássico de Ferenc Molnár, “Os Meninos da Rua Paulo“, e tinha me decidido por ele. Quando chegou o momento de ler, estava de viagem marcada e levei-o na mala. Este livro viajou comigo por 4 países, e me pegou em uma fase de ressaca literária que nem sei como explicar, não conseguia abrir nenhum um livro, e isso nunca tinha me acontecido antes. Mas enfim, passou, e resolvi retomar aos meus projetos literários. Graças a Deus, o livro é maravilhoso e me ajudou a sair dessa inércia. Trata-se de um clássico da literatura juvenil da Hungria, publicado pela primeira vez em 1907. Seu autor tinha 28 anos, quando escreveu o romance, era filho de judeus de classe média(seu pai era médico), na época em que a Hungria fazia parte do Império Austro-Húngaro. É possível que se trate de um romance autobiográfico, ou inspirado em uma história real, pois em algumas ocasiões percebe-se que a narrativa deriva para a primeira pessoa do singular, como se o autor fosse o próprio personagem.

                   O romance narra a história de uma grupo de meninos, amigos, que fazem parte da Sociedade do Betume, e que todas as tardes depois da escola se reúnem no grund, (um terreno baldio) para jogar pela. Eles seguem com seriedade os rituais da sociedade, que tem, além de regras próprias, bandeira, livro para registro das atas de assembléia, e uma hierarquia de funções de capitão, tenente, alfares e soldado raso. Fazem parte da sociedade, Boka, Csele, Csónakos, Kende, Weiss, Geréb e Nemecsek, que se dividem nas funções para manter a ordem e proteger o lugar. Tudo vai bem, até que outro grupo de garotos, os camisas vermelhas, liderados por Chico Áts, resolvem invadir o lugar. O grupo dos camisas vermelhas, eram temidos, por serem agressivos e aplicarem o einstand, gíria utilizada pelos meninos de Budapest, quando garotos mais fortes queriam tomar bolas de gude, peninhas ou qualquer outro brinquedo de meninos mais fracos, gritavam: einstand, que era quase uma declaração de guerra, informando que estavam tomando os brinquedos, e que caso não entregassem haveria guerra. Dessa vez, no entanto, sob a ameaça de invasão do grund, eles resolvem reagir e defender com todas as armas o seu espaço tão querido. Para vencerem a luta, eles vão precisar de muita união, amizade, cumplicidade e coragem. Ao longo da disputa, os dois grupos vão vivenciar sentimentos de inveja, traição, arrependimento, bem como, coragem, superação, e descobrir como a força de sentimentos nobres pode ser transformador.

 

Trinidad e Tobago

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Eu estava procurando um livro para a categoria 14 – Um autor falecido em 2018, do desafio livrada 2019, quando encontrei V.S. Naipul(ele morreu em 2018). E foi então que descobri que além de se encaixar nessa categoria, e ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001, ele tinha nascido na ilha de Trinidad, e escrito um romance, Miguel Street, que retrata a cidade de Port of Spain, capital de Trinidade e Tobago, nos anos 30 e 40. Assim, decidi que seria esse o representante do país no #198livros. As ilhas ficam no Caribe, bem próxima a Venezuela, e assim como outras ilhas do Caribe, foram “descobertas” por Colombo, invadidas pelo Reino Unido, sendo a sua população majoritariamente constituída por escravos, até sua libertação em 1838. O país conseguiu sua independência do Reino Unido, em 1962.

Miguel Street, o primeiro livro de Naipul, foi escrito em 1955, no período de apenas seis semanas, quando o autor tinha quase 23 anos, mas, só foi publicado em 1959, quando ele já tinha alcançado reconhecimento com outro romance, O Massagista Místico.  Ambientado num bairro pobre de Port of Spain, quando ainda era uma colônia subdesenvolvida do Reino Unido, o livro é constituído de pequenas histórias, descritas pelo mesmo narrador, cujos protagonistas são todos moradores de uma rua, a Miguel Street. Os personagens são figuras excêntricas, quase improváveis: Laura, uma mulher que teve oito filhos com 7 homens diferentes; Bogart um homem que parecia entediado, pois passava o dia jogando paciência, até começar a desaparecer sem explicações por alguns períodos de tempo; Eddoes, o magnata da rua, porque era dono de uma carrocinha de lixo; Homem-homem, que planeja sua crucificação…Eles tem em comum, o orgulho de pertencerem a uma comunidade, e de estarem sempre se ajudando, como diz o narrador, “Um dos milagres da vida na Miguel Street era que ninguém passava fome” embora, a violência doméstica tenha se tornado uma banalidade, assim como as dificuldades e tragédias de cada um. As histórias são narradas de forma leve e humorada, como se os personagens, ironizassem o próprio sofrimento.

Guiana

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A Guiana, anteriormente chamada de Guiana Inglesa, era originalmente habitada pelos índios aruaques e caraíbas, até ser invadida pelos holandeses. Depois de terem iniciado as plantações de cana-de-açúcar, no início do século XVII, venderam o território para os britânicos em 1831. Para o trabalho nas plantações, os ingleses utilizavam a mão-de-obra escrava dos africanos, até os libertarem em 1838, quando trouxeram  trabalhadores temporários da Índia. Uma vez livre, os africanos decidiram se estabelecer na costa, na cidade de Georgetown, capital do país, enquanto os indianos, permaneceram na zona rural. Em 1966, o país conquistou a independência, mas a população permaneceu em conflito, pela rivalidade entre grupos étnicos antagônicos, os indo-guianenses e afro-guianenses. A Guiana, é um país pobre, com economia baseada na agricultura e mineração. Este é o cenário onde é ambientado o romance Frangipani House, de Beryl Gilroy, escolhido para representar o país neste projeto.

A autora nasceu em 30 de agosto de 1924, em Skeldon village, Berbice county, Guyana, onde passou a infância e o inicio da vida adulta. Em 1951, depois de obter o certificado Britânico de Professor da Guiana, em primeiro lugar, foi selecionada para fazer faculdade em Londres, e em 1968, tornou-se a primeira diretora negra, de uma escola primária em Londres, antes de entrar para a Universidade de Londres como pesquisadora. Entre 1970 e 1975, escreveu uma série de livros infantis, e em 1976 publicou Black Teacher, uma crônica de sua experiência como a única diretora negra de Londres. Em 1982, ganhou o prêmio GLC de Escrita Criativa de Minorias Étnicas, com o livro In For a Penny, e em 1985, ganhou o prêmio GLC de Literatura Negra, por Frangipani House. 

A escritora disse, em uma de suas entrevistas, que esse romance foi baseado tanto, em suas experiências de trabalho numa casa de repouso para idosos, como em represália a uma de suas amigas, proprietária de um asilo em Barbados. Pois tendo visitado o asilo, havia questionado porque as senhoras não fugiam de lá, e a amiga respondeu, porque elas não o desejavam. Esse é o tema central do romance, que conta a história da Sra. Mabel Alexandrina King, que aos 69 anos, vai morar num asilo por orientação das filhas que moram nos Estados Unidos. Mama King, passou um tempo doente, com malária, pleurite e inflamação da garganta, assim as filhas preocupadas, com o rápido desaparecimento dos seus recursos, resolvem interná-la nessa casa de repouso. Assim que se recupera, Mama King começa a se ressentir da estadia, e da forma como é tratada pelas enfermeiras, e pela dona da Frangipani House, a sra. Olga Trask, que parece ser muito boa com os negócios, mas oportunista e interesseira, no tratamento dado as idosas, que foram deixadas ao seu cuidado. Embora a vida de Mama King não tenha sido nada fácil, pois depois que o marido Danny desapareceu, teve que ser pai e mãe das duas filhas, fazendo todo tipo de trabalho, para poder criá-las, e depois os netos que ficaram aos seus cuidados, ela não suporta a vida encarcerada que leva em Frangipani House. No início, a angústia a leva ao desespero, depois a quase loucura e finalmente a fuga parece ser o único caminho. O romance aborda outros temas além do tratamento dos idosos em casas de repouso e a fragilidade de suas vidas, sendo desrespeitados, inclusive pela família, que não reconhecem os sacrifícios que fizeram por eles; racismo, os privilégios dos brancos, em relação aos outros grupos; valores; cultura; e a situação de pobreza do próprio país, que quase os obriga a emigrarem para terem melhores chances na vida.

Canadá

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Ainda não tinha chegado a vez do Canadá, e estava sem nenhum livro para ler do projeto, e não é que do nada, descobri na estante um livro em francês, de um canadense, ambientado em Montreal? Justo Montreal, a cidade que sonho conhecer no Canadá,! Pronto, estava feita a minha escolha. Um romance de Yves BeaucheminLe Matou, um calhamaço de 602 páginas.

Yves Beauchemin, nasceu em Rouyn-Noranda, província de Quebec, no Canadá, em 1941. Formou-se em literatura francesa e história da arte na Universidade de Montreal, em 1965. Ensinou literatura no Collège Garneau e na Université Laval. É autor de romances célebres, como: Le Matou, Juliette PomerleauCharles le téméraire e La Serveuse du Café Cherrier, e membro da Academia de Letras de Quebec. Além de vencedor de vários prêmios. Por Le Matou, ele recebeu os prêmios Prix du grand public du Salon du livre de Montréal (1981), Prix des jeunes romanciers du Journal de Montréal (1981), Prix du roman de l’été (Cannes, 1982), Prix des lycéens du Conseil régional de l’Ile-de-France (Paris, 1992).

O Livro conta a história de Florent, um jovem de 25 anos, e sua esposa Elise, seus amigos e inimigos. Inicia quando Florent depois de ajudar um senhor que havia sofrido um acidente, cai nas graças de um velho rico e esquisito, Egon Ratablavsky, que assistia a cena, e se oferece para ser seu benfeitor, ajudando-o na aquisição de um restaurante, La Binerie. A partir de então a vida de Florent e Elise, nunca mais será a mesma, farão grandes amigos, acolherão Monsieur Emile, um garoto de 6 anos, relegado pela mãe e seu gato Déjeuner. O restaurante trará sucesso e desventuras, e será alvo de um estranho e terrível combate.

Entende-se porque o autor recebeu tantos prêmios por este livro, trata-se de um thriller, narrado de forma espirituosa e bem humorada, eletrizante e terna ao mesmo tempo. Fiquei ainda mais ansiosa para conhecer Montreal, sua história, arquitetura e restaurantes.

Costa do Marfim

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Climbiê, do escritor marfinense, Bernard B. Dadié, foi o livro escolhido para representar a Costa do Marfim. Trata-se de um clássico da literatura africana, e um marco na literatura marfinense, por ter sido o primeiro a ser publicado, em 1956, quatro anos antes da independência do país. É um romance autobiográfico, que vai narrar a vida do pequeno Bernard B. Dadié desde Boudéa, sua aldeia natal, passando por Grand-Bassam, primeira capital do país, Bingerville, segunda capital, Gorée, capital de AOF, onde se encontra a escola Normal Superiora William Ponty, e finalmente Abidjan.

O livro se divide em duas partes, e se desenvolve em pleno período colonial. Na primeira parte, acompanharemos sua vida escolar, na Costa do Marfim até a sua admissão em William Ponty, e na segunda parte, vamos acompanhá-lo até Dakar, onde ele viverá muitos anos antes de retornar ao seu país e passar a militar em defesa da cultura africana e da independência do país.  No livro ele denuncia a violência do colonialismo, e o impacto na cultura do país e da região. Depois de ler alguns romances africanos que abordam esse tema, a gente começa a se familiarizar um pouco, mas sempre se surpreende quando conhecemos mais intimamente algumas práticas por meio dos relatos de quem a vivenciou.

O romance abrange toda a jornada de Climbiê, até a vida adulta. No início do romance, ele é um menino despreocupado, vivendo com seu tio N’Dabian, um agricultor, que ele considera como seu pai, numa aldeia chamada Boudéa, e recebendo uma educação tradicional; ouvir as histórias contadas em serões, ajudar o tio com diversas tarefas, e aprender a se tornar um homem. Mas, sob a orientação de sua tia Bènie, o tio o matricula na escola dos “brancos” em Grand-Bassam, onde todas as crianças são obrigadas a frequentar. A partir de então ele vai ter contato com a postura impositiva do colonialismo, que não compreende o africano, nem sua cultura, e que não há interesse em preservar. Na escola, por exemplo, “É proibido falar suas línguas nos recintos da escola”. Se algum aluno fosse pego falando qualquer língua, que não fosse o francês, era castigado, devendo carregar “o símbolo” objeto que denunciava o infrator. Sob a orientação do tio Assuan Koffi, recebe estímulos para buscar o conhecimento: “Os teus estudos te ensinarão a socorrer todo homem que sofre, porque é teu irmão. Não olhes nunca para a cor dele, ela não tem importância. Mas, em contrapartida, não deixes nunca pisotear teus direitos de homem, porque, mesmo na mais dura das escravidões, esses direitos estão ligados à tua própria natureza.” Ele vai se dedicar aos estudos, para conquistar sempre mais conhecimento. No entanto, mesmo mantendo-se fiel as suas origens africanas, Climbiê se sente influenciado pelo mundo moderno, que aprendeu a conviver na escola. E é através da linguagem que vai encontrar o equilíbrio entre esses dois mundos.