Arquivo da categoria: #198 livros

Panamá

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            Há um provérbio, ou frase, ou mensagem, que diz que “não se deve julgar um livro pela capa, mas pela sua história”. Pois é, aconteceu comigo. Embora tenha acatado a sugestão do grupo, de ler Negra Pesadilla Roja, do panamenho Mario Augusto Rodríguez, e adquirido o livro, antes até do Panamá ser sorteado, desprezei o coitado. Simplesmente porque antipatizei com a capa, mas, tendo chegado a hora dele, tenho que reconhecer que é um livraço! Depois de começar, não consegui mais parar de ler, mesmo com toda tristeza narrada em suas páginas. Um dos melhores, que já li nesse projeto. Foi publicado pela CELA(Centro de Estudios Latinoamericanos), em 1993. Em janeiro de 1990, a CELA decidiu dedicar todo o esforço para publicar na medida do possível todas as obras produzidas por escritores panamenhos, sobre a invasão norteamericana, ocorrida na madrugada de 20 de dezembro de 1989. Sob a alegação de capturar o General e Ditador, Manuel Antônio Noriega, as tropas americanas invadiram o Panamá na Operação Justa Causa, e com a utilização de armas supermodernas, destruíram o bairro mais populoso da Cidade do Panamé, El Chorrillo, matando milhares de civis, um verdadeiro genocídio.

                                                         O livro está dividido em duas partes, narradas por diversos personagens, ao mesmo tempo, reais e produto da imaginação do autor. Na primeira parte, chamada Devastação – Beto, o jornalista; Ruby, a professora; Nico, o estudante; Yony e Jazmim; Manuel, o delinquente; e Ernesto, membro do Batalhão da Dignidade(organização criada para apoiar as forças de defesa, contra a agressão estrangeira), todos eles moradores do bairro, El Chorrilho, narram como vivenciaram o pesadelo do ataque americano, naquela madrugada. Na segunda parte, Pesadelo, seguem a narrativa dos personagens ao longo da semana que se seguiu ao terrível ataque, o trauma vivenciado, o desespero de ver que não sobrou absolutamente nada de suas casas, e de seus mortos. Pois o exército americano, impediu que eles se aproximassem do local da invasão. É chocante, saber que essa foi uma história real! Ao longo da narrativa do romance, vamos conhecer, a história por trás da construção do canal, e a exploração do trabalho dos nativos, a luta diária para sobreviver, e como a solidariedade e cumplicidade do bairro miserável ajudava a tornar o fardo mais leve para seus habitantes. E como essa cumplicidade vai ser fundamental para ajudá-los a superar o trauma e reconstruir a já sofrida vida dos “El chorrilenhos”.

Eslovênia

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                                                A Eslovênia foi um dos seis países que fizeram parte da Iugoslávia, a partir de 1945, até ficar independente em 1991. Isto, depois de ter pertencido ao Império Romano, ao Império Bizantino, a República de Veneza, ao Ducado de Carantânia (o atual norte esloveno), ao Sacro Império Romano-Germânico, a Monarquia de Habsburgo, ao Império Austríaco (a partir de 1866, Império Austro-Húngaro), ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois Reino da Jugoslávia) e a República Socialista Federativa da Iugoslávia de 1945, até finalmente conquistar a independência em 25 de junho de 1991.

Eu só pude entender, um pouco melhor, a questão da Iugoslávia, depois de uma pesquisa que fiz antes de ler o livro da Bósnia e Herzegovina. Esse livro, no entanto, aborda outra questão, que ainda não tinha tido conhecimento. No livro da Bósnia, um menino narra os conflitos vividos durante a guerra e como teve que emigrar para a Alemanha, para sobreviver. Já no livro escolhido para a Eslovênia, Southern Scum Go Home, do esloveno Goran Vojnović, um menino narra as dificuldades que ele enfrenta, por ser um scum, (uma pessoa que vive em determinado país, mas sem pertencer a maioria étnica), pois são muitas as diferenças culturais entre os locais e os imigrantes da extinta Iugoslávia. Filho de pais Bósnios, ele vive em Fužine, um bairro urbano da classe operária com grande proporção de imigrantes ao leste do centro de Liubliana. A situação descrita pelo narrador, neste romance, é a mesma vivida, durante os anos 90, por mais de 25.000 de residentes eslovenos, conhecidos por Izbrisani, ou “apagados”, porque foram eliminados dos registros de residência permanente em 1991, e assim perderam a oportunidade de se tornarem cidadãos. As crianças Izbrisani tinham a certidão de nascimento registrada na Eslovênia como sendo cidadãos de outras repúblicas da Iugoslavas, mas, com frequência, as repúblicas não eram informadas do nascimento. E na Eslovênia, como em outras repúblicas europeias, adota-se o Jus Sanguinis, para conceder a cidadania, não importando se as crianças tenham nascido e vivido toda a vida no país. Como não tinham direitos legais, e perderam a conexão com o país de origem dos pais, ficaram sem pátria, assim ,por medo da deportação, aprenderam a desaparecer nas ruas e evitar a polícia. Embora curtinho, o livro retrata bem essa drama vivido por esses jovens em Fužine, bem como em outras partes da Eslovênia.

 

Japão

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                        Foi num impulso que comprei este livro, logo no início do projeto, e deixei separado para quando chegasse a vez do Japão, no sorteio. Mas o tempo foi passando, e nada, então foi ficando lá, esquecido na estante. Um dia, vi o trailer do filme no cinema, uma, duas, três….inúmeras vezes, e abusei da história antes mesmo de ter visto o filme, e lido o livro. Pensei até em escolher outro para o Japão, mas resolvi persistir, e incluí-lo em outro desafio. Dessa forma, não só seguiria minha intuição, como iria descobrir o que motivou  Martin Scorsese, a reler tantas vezes, depois da primeira leitura em 1987, até adaptá-lo para o cinema. Ele foi publicado a primeira vez no Japão, em 1966, e fez um enorme sucesso, e colocou o cristianismo em discussão, não só no Japão, como entre os próprios cristãos.

                          O livro conta a história ficcional, mas baseada em fatos reais, de dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Garpe, que viajam ao Japão no final da década de 30, do século XVII, para descobrir o paradeiro do seu mentor, o padre Ferreira, que teria escolhido a apostasia ao martírio. No Japão, naquela época,  os cristãos eram perseguidos e torturados, até renegarem a fé pisando na imagem de Cristo. Meu exemplar foi traduzido a partir da tradução do japonês para o inglês, por William Johnston. No prefácio, ele faz uma descrição do contexto histórico, do conturbado período em que se passa O Silêncio, ou seja os conflitos entre o Oriente e o Ocidente, especialmente na relação com o cristianismo, e que de acordo com a visão do autor, fracassou no Japão, por ser considerado um “charco”, “por que suga todas as ideologias, transformando-as e, nesse processo distorcendo-as“.  O autor é católico praticante, e com uma escrita envolvente, descreve a saga dos dois jesuítas, que viverão o mesmo suplício que seu mentor, a perseguição religiosa, tortura, a angústia da fé, e no final  terá que   escolher entre abandonar o rebanho ou o seu Deus. Impossível não se emocionar, com a história. E no final, estávamos certos, eu, minha intuição e a motivação de Martin Scorcese, que teria encontrado nesta obra um tipo de amparo, poucas vezes encontrada em outras obras de arte.                          

Gabão

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                         Foi no século XV, em 1474, que Lopes Gonçalves, navegador português, a serviço do explorador, também português, Fernão Gomes, chegou a costa entre os rios Komo e Ogooué. Nos anos seguintes, estabeleceram um entreposto comercial, no estuário do Rio Komo, e batizaram com o nome de Gabão por lembrar a forma de um casaco, tipo sobretudo, usado em Portugal. Não chegaram a colonizar, apenas exerciam o comércio de escravos, madeira e marfim, com os nativos. No século XVI, chegaram os outros europeus, também comerciantes; holandeses, britânicos e franceses, sendo que estes últimos, assumiram o status de “protetor” dos nativos, depois de assinar tratados com as tribos locais, em 1839 e 1841. No ano seguinte, missionários nortes americanos, da Nova Inglaterra fundaram uma missão no estuário do rio Komo, e em 1849, a França apreende um navio de escravos ilegal, libertando-os. Os escravos libertos, fundaram um povoado, chamando-o de Libreville, (cidade livre em português), atual capital do país. Após a independência do país em 1961, Leon M’Ba, é eleito o primeiro presidente, governando até 1967, quando morre, e quem assume o poder é o seu vice, Omar Bongo, que governará o país de forma autoritária até a sua morte em 2009. Quem o sucede, é o filho, Ali Bongo, em eleições duvidosas, e permanece no poder até os dias de hoje. A título de curiosidade, descobri que o país tem a maior população de elefantes do mundo, e 85% do território é composto por florestas.

                               Daniel Mengara, autor do romance escolhido Le Chant des Chimpanzés, nasceu em 1967, em Minvoul, pequena cidade no norte do Gabão. Fez seus estudos no Gabão, na França e nos Estados Unidos, onde mora atualmente. É professor de literatura africana e antilhana de língua francesa, na Universidade de Montclair, em Nova Jersey, Estados Unidos. É autor de outros romances, sendo este seu primeiro romance escrito em francês. e também é líder do partido BDP-Gabon Nouveau, movimento político ativista de oposição que trabalha pela democratização do Gabão.

                                   Le Chant de Chimpanzés conta a história de um menino de dez anos, que sobrevive ao extermínio de sua família, escondido debaixo de uma cama. Dez anos depois descobre que seu pai está vivo, prisioneiro secreto do Grande Camarada, ditador do fictício país de Bibulu. De alguma maneira, seu pai faz chegar até ele uma carta, e a partir daí, pai e filho iniciam uma correspondência clandestina, onde inicialmente se atualizam sobre os próprios destinos, e tudo que tiveram que fazer para sobreviver. E assim, vamos conhecendo toda a história do pai e do filho, dos costumes do povo, das tradições familiares, e do país subjugado por um ditador violento e inescrupuloso. Pouco a pouco, através de questionamentos filosóficos, sobre o mal que arruina a África, o jovem, com a ajuda do pai, vai tomando consciência, de sua responsabilidade nos destinos do pais. Trata-se de um romance quase autobiográfico, e muitas vezes, me questionei, dos riscos que ele deve ter corrido, ao publicar esse livro. É uma história forte, mas escrita primorosamente, que não nos deixa parar a leitura.

Nova Zelândia

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    Para este país, repeti a mesma estratégia de Portugal, primeiro escolhi o autor, para depois decidir o livro, pois dessa forma consigo adequar meus projetos literários, aos meus desejos inadiáveis. E essa necessidade de ler, Katherine Mansfield, surgiu, após ler a biografia de Clarice Lispector, por Benjamim Moser, e descobrir o quanto esta, tinha sido influenciada por KM, assim como Virgínia Woof, que chegou a dizer que sentia inveja dela. Então como não desejar ler esta autora fantástica, que mesmo vivendo apenas 34 anos(*Wellington-1888, +1923-Fontainebleau-FR), deixou uma obra extremamente impactante.  A Nova Zelândia não poderia estar melhor representada, e para adequar  ao projeto escolhi uma coletânea de contos que se passavam no país, “A Festa ao Ar Livre e Outras Histórias“. Segundo Kathleen Jones, que escreveu uma de suas biografias, Katherine baseava suas histórias em experiências vividas em lugares por onde passou. A Festa ao Ar Livre, teria se baseado em festas oferecidas por seus pais, em Wellington, na Nova Zelândia, principalmente numa festa de despedida, em sua homenagem antes de sua partida para Londres em 1908.    O livro foi publicado pela primeira vez em 1922, e no Brasil, foi lançado pela primeira vez na íntegra, nesta edição, em 2016. É uma coletânea de 15 contos, alguns ainda inéditos no Brasil. Algumas histórias repetem os mesmos personagens, e trata dos mais diversos temas, mas sempre tendo como pano de fundo as relações humanas. Alguns são tristes, como “A vida de Ma Parker”, e “Srta. Brill”, e outros bem divertidos, como “As filhas do falecido coronel”, mas é impossível ficar insensível após a leitura de qualquer um dos contos de Katherine Mansfield.

Portugal

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                  Muito antes de Portugal ter sido sorteado, neste projeto, já havia feito minha escolha, já havia decidido que leria um dos livros de Inês Pedrosa. A grande dificuldade, era decidir qual deles, o que para uma geminiana, pode ser uma tarefa hercúlea. Resolvi usar alguns filtros para me auxiliar: adequação ao projeto #198Livros e mais um, chamado #projetospessoais, então a perfeita escolha recaiu sobre Desamparo. O ponto de partida desse romance, é o retorno de uma portuguesa, aos braços da mãe, depois de meio século de afastamento. Jacinta foi levada, pelo pai para o Brasil, quando tinha 3 anos, e agora, com a morte do padrasto, a mãe viúva, pede que vá ao seu encontro. Jacinta retorna de vez para Portugal, na companhia do seu filho Raul, o caçula, arquiteto, que vai tentar a vida lá, e o único que mantém um forte vínculo com ela. Eles voltam para a terra natal dos ancestrais, aldeia de Arrifes, próxima a vila turística de Lagar.  Suas histórias de vida, antes e depois desses movimentos migratórios, vão sendo reveladas aos poucos, em idas e vindas ao passado. Relacionamentos, e todos os sentimentos que lhes são inerentes como amor, traição, raiva, inveja, medo, vingança, são o fio condutor desse romance, ao longo da história dos dois países, e suas crises políticas e econômicas. E nós, ficamos na torcida para que saiam vitoriosos de suas inúmeras e sofridas batalhas. Não só a deles, mas a de todos os personagens que vão cruzando pelo caminho, e que temos o prazer de conhecer. Porque como diz Jacinta, “As faltas partilhadas são o que mais consolida a intimidade entre as pessoas”.

Li esse romance, assim que retornei de Portugal, para onde tinha ido acompanhando meus portugueses, marido e filha, que estavam lá, buscando conhecer suas raízes, na pequena aldeia de Canindelo. Foi uma sensação maravilhosa, voltar a Portugal, embalada pelas palavras de Inês Pedrosa!

Turquia

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                   Sempre fico na expectativa quando surge a oportunidade de ler um nobel, porque considero que a leitura deve ser, no mínimo instigante. E foi assim, quando a escolha do representante da Turquia recaiu sobre “O Museu da Inocência” de Orhan Pamuk,  ganhador do nobel de 2006. Esse foi  o primeiro livro escrito por Pamuk depois da premiação. O museu da inocência, existe de fato, e está localizado em Istambul, cidade onde foi ambientada a história do livro, o que aumentou ainda mais minha curiosidade sobre o romance. O tema central do livro, é o relacionamento extravagante entre os dois protagonistas, Kemal e Füsun. Ele, que é um autêntico representante da classe média alta de Istambul, nos anos setenta, vive o que se poderia chamar de uma vida invejável. Aos trinta anos, trabalha nas empresas da família; tem um excelente círculo de amigos, companheiros de todas as horas, e participa ativamente da vida social de Istambul, juntamente com Sibel, sua noiva. Eles, Kemal e Sibel, têm um relacionamento moderno e amoroso, e estão de noivado e casamento marcado, como era costume entre eles.  Enfim, ele vive intensamente e está feliz a vida que leva, até o dia que se reencontra, com Füsun, uma prima distante que ele não via há bastante tempo. A partir de então, sua vida nunca mais será a mesma, pois a paixão por Füsun, vai virar uma obsessão, que futuramente vai se perpetuar, com a criação do Museu, formado com qualquer objeto que tenha feito parte da história deles. Se por um lado essa obsessão por Füsun, torna a leitura extremamente maçante, o pano de fundo do enredo; a excursão pela Istambul dos anos 70; a convivência com a sociedade daquela época, como viviam e pensavam; os acontecimentos políticos; e a influência que o ocidente sobre o país (“…Os filmes dessa época nos apresentam exemplos abundantes de nosso fetiche pela luxúria infiel do ocidente…“);  são narrados de forma tão minuciosa que faz valer a pena a leitura, por todo o conhecimento que nos proporciona, sobre a vida naquele país.

A história é narrada por Kemal, e em dois momentos o próprio Pamuk vira personagem, o que deveria tornar o enredo mais interessante, mas a verdade é que fiquei frustada com o livro.

Montenegro

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 Montenegro está situado na Europa, e fazia parte da extinta Iugoslávia, sendo hoje um dos mais jovens países do mundo, atrás apenas de Kosovo e Sudão do Sul. Conquistou a independência da Sérvia, em 03 de junho de 2006. E, se ainda não está na rota dos destinos turísticos mais procurados, não é por falta de atrativos. Seu território foi contemplado com uma natureza generosíssima, com uma enorme diversidade de paisagens, tais como; montanhas, lagos, parques naturais, praias e até mesmo fiordes, os únicos do mediterrâneo. Olha só o que o poeta britânico Lord Byron, escreveu sobre o país: “At the birth of the planet the most beautiful encounter between land and sea must have been on the Montenegrin coast“. E tem mais, cidades medievais, além de abrigar uma rica história, que o diga Kotor, classificada pela UNESCO como patrimônio da humanidade, pelo seu valor histórico e cultural.

A autora do livro escolhido, Xenia Popovich, nasceu em 18/02/1977, em Montenegro, mas foi criada na Itália e nos Estados Unidos. Ela escreveu sua primeira novela(A Boy from the Water), com 18 anos, mas só foi publicada em 2004, depois que ela voltou para Montenegro. O livro tornou-se um bestseller e virou filme, com o título de Look at Me.

A Lullaby for no Man’s Wolf,  o segundo livro da autora, foi escrito em montenegro e traduzido para o inglês pela própria autora. Ambientada numa cidade e país não nominados, o livro tem como pano de fundo, a história de Klara, narrada por ela mesma. Abandonada pela família, ela cresceu no orfanato sem saber quem a abandonou, e nem porque, sentimento este que partilha com quem cresceu e viveu ao lado dela, e como ela, apesar de procurar sempre o isolamento. Klara mistura humor e ironia, sagacidade e cinismo, ao relatar a forma como os diretores do orfanato usavam as crianças, para obter doações, e o destino já traçado e sem alternativas, que as aguardavam ao saírem do orfanato. E continua nesse tom, a relatar sua história, os relacionamentos que marcaram sua vida; a professora de piano; seu primeiro amor, com Vuk; seu casamento; e todos os eventos trágicos que viveu. Uma vida marcada pela tristeza e amargura, como ela diz no início, “Most people take time to turn bitter. I was born bitter” . É uma história forte, e triste, que faz chorar, mas, ao mesmo tempo, o livro tem uma força que prende, a forma como mostra a alma dos personagens, a sensibilidade e as fragilidades, dos quais não conseguem fugir, e que fazem com sejam massacrados pelo sistema.

Ucrânia

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        ucrania_1768         Depois de ler a biografia de Clarice Lispector, por Benjamin Moser, no final do ano passado, e conhecer suas origens ucranianas, o país não saiu mais da minha mente. Então, o jeito foi colocar a Ucrânia na vez, para conhecer um pouco mais sobre o país. E melhor ainda, sabendo que Nicolai Gógol era de fato ucraniano, e não tendo eu ainda, lido nada dele, cheguei a escolha perfeita com o seu livro Tarás Bulba, escrito em 1835. Para escrevê-lo Gógol fez uma grande pesquisa sobre a história e o folclore da Ucrânia. Na época em que se passa a história(uma novela na verdade), o país, tendo sido ocupado pela Lituânia, havia passado ao julgo da Polônia, por união de soberanos. Em contraponto a política de conversão ao catolicismo imposta aos ucranianos ortodoxos, pelos poloneses, foram criados grupos de resistência, as confrarias, dando início a uma grande revolta cossaca. Como explica Nivaldo dos Santos, tradutor, no posfácio do livro: “Os cossacos haviam surgido no sul da Ucrânia no século XV. O termo “cossaco” é de origem turca(“kazak” significa homem livre) e era usado para designar os homens que, ocasionalmente apareciam nas estepes próximas ao rio Dniepr para caçar e pescar”. E  já no século XVI, eles formavam uma poderosa sociedade militarizada.

                          Tarás Bulba, é um velho e  radical coronel, criado com a ânsia guerreira. Seus dois filhos Óstap e Andríi, acabam de voltar para casa depois de concluírem os estudos, o que para Bulba não significa absolutamente nada, não tem importância, o que vale mesmo, é aprender a arte de lutar, ser um verdadeiro cossaco. Embora estejam em tempos de paz, ele não vê a hora de levar os filhos para se alistarem no Zaporójie, região que entre os séculos XVI e XVIII serviu de quartel general para os cossacos, e que constitui a verdadeira ciência para Bulba. Ele decide que não podem perder tempo e para desespero da mãe, que mal tem tempo de abraçar os filhos, resolve partir na manhã seguinte. Tarás Bulba tem uma personalidade vibrante, ele é um brutamontes machista com seus valores nacionalistas e éticos bem ao sabor da cultura cossaca. E no meio dessa vibração cossaca vamos acompanhar as aventuras de Bulba e seus dois filhos. Ele é fascinante, e é impossível ficar indiferente a sua pessoa, as vezes achava graça do jeito dele, e as vezes morria de raiva. Embora não goste muito da violência, quase podia ouvir os sabres batendo e cortando as cabeças, ainda assim fiquei fascinada pela história.

Coreia do Norte

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img_1697 Que a Coréia do Norte, era uma ditadura, e um dos países mais fechados do mundo, eu já sabia, por isso conhecer como acontece a vida por lá, parecia uma tarefa quase impossível de realizar. Mas graças ao relato auto-biográfico de Kang Chol-Hwan, em seu livro Les Aquariums de Pyongyang, consegui abrir um pouco a caixa preta da Coréia do Norte.

Neste livro, Kang, relata como era sua vida na Coréia do Norte, do nascimento até a fuga para a Coréia do Sul, onde vive até hoje.  Até os nove anos, ele vivia uma vida tranquila e feliz em Pyongyang, com sua família, pois este era o universo que ele conhecia, e achava até que o Grande Líder, Kim Il-Sung dava proteção e cuidava dos coreanos. Os avós de Kang haviam emigrado para o Japão, muitos anos antes, em busca de melhores condições de vida, no período em que a Coréia era colônia do império japonês(1910 a 1045). No Japão, o avô fez fortuna e eles viviam bem, até Kim Il-sung assumir o poder no país, em 1948. A avó dele, que era militante do partido comunista, ficou ansiosa para retornar a terra natal, e apesar do avô não compartilhar da ideia, a vontade da avó prevaleceu e terminaram voltando. No início, o governo dava apoio e respeitava os que haviam retornado do Japão, mas pouco a pouco foram se apossando dos bens e da liberdade de todos de sua família, mesmo o avô tendo doado sua fortuna para o partido. Até que um dia o avô desaparece, e descobrem que ele havia sido preso por ser considerado traidor da pátria. Logo em seguida a família é levada para o campo de trabalhos forçados de Yodok, onde são mantidos os opositores políticos do regime. Na verdade eles são considerados culpados por associação, por serem parentes do “criminoso”.

É chocante o relato de Kang sobre o que foi a vida dele nos dez anos que viveu em Yodok, na verdade como sobreviveu a fome, frio, maus tratos, torturas físicas e psicológicas, humilhações, etc. Depois de 10 anos eles foram libertados, segundo Kang, seria a morte do avô uma das razões. Outra possibilidade seria as inúmeras petições da família que morava no Japão, em busca de informações, daqueles levados para o campo, recebendo sempre a mesma resposta de que estariam viajando. Essa situação vivida por muitas famílias, havia sido tema de um programa de televisão no Japão. Mesmo fora do campo, a vida continuava sob vigilância, e inúmeras restrições. Kang sabe que existe outra realidade fora da Coreia do Norte, e anseia por descobrir como é a vida lá fora. E é escutando outras estações de rádio, não permitidas pelo governo, que acaba sendo denunciado. Percebendo que existe a possibilidade de voltar para o campo, resolve arriscar tudo e fugir do país. Sua grande preocupação além de salvar a própria pele é denunciar os crimes cometidos contra o povo coreano. É muito triste saber que tudo que está no livro não é ficção, são fatos reais.  Sempre gosto de aprender sobre outros povos, mas nesse caso, não sei se foi melhor conhecer essa realidade e não poder fazer nada.