Síria

No Knives in the Kitchens of This City, de Khaled Khalifa, foi o romance escolhido para representar a Síria, no projeto #198 Livros. Antes de iniciar a leitura, fiz questão de pesquisar um pouco sobre a história da Síria, a fim de poder entender melhor a situação política do país, no período em que foi ambientada a história, ou seja entre os anos 60 e 2000. O romance se desenvolve na cidade de Aleppo, e termina vários anos antes da guerra civil.

Khalifa Khalifa, nasceu em Aleppo, Síria, em 1964. Se formou em artes, pela Universidade de Aleppo. Escreveu roteiros para TV e cinema, poesia e prosa, sendo No Knives in the Kitchens of This City, seu quarto romance. Vive em Damasco.

Khalifa, conta a história de uma tradicional família, mãe e quatro filhos, que se mudam de Midan Akbas, uma pequena vila ao sul da fronteira com a Turquia, para Aleppo, cidade natal da mãe, depois que esta é abandonada pelo marido. O romance é narrado por um dos filhos, que não se identifica nem revela muito sobre si mesmo, nem mesmo o nome. Revela que seu nascimento ocorrido poucos dias antes do golpe de 1963, não é um bom sinal, pois o associa a situação política do país, vítima de um regime opressor e cruel, que leva a violência e decadência, saqueando e sufocando de suas vidas qualquer possibilidade de felicidade. Cada personagem, será retratado por ele, sendo os mais importantes, além da mãe, uma professora, oriunda de uma tradicional família de Aleppo; Suad, a irmã, mais nova, que morre cedo devido a uma deficiência, e que provoca atritos entre os irmãos e a mãe, pois tem vergonha da doença da filha, e a esconde da sociedade, causando a indignação dos filhos; Swasan, a irmã vibrante, sensual, que vive intensamente seus extremos, dos relacionamentos aos propósitos de vida, na expectativa de alcançar a salvação; Rashid, o irmão músico, depressivo e perdido na vida; Nizad, tio deles, o irmão mais ligado a mãe, e que sofre muito preconceito por parte da família, e da sociedade, pela sua homossexualidade, mas nem por isso abre mão de vivê-la intensamente, o que o torna um dos personagens mais bem estruturados do romance.

O romance se desenvolve em círculos e camadas que vão e vem, liberando aos poucos as informações sobre os personagens, aprofundando dessa forma o conhecimento sobre a personalidade de cada um. No entanto, a narrativa torna-se, algumas vezes, lenta e difícil de seguir.

Foi publicado pela primeira vez em árabe, em 2013, e traduzido para o inglês em 2016, por Leri Price. Foi o vencedor do The Naguib Mahfouz Medal for Literatura.

Cingapura

Inicialmente tinha escolhido, Fistful of Colours, de Suchen Christine Lim, para representar a Cingapura, mas encontrei muita dificuldade para conseguir um exemplar, não tinha no kindle, e nem consegui que a amazon entregasse no Brasil. Resolvi então “move on’ e escolher outro. Terminei me decidindo pelo romance de Kevin Kwan, Asiáticos Podres de Ricos, uma leitura bem leve para dar um descanso dos temas bem pesados que costumo ler neste projeto. O romance, que é o primeiro de uma trilogia, foi baseado na vida do autor, e retrata a vida de ostentação dos multimilionários de Cingapura. Segundo o autor em entrevista ao The Washington Post , “É um livro muito específico, sobre uma parcela da sociedade muito específica. É uma sátira, como se eu colocasse uma lente sobre a situação e permitisse que cada um tirasse suas próprias conclusões sobre.”

De forma bem humorada, Kevin Kwan, conta a história de Rachel Chu e Nick Young, dois jovens professores universitários de ascendência oriental, que moram em Nova York, e vivem uma vida tranquila e feliz, num relacionamento que já dura dois anos. Mas tudo muda, quando Rachel aceita o convite de Nick, para passar as férias em Cingapura, e acompanhá-lo no casamento do seu melhor amigo. Ela não poderia nunca imaginar que ele era o herdeiro de uma das famílias mais ricas de Cingapura, e o solteiro mais cobiçado da Ásia, e que o casamento de Colin era o acontecimento do ano. De forma sarcástica, o autor vai mostrando a hierarquia das famílias de Cingapura, o narcisismo e preconceito ali enraizados, bem como a opressão exercida principalmente sobre as mulheres. Mas não é só sátira, e os problemas de Rachel com a família de Nick que Kwan descreve, tem também um olhar sobre os deslumbrantes cenários da Ásia, além das comidas, que me deixaram com água na boca. Quando for visitar Cingapura, já sei até onde devo ir para comer as deliciosas comidas do país. A leitura é leve e bem humorada, e consegue nos prender até o final do romance.

Índia

Estava na dúvida sobre qual livro ler para a Índia, pois havia muitas indicações, mas bastou ler a sinopse de “O Deus das Pequenas Coisas” de Arundhati Roy, para que me decidisse por ele.  Arundhati, nasceu em Kerala, na Índia, em 1961, estudou arquitetura e trabalhou em cinema como designer de produção e roteirista. É uma ativista dos direitos humanos e causas ambientais. Esse foi o primeiro livro da autora, ganhou o Prêmio Booker Prize de 1997.

A história tem início com o retorno dos gêmeos fraternos Estha e Rahel, já adultos, à Ayemenem, cidade do estado de Kerala, sudoeste da Índia. Eles, apesar de serem gêmeos fraternos, têm uma ligação visceral, quase siamesa, e foram separados depois da noite do terror, há 23 anos. Só saberemos o que se passou nessa noite, e em todos os desdobramentos que se seguiram, e que afetaram toda família, no final do livro. A autora, vai soltando aos poucos, as características de cada personagem, e como a estrutura familiar, extremamente conservadora, numa sociedade dominada pelo sistema de castas, contribuiu para aprisionar todos os membros da família, num looping de infelicidade, até o desfecho trágico. Partindo da perspectiva dos gêmeos, a família é composta pela mãe divorciada: Ammu, que precisou sair de casa para fugir da violência, e como não tinha dote, casou com o primeiro que aparaceu, solução essa, que se revelou ineficaz, uma vez que o marido era alcoólatra e abusivo, e após o divórcio, ela volta para casa com os gêmeos, mas sem perspectivas, por ser mulher e divorciada, sem espaço no universo familiar e na sociedade; a avó, de personalidade forte, mas vinda de um casamento abusivo, só tem olhos para o filho homem Chacko; a tia-avó, amarga, que viu todos os seus sonhos desmoronarem por um amor não correspondido; um tio perdido, parado no tempo, sem forças para seguir em frente. Com a chegada da prima Sophie, filha do tio Chacko, nascida na Inglaterra, branca, e que mereceu ser amada desde o princípio, os gêmeos, aprendem que existem “leis do amor”, que podem definir quem deve ser amado, e o quanto.  É um livro fantástico, uma história extremamente triste, mas que não se pode ignorar.

Macedônia

Não foi difícil encontrar um livro para a Macedônia, na verdade eu nem cheguei a  procurar, porque decidi pegar carona nas pesquisas das meninas (Camila Navarro e Luciana Malheiros) do projeto 198 Livros, pois já sabia, que não haveria muitas opções, pelo menos com fácil acesso. O livro em questão foi o The Last summer in the Old Bazaar, da macedônia Vera Bužarovska, nascida em 1931, em Bitola, Macedônia, e morta em 2013, em Skopje.Vera começou a carreira de escritora em 1962, tendo publicado mais de 40 trabalhos de prosa e poesia, tanto para adultos como crianças.

The Last Summer in the Old Bazaar, foi publicado em 1974, e trata-se de uma autobiografia da autora, durante sua infância em Bitola, no período em que aconteceu a segunda guerra mundial. A maior parte da história acontece no “Velho Bazaar”, onde brotam todos os talentos e onde tudo acontece, um verdadeiro termômetro da vida em Bitola. É lá que fica o restaurante de Gazda Mito, onde a narradora Oli, trabalha, junto com seus dois amigos, Sami e Leon, quando não estão aprontando. Por meio dos relatos de Oli, nós percebemos as dificuldades, cada vez maiores, causados pela guerra, a terrível ameaça que a chegada dos alemães provocam na cidade, a perseguição aos judeus. Esses, no entanto, são o pano de fundo da história, que nos conta também, da amizade entre três crianças, do amor que essa amizade faz brotar, que faz com que queiram conhecer os sonhos uns dos outros. Que se importem tanto, ao ponto de usar toda a força e a coragem necessários para conseguir realizá-los. Uma história sensível, que nos toca o coração.

Jamaica

Para mim, não tem como pensar na Jamaica, sem associar imediatamente ao incrível Bob Marley, de quem sou fã incondicional, das suas músicas, que embalaram muitos momentos divertidos, vividos na faculdade. A Jamaica, é uma ilha exótica e paradisíaca, situada no Caribe. Essas características promoveram o incremento do turismo, e suas consequências foram magistralmente problematizadas no romance de Nicole Dennis-Benn. 

A autora, nasceu em Kingston, a capital da Jamaica, onde viveu até os 17 anos, quando mudou-se com o pai, para os Estados Unidos, para estudar medicina. Depois de ter concluído o mestrado na área de Saúde Pública, e atuado alguns anos na área, resolveu se dedicar a atividade que realmente gostava, a escrita. Seu livro de estreia, “Bem-Vindos ao Paraíso“, escolhido para representar o pais, no projeto #198livros, foi muito aplaudido, tendo vencido o Lambda Literary Award.

Eu terminei de ler ontem, mas ainda continuo lá, na Jamaica, convivendo com os personagens, torcendo por eles e me indignando com a miséria humana: que despreza e exclui quem é diferente; que desconhece o humano no outro para cruelmente usar como fonte de renda, ou em benefício próprio; que se apropria da natureza e da cultura de um povo, pelo dinheiro. Ao narrar a trajetória de Margot, e todos os seus personagens, a autora explora temas como sexualidade, gênero, turismo sexual e racismo. Margot trabalha “oficialmente” no resort de luxo, numa praia da Jamaica, e luta com todas as suas forças para manter sua irmã mais nova, Thandi, na escola, para que ela possa ter uma oportunidade de vida melhor do que ela própria. Ela complementa sua renda usando o corpo, como foi acostumada a fazer desde sempre. O enredo se desenvolve ambientado numa pequena vila litorânea, River Bank, próxima ao resort onde Margot trabalha, e que agora também está ameaçada de ser engolida por mais um resort de luxo. Aos poucos, vamos conhecendo todos os personagens envolvidos na trama, bem como seus dramas profundos; a luta pela sobrevivência diária, marcada por um passado cruel, que volta sempre para assombrar, de mãos dadas com a pobreza, e a mercê da ganância dos poderosos, que não conhecem limites. Parece que todos os personagens foram vítimas de violência, e praticam a violência, talvez para sobreviver, difícil julgar. Uma leitura de pegada, não conseguimos parar, e quando acaba, não conseguimos esquecer

Myanmar

     Localizado no sudeste asiático, o país deixou de integrar o Império Britânico, em 1948. O Budismo teravada, é praticado pela maioria da população, que no entanto, convivem com outras religiões, como cristãos, hindus e muçulmanos. Existem mais de cem grupos étnicos, mas atualmente o maior conflito, está na violenta perseguição que estão sendo vítimas, a minoria muçulmana rohingya, por parte do exército.

       Para representar o país, não precisei procurar muito, tanto pela facilidade de baixar para o kindle, como pela unanimidade de indicação, escolhi o romance de Nu Nu Yi, Smile as They Bow. O livro narra o Festival Taungbyon, que acontece na cidade de Taugbyon, nas imediações de Mandalay, e teve origem na época do Rei Anawrahta, no início do século XI. Trata-se do festival nos nats(espíritos), que acontece numa grande celebração que dura 7 dias, e movimenta toda a cidade, com fieis vindo de todas as províncias. Invocam-se os espíritos por meio de cantos, danças, e orações, que são incorporados pelas natkadaws. São figuras femininas preferencialmente representadas por gays, embora o homossexualismo seja proibido no país, exceção feita ao período do festival.

No romance, a personagem principal, é a natkadaws Daisy Bond, que ganhou esse nome, ao enfrentar a polícia, numa tentativa de viver a sua sexualidade. Mas no momento em que conhecemos a personagem, ela não tem mais tanta jovialidade, e apesar de sua importância, emocionalmente vive na dependência de seu “marido”, Min Min, trinta anos mais jovem, e a quem ela comprou, quando era adolescente. Ela vive o desespero de perceber que ele está lhe escapando, e tem medo que a deixe por uma mulher de verdade. Por trás da história de Daisy, e sua trajetória até tornar-se o que é hoje, a autora no mostra os bastidores do festival, como tudo envolve dinheiro e poder. Como toda a população vive em função desses dias de festival, dos fieis, aos cantores, dançarinos, ambulantes, vendedores de comida, até os “pickpoket”. Tudo gira em torno do dinheiro!

 

 

Djibouti

         O Djibouti, é um minúsculo país localizado no nordeste da África, numa região conhecida como os “Chifres da África”. Possui uma localização estratégica, situada no estreito de Bab el Mandeb, que liga o golfo de Áden ao mar Vermelho, o canal privilegiado para rumar ao de Suez, pode onde passa 10% da circulação de petróleo e 20% do comercio mundiais.  Pela sua proximidade com a Somália e o Oriente Médio, fazem do país uma área de importância geopolítica e militar. Nada mais do que 7 nações ocupam o Djibouti com presenças militares, EUA, Japão, França, Itália, Espanha, e recentemente Arábia Saudita e China. Sendo que os Estados Unidos e a China possuem bases permanentes, e pagam anualmente  63  e 100 milhões de dólares, respectivamente pelo aluguel das bases.

         Abdourahman A. Waberi, é o autor do romance escolhido Passage des larmes, publicado pela Editora Jean-Claude Lattès, em 2009. Waberi, nasceu em Djibouti, capital do  Djibouti, em 1965. Mudou-se para a França em 1985, onde concluiu os estudos na universidade de Borgonha. Escreveu vários romances, foi saudado pela crítica, recebeu inúmeros prêmios. Vive entre a França e os Estados Unidos onde ensina literatura.

Passage des larmes(– باب المندب, nome do estreito Bab el Mandeb, em árabe), é um romance de espionagem, misterioso, tenso, que faz eco a situação atual, mas ao mesmo tempo, agradável de ler, pela forma poética como é narrado. Fala do exílio, do fanatismo religioso, e a geopolítica da região dos chifres da África. Estruturado de forma a dar voz a dois narradores, Djibril, que tem 29 anos, vive em Quebec, no Canadá e está retornando a Djibouti a trabalho, depois de 15 anos de exílio; e um fanático religioso que se encontra preso, e que terá sua identidade revelada aos poucos, a medida que a narrativa for avançando, e que parece tudo saber sobre Djibril e os seus passos. Entre os dois narradores, o autor inseriu, no contexto atual, a presença de Walter Benjamim, filósofo, ensaísta e tradutor, que morreu no exílio, enquanto tentava fugir dos nazistas, e que parece ser a inspiração dos dois personagens, antagônicos entre si. Ao chegar, Djibril vai se deparar com dois inimigos, um real, tangível, que é o inimigo político, representado pelos grupos fanáticos que utilizam o islamismo, para aterrorizar, e o outro é ele mesmo, quando confrontado com seu passado, que havia deixado para trás ao sair do país. Todas as dores e lembranças do passado, pouco a pouco vão lhe invadindo e assustando. A intriga é eletrizante, além de extremamente instrutiva, para aprender sobre a região.