Arquivo da categoria: #198 livros

Haiti

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               De acordo com o provérbio crioulo: O Lápis do bom Deus não tem borracha, não há como fugir ao destino irreparável, pois ele anda sempre a espreita. Foi esse proverbio que Louis-Philippe Dalembert, romancista haitiano, natural de Porto Príncipe, usou para título do romance, que retrata a infância vivida em Bel-Air, um bairro pobre situado as margens da baia de Porto-Principe. Louis-Philippe, deixou o Haiti, depois de ter se formado em jornalismo, e trabalhado nessa área em seu país natal até ir para França, para estudar Literatura Comparada, na Sorbonne, onde obteve o titulo de doutor. Poliglota(7 idiomas), já rodou o mundo, percorrendo sucessivamente, Haiti, França, Itália, Tunísia, Israel, Alemanha, África do Sul, Congo, Cuba e Brasil. Recebeu vários prêmios internacionais, entre eles o “Casa de las Américas”. Atualmente vive entre Itália, Paris e Porto Príncipe.

No livro, o protagonista retoma a cidade natal, depois de um prolongado exílio, na expectativa de reviver a infância tão presente em sua memória. No entanto nada encontra, nem os locais por onde viveu e passou, nem as pessoas que foram importantes em sua vida, principalmente Faustino, uma controvertida figura, mas que exerceu uma enorme influência para o menino. Depois da tentativa frustada de encontrar com Faustino, ele volta ao passado,  para o período em que viveu naquele bairro popular as margens da baia de Porto-Pinto, tendo um Peugeot 304 abandonado no quintal, como companheiro de brincadeiras, uma varanda como cenário, um galo, a avó severa, e suas tias-avós, e principalmente Faustino, de quem nada sabe, a não ser os cuidados que dispensava ao menino. E é com o amor que lhe devota, que imagina como seria a vida de Faustino, preenchendo com a imaginação as lacunas de sua vida, pelo menos as que lhe são desconhecidas. O autor divide o romance em duas partes, a vivida pelo menino, e aquela a que pertenceu Faustino, segundo sua imaginação, alternando os capítulos, e mesclando prosa e poesia.

Coreia do Sul

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                     Kyung-Sook Shin, nasceu em 1963, numa pequena vila rural, perto da cidade de Jeongeup, na Coreia do Sul. Aos dezesseis anos mudou-se para Seul, para trabalhar numa fábrica de componentes eletrônicos, enquanto frequentava uma escola noturna. Foi durante um período de greve da empresa, que iniciou seu caminho na literatura. Aproveitava as paradas, para copiar num caderno de anotações, os trechos do romance que lia. Posteriormente, frequentou um curso de escrita criativa, no Instituto de Artes de Seul, publicando sua primeira novela, aos 22 anos.  Escreveu 7 romances, 7 coletâneas de contos e três obras de não-ficção, tendo recebido inúmeros prêmios na Coréia do Sul, onde é muito lida, e aclamada, além de ter recebido o prêmio Dong-in Literary e o francês Prix de l’Inaperçu. Divide o tempo entre Seul e Nova York, onde atualmente, é professora visitante.

                      Por Favor, Cuide da Mamãe, foi o livro escolhido para representar a Coreia do Sul, no projeto #198 livros, e o sexto romance escrito por Kyung. Publicado em 2008, na Coreia do Sul, foi a primeira obra sul coreana, a entrar na lista dos mais vendidos do The New York Times e a ficar entre os dez melhores livros de ficção escolhidos pela Amazon. Vendeu mais de 1,5 milhões de cópias, e foi publicado em 23 países. Segundo a autora, esse livro foi escrito para sua mãe. E o desejo de escreve-lo surgiu aos 16 anos, quando viajavam juntas, num trem para Seul. Ao olhar para mãe, viu como ela tinha um olhar solitário, então prometeu que um dia escreveria um livro e o dedicaria a ela.

                    O ponto de partida, é o desaparecimento de uma mãe, chamada Park So-nyo, de 69 anos, no meio da multidão, quando chegava com o marido, em Seul, para visitar os filhos. A história retrata a luta desesperada da família, para encontrá-la, e é narrada, de forma inusitada, por 4 narradores; a filha mais velha, o filho, o marido, e ela própria. Na verdade, há um só narrador, que dialoga com eles através de suas lembranças, trazendo-as de volta, para que através dessa realidade, vivenciada por eles, possam entender quem de fato era a mãe deles, e as dores pelas quais passou. Pois eles só a viam como mãe, e esposa, e não como uma pessoa com necessidades próprias, e é necessário fazer esse reconhecimento, para poder se aproximar mais dela. É um livro muito triste, pois o processo é doloroso, reconhecer, agora que a mãe não está ali, o que poderia ter sido feito para fazê-la mais feliz. Um livro que nos faz pensar, questionar, tentar encontrar uma maneira de estar mais próximo daqueles que amamos. Mas, o livro ainda vai além, através das lembranças dos personagens, vamos viajar pela Coreia, conhecendo suas tradições, como a Lua Cheia da Colheita; os rituais ancestrais do ano novo; a gastronomia, e traçar um retrato da atual Coreia.

Indonésia

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           Embora o nome do país seja bastante conhecido, precisei olhar no mapa para me localizar, pois para mim, aquela região é muito confusa. O país fica localizado entre o Sudeste Asiático, e a Austrália, só que o “país’ é o maior arquipélago do mundo, com apenas 17 508 ilhas, então é realmente muito difícil, tentar visualizar. O romance escolhido, Guerreiros da Esperança, (Laskar Pelangi, no original e  The Rainbow Troops, em inglês), é o livro de estréia de Andrea Hirata, e se passa na Ilha de Belitung, local de nascimento do autor. Foi publicado em 2005, sendo o primeiro de uma quadrilogia, de inspiração biográfica, seguidos por: Sang Pemimpi(O sonhador), Edensor e Mayamach Karpov. Foi adaptado para o cinema em 2008.

          O livro, narrado por Ikal, um menino pobre, que assim como seus companheiros, têm o sonho e a esperança, que a educação possa mudar suas vidas. Eles vivem na pequena Ilha de Belitung, a mais rica da Indonésia, graças as suas reservas de estanho, descoberto pelos colonizadores holandeses, e explorado pela empresa PN Timah, que significa empresa estatal de estanho. A empresa foi tomada pelo governo indonésio, que assumiu não só os bens como a mentalidade feudal, pois mesmo após a independência, continuou com o tratamento discriminatório dado aos nativos. Esse tratamento, criou um contraste absurdo, entre os ricos executivos da PN exploradores de estanho e o povo nativo vivendo em extrema pobreza. Para garantir o direito a educação, conforme o artigo 33 da Constituição da República da Indonésia: “Todo cidadão tem direito a educação“, a jovem professora Bu Mus e do diretor Pak Harfan, são incansáveis na luta para possibilitar a Ikal e seus companheiros, esse direito. São muitas as dificuldades que vão enfrentar para garantir aos alunos a educação prevista na constituição. A começar pela ameaça de fechamento da pequena escola da aldeia, Muhammadiyah, pelo superintendente escolar do Departamento de Educação e Cultura da Sumatra, que exigiu o minimo de dez alunos para evitar o fechamento, depois vem a luta para manter a escola de pé, já que a estrutura física da escola é bastante precária. Há ainda o interesse de exploração do solo no terreno da escola. Somente a garra e a fé de professores e alunos para vencerem todos os desafios.   É comovente ver como os Bu Mus  e Pak Harfan, conseguiram criar laços fortes o suficiente, nos meninos, para enfrentar desafios, vivenciar o amor, dividir experiências e conquistar  vitórias.

Venezuela

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                  La ficción es una forma de encarar y encarnar la realidad; es realidad también y no de un modo subsidiario” a afirmativa é do escritor venezuelano Jesús Miguel Soto,  nascido em El Valle, Caracas, em 1981. JM Soto, cursou comunicação social e letras na Universidade Central da Venezuela, trabalhou como professor universitário, revisor e editor, e atualmente reside no México. Além dos muitos prêmios recebidos, integrou a lista definitiva do Projeto Literário Bogotá39, do ano de 2017 , que visa selecionar 39 escritores que ainda não completaram 39 anos. Esse limite foi estabelecido em função de Gabriel Garcia Márquez, que tinha 39 anos quando escreveu Cem Anos de Solidão. Soto publicou as novelas La máscara de cueroEl caso Boeuf (Relato a la manera de Cambridge) e o livro de contos Perdidos en Frog, publicado em 2012 e escolhido para representar a Venezuela, neste projeto.

                       Segundo o autor, trata-se de um livro escrito dentro do padrão, com 15 histórias bem clássicas, e que sua única proposta pessoal, que fugiria a esse padrão seria o convite, no prólogo, para ler o livro como quinze livros de uma única história, em vez de um livro de quinze histórias. São histórias curtas, numa linguagem fluente, embora trate de temas densos e surreais, como um escritor obsessivo que persegue um crítico literário, por não ter escolhido sua obra em um concurso; um povoado no meio do nada, com habitantes estranhos e cachorros guardando as fronteiras; um grupo de amigos que fundam um país dentro de um apartamento, e  outros nesse estilo. Persiste em todos, um tom depressivo, macabro mesmo(como no conto “Perdidos en Frog”, e “Uno de muchos posibles atajos), e o desenvolvimento da história obedece ao mesmo padrão, em que a partir de uma guinada na narração, leva ao desfecho, quase sempre trágico. O autor usa um tom irônico, numa descrição surreal para passar sua mensagem.

 

Brunei

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                   Brunei, oficialmente Estado de Brunei Darussalam, que em tradução livre significa “onde vive a paz”, está localizado na menor parte da Ilha de Bornéu, no Sudeste Asiático. É um pequeno país islâmico, um dos menores e mais ricos do mundo, com apenas 400 mil habitantes e praticamente do tamanho do nosso Distrito Federal. Foi colônia britânica, tornando-se independente apenas em 1977.  O livro escolhido, ou melhor dizendo, o livro encontrado para representar o país foi Written in Black, de K H Lim. Trata-se do primeiro romance do autor, que escreve apenas nas horas vagas, quando não está exercendo a profissão de médico. Nascido e criado em Brunei, formou-se em medicina no Reino Unido em 2008, e vive atualmente em Singapura.

                      O romance narra as desventuras de Jonathan, um menino de 10 anos, cuja família se encontra totalmente desestruturada. Sua mãe, saiu de casa há cerca de seis meses, teoricamente para tratamento de saúde na Austrália, e ele se encontra angustiado, de saudade, e por não conseguir conversar com ela ao telefone; Michael, o irmão mais velho, um adolescente de 16 anos, foi posto pra fora de casa pelo pai, há dois meses e meio, por fugir ao seu controle; e para completar, ele não mantém um relacionamento amistoso com o pai, que é emocionalmente instável e agressivo. No início do romance, ele recebe a notícia que o avô, que mora com o tio em outra cidade, faleceu, e assim a família, o pai, a irmã mais velha, e o irmão mais novo, têm que se deslocar para lá, para participar do funeral. Inicialmente, Jonathan, nutre a esperança, que a mãe retorne para poder assistir ao funeral, mas quando percebe que isso não irá acontecer, e que parece haver um complô, para mantê-lo incomunicável com ela, ele se desespera, e resolve ir atrás do irmão. Acredita, que Michael pode saber o que está por trás da partida da mãe, pois descobre, através do primo, que os dois continuam se comunicando. Assim, quando o caminhão vem fazer a entrega do caixão do avô, ele se esconde, em um caixão vazio, dentro do caminhão, para tentar chegar até o irmão. Tem início então, a grande aventura de Jonathan, que precisará de muita coragem, para enfrentar todo tipo de perigo e adversidade pela frente, no encontro com os poklans (gang de adolescentes de Brunei, cheiradores de cola) e com vendedores esquisitos, nas casas assombradas, além de grandes descobertas, como a amizade e o conhecimento de si mesmo.

 

Nicarágua

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                                         “Louca falível, terna e vulnerável/ que se apaixona feito puta triste por causas justas/, homens bonitos e palavras brincalhonas.” É assim que Gioconda Belli, se auto define em um dos seus poemas. Essa, muito premiada poetisa e romancista, nasceu em Manágua, na Nicarágua, em 1948. Começou a escrever seus poemas ainda jovem, na época em que se envolveu na luta, para derrubar a ditadura no país, integrando o a Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN). Casou três vezes, a primeira ainda muito jovem com 18 anos, e tem 4 filhos.

                                     No romance O Pais das Mulheres escolhido para representar a Nicarágua, a autora narra a história da fictícia República de Fáguas, um pequeno país latino americano, governado por um grupo de mulheres, do Partido da Esquerda Erótica-PEE. O livro começa, com o atentado sofrido pela presidente, Viviana Sansón, que a deixa em estado de coma, e vai se desenvolvendo, a partir do despertar de Viviana, em um galpão, que abriga todos os objetos que ela perdeu durante sua vida. Cada um lhe traz uma recordação, e através de suas lembranças vamos conhecendo, não só a história de Viviana, mas a de suas companheiras de partido, e como chegaram ao poder. Em contrapartida, a ausência da presidenta, no comando do país, vai por a prova a capacidade de suas companheiras, de fazer valer os ideais que serviram de base para o governo.

                                   É uma leitura leve, e divertida, assim como a proposta do PEE, de governar com humor. Depois de conhecer a personalidade e história de vida de Viviana, através dos relatos de Gioconda, fica o questionamento, se o romance não seria baseado na própria história da autora.

Reino Unido

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                         Assim como aconteceu em Portugal e Nova Zelândia, com apenas um único livro, consegui atender a dois projetos de leitura, o #198livros#  e #meusprojetospessoais#.  Para que isso possa acontecer, tenho procurado escolher romances de autores ainda inéditos para mim, dentro da minha lista de desejos, e que tenham sido ambientados nos destinos sorteados, atendendo assim o 198livros. Para o Reino Unido, escolhi Mrs Dalloway, de Virgina Woof, um dos romances mais conhecidos da autora, e ambientado em Londres. O enredo é bastante simples, toda a ação se passa em um único dia do mês de junho de 1923, onde nada de excepcional acontece na vida dos principais personagens, que são Clarissa Dalloway e o Septimus. Ela, esposa de um membro do parlamento britânico, uma socialite, sem maiores preocupações, que cuidar da casa e oferecer jantares; ele, soldado, ex combatente, com todas suas sequelas deixadas pela guerra. No início do dia descrito no livro, ela está indo comprar flores para a festa, que se realizará naquela noite, e ele esta indo para o psiquiatra, e seguiremos acompanhando a vida dos protagonistas, ao longo do dia, de dentro de suas mentes. Pois a importância do romance deve-se, principalmente, ao pioneirismo da escritora, na linguagem utilizada para descrever esse dia, na vida dos personagens, empregando a técnica do fluxo de consciência, através do discurso indireto livre, onde não se sabe se quem está falando é o personagem ou o narrador. O romance foi publicado em 1925, e foi muito bem recebido pela crítica, apesar de abordar temas polêmicos para época, como amor homossexual, casamento de conveniência, tratamento psiquiátrico, suicídio, revisão dos ideais da juventude.

             Apesar de reconhecer a qualidade do texto, não posso dizer que foi uma leitura prazerosa, pois em momento algum simpatizei com Clarissa, nem seu estilo de vida. Tanto que apesar de ser um livro curtinho, em torno de 200 páginas, eu não consegui engatar a leitura, e levei mais de um mês, para terminar. Mas, quem sabe, numa releitura, em outro momento, eu dê uma nova chance a Clarissa.

Somália

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                        Atualmente a Somália é um dos países onde mais se registram ataques terroristas no mundo, e segundo um estudo feito em 2017, o país integra uma lista de 10 países, onde ocorre 75% desses ataques. O último ataque terrorista registrado no país, em outubro de 2017, considerado o mais mortal de todos, deixou mais de 300 mortos e 400 feridos. O país tem uma história tumultuada, marcada por intermináveis conflitos, externos e internos. No período em que se inicia o romance, escolhido para representar o país no projeto, a Somália vive os últimos dias de uma ditadura militar, iniciada com o golpe, de 21 de outubro de 1969, liderado pelo general Mahammad Siad Barre. Mas estamos em 1987, e diferentes grupos de facções internas começam a se fortalecer, e iniciam uma revolução que irá depor o governo dos militares, em janeiro de 1991.

O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed, é ambientado na cidade de Hargeisa, as vésperas da invasão da cidade, pelos rebeldes, e conta a história de três mulheres, de diferentes gerações. Deqo, Filsan e Kawsar, se encontram pela primeira vez no estádio, onde se comemora o aniversário da revolução que colocou os militares no poder. Deqo, uma menina órfã, de 9 anos, vive num campo de refugiados, onde nasceu, sem saber quem foram seus pais, e foi ao estádio na esperança de ganhar seu primeiro par de sapatos; Filsan, é uma jovem e ambiciosa soldado, transferida de Mogadíscio, a capital, para Hargeisa, para ajudar a reprimir a rebelião vinda do norte; e Kawar, uma viúva triste, que vive só depois de perder o marido e a filha adolescente. Depois do primeiro encontro das protagonistas, quando Kawsar é presa e espancada por Filsan, ao tentar defender Deqo, da injustiça de ser punida, por errar a coreografia, suas vidas seguem caminhos distintos até o próximo encontro. Através de suas trajetórias de vida sofridas, em meio ao caos que vai se instalando na cidade, vamos aprendendo sobre a vida e cultura do povo somali, enquanto elas vão aprendendo sobre a alma humana, e se transformando com este aprendizado. Uma agradável leitura, que conta uma triste história.

Panamá

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            Há um provérbio, ou frase, ou mensagem, que diz que “não se deve julgar um livro pela capa, mas pela sua história”. Pois é, aconteceu comigo. Embora tenha acatado a sugestão do grupo, de ler Negra Pesadilla Roja, do panamenho Mario Augusto Rodríguez, e adquirido o livro, antes até do Panamá ser sorteado, desprezei o coitado. Simplesmente porque antipatizei com a capa, mas, tendo chegado a hora dele, tenho que reconhecer que é um livraço! Depois de começar, não consegui mais parar de ler, mesmo com toda tristeza narrada em suas páginas. Um dos melhores, que já li nesse projeto. Foi publicado pela CELA(Centro de Estudios Latinoamericanos), em 1993. Em janeiro de 1990, a CELA decidiu dedicar todo o esforço para publicar na medida do possível todas as obras produzidas por escritores panamenhos, sobre a invasão norteamericana, ocorrida na madrugada de 20 de dezembro de 1989. Sob a alegação de capturar o General e Ditador, Manuel Antônio Noriega, as tropas americanas invadiram o Panamá na Operação Justa Causa, e com a utilização de armas supermodernas, destruíram o bairro mais populoso da Cidade do Panamé, El Chorrillo, matando milhares de civis, um verdadeiro genocídio.

                                                         O livro está dividido em duas partes, narradas por diversos personagens, ao mesmo tempo, reais e produto da imaginação do autor. Na primeira parte, chamada Devastação – Beto, o jornalista; Ruby, a professora; Nico, o estudante; Yony e Jazmim; Manuel, o delinquente; e Ernesto, membro do Batalhão da Dignidade(organização criada para apoiar as forças de defesa, contra a agressão estrangeira), todos eles moradores do bairro, El Chorrilho, narram como vivenciaram o pesadelo do ataque americano, naquela madrugada. Na segunda parte, Pesadelo, seguem a narrativa dos personagens ao longo da semana que se seguiu ao terrível ataque, o trauma vivenciado, o desespero de ver que não sobrou absolutamente nada de suas casas, e de seus mortos. Pois o exército americano, impediu que eles se aproximassem do local da invasão. É chocante, saber que essa foi uma história real! Ao longo da narrativa do romance, vamos conhecer, a história por trás da construção do canal, e a exploração do trabalho dos nativos, a luta diária para sobreviver, e como a solidariedade e cumplicidade do bairro miserável ajudava a tornar o fardo mais leve para seus habitantes. E como essa cumplicidade vai ser fundamental para ajudá-los a superar o trauma e reconstruir a já sofrida vida dos “El chorrilenhos”.

Eslovênia

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                                                A Eslovênia foi um dos seis países que fizeram parte da Iugoslávia, a partir de 1945, até ficar independente em 1991. Isto, depois de ter pertencido ao Império Romano, ao Império Bizantino, a República de Veneza, ao Ducado de Carantânia (o atual norte esloveno), ao Sacro Império Romano-Germânico, a Monarquia de Habsburgo, ao Império Austríaco (a partir de 1866, Império Austro-Húngaro), ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois Reino da Jugoslávia) e a República Socialista Federativa da Iugoslávia de 1945, até finalmente conquistar a independência em 25 de junho de 1991.

Eu só pude entender, um pouco melhor, a questão da Iugoslávia, depois de uma pesquisa que fiz antes de ler o livro da Bósnia e Herzegovina. Esse livro, no entanto, aborda outra questão, que ainda não tinha tido conhecimento. No livro da Bósnia, um menino narra os conflitos vividos durante a guerra e como teve que emigrar para a Alemanha, para sobreviver. Já no livro escolhido para a Eslovênia, Southern Scum Go Home, do esloveno Goran Vojnović, um menino narra as dificuldades que ele enfrenta, por ser um scum, (uma pessoa que vive em determinado país, mas sem pertencer a maioria étnica), pois são muitas as diferenças culturais entre os locais e os imigrantes da extinta Iugoslávia. Filho de pais Bósnios, ele vive em Fužine, um bairro urbano da classe operária com grande proporção de imigrantes ao leste do centro de Liubliana. A situação descrita pelo narrador, neste romance, é a mesma vivida, durante os anos 90, por mais de 25.000 de residentes eslovenos, conhecidos por Izbrisani, ou “apagados”, porque foram eliminados dos registros de residência permanente em 1991, e assim perderam a oportunidade de se tornarem cidadãos. As crianças Izbrisani tinham a certidão de nascimento registrada na Eslovênia como sendo cidadãos de outras repúblicas da Iugoslavas, mas, com frequência, as repúblicas não eram informadas do nascimento. E na Eslovênia, como em outras repúblicas europeias, adota-se o Jus Sanguinis, para conceder a cidadania, não importando se as crianças tenham nascido e vivido toda a vida no país. Como não tinham direitos legais, e perderam a conexão com o país de origem dos pais, ficaram sem pátria, assim ,por medo da deportação, aprenderam a desaparecer nas ruas e evitar a polícia. Embora curtinho, o livro retrata bem essa drama vivido por esses jovens em Fužine, bem como em outras partes da Eslovênia.