Sudão

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Na ocasião em que publiquei o post sobre o Sudão do Sul, em janeiro de 2016, havia verificado em minhas pesquisas, que o pais vivia num caos desde a sua independência do Sudão em 2011. E é com tristeza que verifico que o próprio Sudão vive atualmente em conflitos, que já ocasionaram muitas mortes. O estopim foi a derrubada do governo em abril deste ano, após manifestações, iniciadas em janeiro deste ano, contra os crimes cometidos pelo então presidente Omar al-Bashir. Os militares que derrubaram o governo, se comprometeram a fazer um governo de transição, mas na prática isso não aconteceu, e agora a população exige que o governo seja entregue a um civil. Os militares chegaram até a cortar a internet com o intuito de impedir a comunicação entre as pessoas e isolar o Sudão do resto do mundo. Uma situação difícil, um caos!

Menos caótica, no entanto, foi a escolha do livro para representar o país. Em maio de 2018 recebi da TAG Livros, da qual sou associada, o  livro Tempo de Migrar para o Norte, de Tayeb Salih, escritor sudanês, da vila de Karmakol, região norte do Sudão. Naquele momento, decidi que seria esse o representante do Sudão.

Tayeb, nascido em 1929, é um dos mais aclamados escritores árabes do século XX. Ele se formou em Literatura na Universidade de Cartum, capital do Sudão. Em 1952, deixou o país para estudar nas Universidades de Londres e de Exeter, na época o Sudão ainda era uma colônia britânica, só vindo a conquistar a independência em 1956. É autor de vários contos e romances, e seu romance Tempo de Migrar para o Norte, publicado em árabe, em 1966, foi eleito o mais importante romance árabe do século XX. No romance, o narrador é um intelectual, não nominado, que acaba de retornar da Europa, após 7 anos de estudos, para sua terra natal, a mesma do autor, uma aldeia rural, banhada pelas curvas do Rio Nilo. A alegria inicial pelo retorno, o acolhimento familiar e a sensação de pertencimento logo farão contraponto com o peso dos costumes arcaicos, e da severa religiosidade. O encontro com um novo habitante na aldeia, longo chamará sua atenção, o deixando intrigado. Trata-se de Mustafa Said, um personagem que no passado, viveu a mesma experiência do narrador, de emigrar para a Europa, porém, com uma trajetória muito mais tumultuada e envolta em mistérios, do que a do narrador. Aos poucos, a história de Mustafa, vai sendo revelada, inicialmente por ele mesmo, e depois do seu desaparecimento, nas buscas realizadas pelo narrador. Mustafa é um personagem contraditório, fascinante e misterioso. No momento, em que o narrador o conhece, ele está estabilizado na aldeia, onde trabalha, casado e com filhos, mas nem sempre foi assim. De maneira gradativa, vamos conhecendo a trágica história de Mustafa, que está inevitavelmente vinculada a do próprio país, do colonialismo imposto pelo colonizador e seus efeitos sobre a cultura do povo africano. Uma leitura, densa, mais fascinante e necessária.

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