Benim

IMG_0459                         Algumas curiosidades sobre esse país, que achei incrível. Ele foi governado pelo Reino de Daomé, que teve seu apogeu no período que vai do Século XVII(1600) até o século XX(1904), quando foi dominado pela França, com a ajuda de tropas senegalesas. Nesse período, cada príncipe herdeiro tinha que construir, um palácio para viver enquanto não herdava o trono, e outro para governar. Por causa desse costume, a cidade possui uma infinidade de palácios, alguns em bom estado e outros nem tanto. O conjunto desses palácios, localizados na cidade de Abomey, foram tombados como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1985.

                        Essa região também ficou conhecida como Costa dos Escravos, devido ao grande número de escravos que eram capturados, e dali embarcados para o Brasil e Cuba. Um grande números de ex-escravos residentes no Brasil, juntamente com alguns traficantes de escravos e administradores de escravos luso-brasileiros, fixaram residência nessa região, formando a comunidade afro-brasileira(Agudás). Essa comunidade deixou um vasto patrimônio, principalmente na arquitetura afro-brasileira, construída pelos ex-escravos que eram pedreiros e carpinteiros no Brasil e ao retornarem para África reproduziram os padrões arquitetônicos brasileiros.

                         Os reis negociavam os escravos, trocando por armamentos europeus. Após serem dominados pela França, passam a ser protetorado francês, vindo a conseguir a independência em 01/08/1960, com o nome de República de Daomé. Posteriormente, em 1975, adotou o nome de República de Benim, pela sua neutralidade. e em referência a baía de Benim.

                    Olympe Bhêly-Quenum, nasceu em em 1928, na cidade histórica de Ouidah, a segunda mais importante do Reino de Daomé, sendo estabelecido lá um dos maiores portos de escravos da África. Tem grande importância também na cidade a prática da religião Vodum, sendo a mãe de Bhêly uma alta sacerdotisa nessa religião. Fez os estudos primários em Benim, e foi iniciado na língua inglesa em Accra, Ghana. Chegou na França em 1948, onde fez os estudos secundários e superiores. Também possui formação diplomática, tendo trabalhado por mais de 20 anos como funcionário internacional e nos últimos 3 anos antes de se aposentar, na UNESCO NEWS. Atualmente vive entre Benim e o sul da França. Dentre seus vários romances,  Un enfant d’Afrique, escrito em 1970, foi o escolhido para representar o país.

                      A partir de suas recordações de infância, Bhêly imaginou a história de Ayao, criado no meio rural, entre agricultores proprietários de terra. Ele vive numa família harmoniosa e feliz, sendo o sétimo, de oito filhos. No início do livro Ayao, tem seis anos e é carinhosamente chamado por toda família de “homenzinho”. Todas as cidades são fictícias, mas foram criadas a partir das paisagens e topografia que o autor percorreu em suas diversas missões na África e nas recordações de infância. Enquanto acompanhamos as aventuras de Ayao, seu amadurecimento, sua vontade de aprender e tornar-se professor, percorremos todas elas, e conhecemos os muitos costumes da região, e da religião Vodum. Segundo o autor, ele escreveu Un enfant d’Afrique, não só para as crianças africanas, para que elas pudessem mergulhar mais cedo do que ele no universo da leitura, mas também, para que pudesse servir como uma pequena janela aberta para as crianças de todos os continentes, para desmistificar a ideia da “miséria” da criança africana. Uma delícia de leitura!

 

Cabo Verde

51wtEgRedsL._SX343_BO1,204,203,200_  Destino turístico e exótico, o país é um arquipélago formado por 10 ilhas, das quais apenas uma, não é habitada. Talvez porque a origem das ilhas seja vulcânica, de todo seu território, de pouco mais de 4.033, apenas 10%, é composto de terra fértil. O país só ficou independente de Portugal, em 05 de julho de 1975, e contrariamente a maioria dos países africanos, a política é consensual, com alternância regular no poder, e sem registros de golpe de estado, ou guerra civil, desde sua independência.  A capital do país é a cidade de Praia e fica na Ilha de Santiago. Quando olhamos as imagens de Cabo Verde, compreendemos por que a indústria do turismo vem crescendo rapidamente, pois é cercada por praias brancas, águas azuis e um clima ameno, com poucas variações de temperatura durante o ano inteiro.

Germano Almeida, o autor do livro escolhido, O Testamento do Sr. Nepomuceno, nasceu na Ilha de Boa Vista, em 1945, e vive atualmente em Mindelo, na Ilha de São Vicente, assim como o protagonista de seu romance. Nepomuceno, era um solteirão, extremamente bem sucedido, que vivia discreta e isoladamente em sua mansão em Mindelo, tendo por companhia, apenas os livros e sua empregada, até sua morte. No entanto, a partir da abertura do testamento, a população do arquipélago, passa a conhecer a verdadeira personalidade do Sr. Nepomuceno. O Testamento em si, já dá uma demonstração do que virá, pois mais do que um testamento, trata-se na verdade, do relato minucioso de sua história de vida, redigidas, em 387 páginas, revelando mais uma característica de sua personalidade desconhecida, sua habilidade de escrever.  Vindo ainda menino de São Nicolau, para tentar a vida em São Vicente, tornou-se um comerciante extremamente bem sucedido. E segundo ele mesmo relata, não foi da maneira mais ética, que venceu na vida. A informação de que tem uma filha, gerada de maneira bastante controvertida, para dizer o mínimo, só é revelada a partir da leitura do testamento. E assim, vai narrando, toda sua existência, a relação com a família, e com a  sociedade de Mindelo, que sempre o rejeitou, as desilusões amorosas, como começou a ganhar dinheiro num golpe de sorte, as obras sociais que fazia, etc. Para mim, além de um personagem bastante controvertido, o Sr. Nepomuceno era um chato. Uma pessoa difícil, que nunca aprendeu a se relacionar, por falta de humildade, e por isso viveu sempre isolado. Seu isolamento, se assemelha um pouco ao próprio país, 10 pequeninas ilhas no meio do Oceano Atlântico. Mas não se deixe influenciar pela personalidade do Sr. Nepomuceno, vale a pena ler o livro, pois além de ser escrito brilhantemente, ainda garante uma visita as ilhas de Cabo Verde.

Andorra

IMG_0825Desse pequeno país, melhor seria dizer principado, localizado nos Pirineus, entre a França e a Espanha, sabia apenas que era um paraíso fiscal e excelente destino para a prática de esportes de inverno! Mas, descobri que Andorra é muito mais do que isso, além de uma paisagem fantástica, tem um excelente patrimônio artístico e cultural, principalmente da arte românica. Só de santuários são cerca de 40, destacando-se o Santuário de Meritxell, um santuário românico dedicado à padroeira de Andorra. A língua oficial é o catalão (único país no mundo onde o catalão é a língua oficial) mas lá, também se fala o espanhol, francês e português. Também é o único país com dois chefes de estado, pois Andorra é um coprincipado. O poder legislativo é exercido pelo Conselho Geral e o poder Executivo, pelo Governo de Andorra. Achei interessante também, as  7 divisões administrativas que são chamadas de parroquias. Enquanto lia o romance de Albert Villaró, Azul de Prusia, eu me diverti muito, não só com a leitura em si, mas com as pesquisas e viagens pelo país. Fiquei fascinada com sua história, cultura e por seu povo!

Com esse romance Albert Villaró recebeu o prêmio Carlemany em 2006. Inicialmente parece tratar-se apenas de um romance policial, pois é a partir do aparecimento do corpo de uma mulher morta na fronteira de Andorra, que tem início o enredo. Para iniciar as investigações, é designado o policial Andreu Boix, um homem triste e fechado em seu luto pela esposa, morta em um acidente de carro, em que ele guiava. Nem ele mesmo acredita em sua capacidade para desvendar o mistério, mas a medida que vamos mergulhando no enredo, vamos conhecendo mais profundamente a personalidade de Andreu, e nos envolvendo em seus dramas pessoais e familiares. suas histórias mal resolvidas. Os esforços de Andreu para solucionar o assassinato, são fundamentais para ele se reconciliar com o seu passado e retomar o curso de sua vida. Tudo isso na familiaridade que adquirimos com o dia a dia dos andorranos, suas histórias e suas cidades. Uma delícia de leitura!

Azerbaijão

       IMG_0698 AzerComo sempre, antes de ler um livro sobre um destino totalmente desconhecido, procuro dar uma pesquisada, para saber pelo menos sua localização geográfica. E não é que, depois de ler os posts de Luisa do blog Arquivos de  Viagens e Gabi Moniz do Projeto 101 Países, coloquei o país lá no top da minha lista de desejos, antes mesmo de iniciar a leitura?! Mas, mesmo se não tivesse visitado os blogs das meninas, o Azerbaijão seria um candidato natural a figurar na minha lista, só com a leitura do romance de Kurban Said, Ali e Nino. Aliás, a diversão já começa com o mistério em torno da verdadeira identidade do escritor. que na realidade chama-se Lev Nussimbaum, judeu nascido em Baku, capital do Azerbaijão, em 1905. Para fugir do bolchevismo mudou-se para a Alemanha, em 1920, onde se converteu ao islamismo e adotou o nome de Essad Bey. Já era famoso quando escreveu sua obra-prima, Ali e Nino, como Kurban Said.

              O livro foi publicado em 1937, e nos fala de uma história de amor, um romance improvável, entre Ali, um jovem muçulmano de fé xiita e Nino, uma linda jovem, cristã ortodoxa. Porém não se trata apenas de uma linda e apaixonante história de amor, mas principalmente, de um mergulho na história e cultura do país, e  dessa região central dos países cáucasos, situados entre o ocidente e o oriente. A história se passa na sua maior parte, em Baku, mas iremos conhecer também, Tbilisi, a capital da Geórgia, terra de Nino, e Teerã, no Irã, onde estão estabelecidos alguns integrantes da família de Ali. Em cada passagem vivenciaremos costumes dos respectivos lugares. O romance aborda também, as diferenças entre religiões e culturas do ocidente e do oriente, definidas de forma bem interessante; “….Talvez só haja uma maneira de definir os homens: há os da floresta e os do deserto. A embriaguez sem álcool do Oriente vem do deserto, onde o vento quente e a areia quente excitam as pessoas, onde a vida é simples e sem problemas. A floresta é cheia de perguntas. Já o deserto não pergunta nada, nada oferece e nada promete. Mas o fogo da alma vem da floresta. O homem do deserto só tem um sentimento e só conhece uma verdade que o preencha. Mas o homem da floresta tem muitas faces. O fanático provém do deserto, o criador provém da floresta. E talvez seja essa a principal difrença entre Oriente e Ocidente”.  Um romance imperdível!

 

 

Irlanda

19115872Apesar de ainda não conhecer a Irlanda, principalmente Dublin, me sinto muito atraída pelo cidade em si, e pelo jeito marcante de ser dos irlandeses. Coincidentemente, tenho visto vários filmes sobre irlandeses, o último deles, Brooklyn, está concorrendo ao Oscar de melhor filme,. Foi fácil, escolher Dubliners de James Joyce, porque ainda não tinha lido nada dele, e queria muito conhecer sua obra. O livro foi escrito em 1904, e publicado em 1914. são 15 contos, sobre diversos temas, ligados a sociedade irlandesa. Segundo Joyce, a sociedade irlandesa, tinha parado no tempo a centenas de anos atrás, devido a duas forças, a igreja católica e a Inglaterra. Esses temas estão bem vivos no livro, mas o que mais me atraiu na leitura, foi a abordagem psicológica dos personagens.  Apesar de não ser muito fã de contos, esses de Joyce são imperdíveis, principalmente A Painful Case, que foi o meu favorito.

Albânia

IMG_0111    Ao olhar a localização da Albânia no mapa, não dá para acreditar que seja um destino tão pouco explorado. Esse pequeno e montanhoso país, é banhado pelo Mar Adriático e está localizado entre Montenegro e a Grécia, dois destinos paradisíacos. Talvez sejam ainda os ecos da política de isolacionismo adotada pelo líder/ditador Enver Hoxha. Ele governou o país por quatro décadas, desde a segunda guerra mundial até 1985, fechando o país para o resto do mundo. Primeiro a Albânia retirou-se do Pacto de Varsóvia em 1968, e depois da morte de Mao Tsé-Tung, em final dos anos 70, perdeu o apoio da China, ficando cada vez mais isolados do mundo. Depois dos conflitos da década de 90, quando começaram a aparecer os partidos de oposição, e de muita luta, tornaram-se um país democrata. Toda essa luta contudo deixou sua marca, e o país ainda está se reerguendo. Atualmente, é um dos países menos desenvolvido da Europa.

Já o livro escolhido Abril Despedaçado, do albanês Ismael Kadaré, soa bastante familiar,  pois foi o romance que inspirou o filme homônimo de Walter Salles, com Rodrigo Santoro. Como ainda não tinha visto o filme, deixei para assistir depois da leitura do livro.

A história baseia-se no Kanun, código moral, transmitidas oralmente, que rege todo o comportamento dos membros de cada vila, nas montanhas da Albânia, sendo mais poderoso que o próprio estado. Praticamente todos os assuntos da vida, estão previstos no Kanun, casamento, direito de propriedade, e o mais terrível de todos a vendetta, que é o direito de vingança. Se alguém de uma família, for ofendido ou morto, o membro da família que sofreu a ofensa tem o direito o matar outro membro da família agressora. No romance, o personagem de Gjorg Berisha, mata com um tiro de fuzil, Zef Kryeqyq, que havia matado seu irmão numa vendetta que já dura 70 anos. Ele sabe que de acordo com as leis do Kanun, sua vida não deverá ultrapassar o mês de abril, tendo ainda que usar uma faixa preta no braço. A partir de então, ele começa a refletir sobre a sua vida, e a falta de perspectiva ou escolha.

Apesar de ser bárbaro e cruel, uma prática inadmissível, principalmente porque existiu e talvez ainda existam famílias que observam esse costume,  existe uma aura de honradez e dignidade, ao se respeitar acima de tudo, o amigo e a palavra dada. Embora o tema seja pesado, a leitura é fluente e agradável.

Mônaco

IMG_0108Associar Mônaco a glamour, luxo, iates, formula um, cassinos e Grace Kelly, é mais do que natural, afinal o principado, é tudo isso, além de ter um dos custos de vida mais alto do planeta. Isso tudo, graças a uma economia baseada no turismo, regime de tributação privilegiada(paraíso fiscal),  e alguns atrativos como o Grande Prêmio de Mônaco, Cassino de Monte Carlo e sede do World Music Awards, dentre outros. Mas, se por um lado a vida se desenrola com todo esse esplendor, não se pode deixar de pensar, e os normais, como vivem nesse principado de contos de fada? E parece que essa curiosidade não era só minha, uma vez que a Revista Life, publicou uma reportagem abordando a evolução da identidade monegasca ao longo do tempo, e para ilustrar traçou o retrato de 03 monegascos, que junto com seus compatriotas, representam um quarto dos quase 38 mil habitantes de Mônaco, ou seja eles são minoria em seu próprio país.

Venturi, é construtor de automóvel conhecido por ser o especialista monegasco em carros elétricos. É à Venturi que pertence o recorde absoluto de velocidade em pista para um carro elétrico: quase 500 km/hora. A marca tornou-se numa bandeira do Mónaco. Segundo Ferry, “para quem nasceu no principado, é impossível passar ao lado do desporto automóvel. É uma obrigação.”

 Marc Costa é uma referência em todo o país, na preparação do barbajuan, um dos pratos nacionais de Mônaco, feito a base de beterraba branca, fiambre, arroz, cebolas, queijo, ovos. De acordo com Costa, “a identidade monegasca tem a ver com a tranquilidade. Não há mudanças políticas, não há mudanças de governo, há uma harmonia generalizada. Todas as empresas realmente monegascas continuam a trabalhar ao longo do tempo.”

A paixão de Dominique Salvo são as palavras. Ela ensina o monegasco na única escola preparatória pública local. Em 1976, o ensino desta língua tornou-se obrigatório até ao quinto ano. Para os alunos, a aprendizagem é claramente um mecanismo identitário, que os distingue dos vizinhos franceses. Dominique Salvo afirma que “quando aprendemos, ficamos ainda mais com a noção de que pertencemos mesmo aqui. Para os estrangeiros, é uma forma de integração. (…) A origem está no genovês. Atualmente, só é falada aqui. Se a deixarmos morrer, é todo um povo que perde a sua língua. Não se trata apenas de vocabulário; é também uma forma de estar, de fazer e de pensar.”

Pierre Abramovici, jornalista, diretor de televisão e autor do livro escolhido, Un Rocher Bien Occupé, nasceu em Mônaco, e cresceu ouvindo sua avó contar as histórias de guerra que ela tinha presenciado no principado. E graças as histórias que sua avó contou, ele se interessou pelos acontecimentos que se passaram durante a guerra no rochedo, como também é conhecido o principado. Com a colaboração da também jornalista Carine Mournaud, pesquisou durante quatro anos em milhares de documentos em arquivos e nas lembranças dos monegascos, as informações que se baseou para escrever o livro. Não se trata de um romance, mas um relato, sobre a participação de Mônaco na segunda guerra mundial. Como sua neutralidade, e condição de paraíso fiscal, dentre outras causas, fizeram do pais um colaboracionista do regime nazista, sob a orientação de seu soberano, o príncípe Louis II. O livro, nos ajuda a compreender como Mônaco se tornou o que é nos dias de hoje, e a entender também o comportamento dos Grimaldi, governantes do principado há mais de 7 séculos.

 

Angola

IMG_0098Mais um destino na África, desta vez não tão desconhecido. Com o acordo de paz em 2002, depois de uma guerra civil de 27 anos, iniciou-se a reconstrução do país, criando oportunidades de trabalho em todas as áreas. A presença de brasileiros em Angola ficou muito forte, devido a política externa do governo Lula(2003-2010), focado na aproximação com países pobres. Traduzindo em números, existem em torno de 200 empresas brasileiras instaladas em Angola, e assim o país tem estado no inconsciente coletivo, de alguma forma, de todos nós.

No livro escolhido, “Os Transparentes“, do angolano Ondjaki, a história se passa em Luanda, capital do país e local de nascimento do premiado autor. Tem como eixo central um edifício no LargoDaMaianga, para onde convergem, de uma maneira ou outra, as histórias de todos os personagens, tanto os moradores do edifício, como os dos que passam por eles. O romance mistura surrealismo, com a crua realidade do país, uma realidade aliás, bem parecida com a do Brasil, com a corrupção e a desesperança tomando conta do país.  Os personagens são pessoas simples, humanas e com características bastante “suis generis“, tanto nos nomes; MariaComForça, AvóKunjikise, VendedorDeConchas, Cego, Carteiro, CienteDoGrã, quanto nas características físicas de alguns deles, Odonato está ficando transparente, Edú, tem uma gigantesca hérnia no testículo, o que atraiu o interesse de cientistas internacionais.  Surreais também são algumas situações nos cenários aonde acontecem as histórias, tais como;  o fornecimento de energia intermitente do bar A Arca de Noé, e a água que não para de correr no primeiro andar do edifico no LargoDaMaianga. As historias pessoais dos personagens misturam-se aos eventos políticos e sociais, numa mistura fascinante de realismo e absurdo. Uma delícia de leitura!

Sudão do Sul

IMG_0092Nem é muito demérito não ter muitas informações sobre este país, uma vez que ele existe a pouco tempo, apenas 4 anos, desde julho de 2011. Depois de algumas pesquisas, pude me situar na realidade do país, ou pelo menos, daquela que nos chega através da mídia. E daquilo que pude assimilar por este canal, foi que a conquista da independência, aconteceu depois de uma longa e violenta guerra, iniciada a partir de divergências étnicas e religiosas, entre o atual Sudão do Sul, de maioria cristã e africana, se insurgindo contra o governo do Sudão, centralizado em Cartum, de maioria islâmica e árabe.  Nem bem a independência foi conquistada e já mergulharam em novos conflitos, dessa vez políticos e étnicos, já que os dois maiores grupos do Sudão do Sul, os Dinka e os Nuar, se posicionaram em lados opostos, na disputa política.

Vivendo nessa turbulência, poderia parecer natural não encontrar literatura contemporânea desse jovem país. No entanto, Nyuol Lueth Tong, um sudanês do sul, apaixonado por justiça social e mudanças, e que acredita que a educação pode promovê-las, foi o responsável pela edição do livro “There’s a country”.  Ele entende também, que a literatura, tanto a ficção como a poesia, é a melhor forma de se conhecer profundamente a cultura de um lugar. E assim, num esforço para enriquecer a cultura do pais e mostrá-la ao mundo, selecionou dentre as dezenas de pequenas histórias recebidas de autores sudaneses do sul, aquelas que melhor poderiam sintetizar e esclarecer, o atual momento de ruptura vivido pelo Sudão do Sul. Segundo ele, a visão da guerra, para a maioria deles, tem sido mais familiar do que a paz e a estabilidade.

“There’s a country” , uma coletânea das oito histórias de autores sudaneses do sul selecionadas e editadas por Nyuol Lueth Tong, tornou-se assim a primeira ficção da literatura do novo país. As histórias são escritas numa linguagem simples, de leitura fácil e agradável.

Irã

IMG_0037Quando vi que o livro escolhido para representar o Irã, Persépolis, de Marjane Satrapi, era em quadrinhos, fiquei um pouco ressabiada. Nunca fui simpatizante de histórias em quadrinhos, sempre achei complicado seguir a sequência, além de que as ilustrações, tiravam um pouco a graça de imaginar as cenas. Até que numa de minhas visitas a livraria, depois de folhear o livro e ficar fascinada pelas palavras de Marjane, desejei imediatamente ir para casa continuar a leitura.

Persépolis, é a história de vida da autora, que nasceu em Rasht, no Irã, e hoje mora em Paris. Bisneta do imperador do Irã deposto pelo Xá, e filha de pais modernos e revolucionários, teve uma educação que tanto valorizava as tradições culturais do país, como os valores de igualdade e solidariedade, com características ocidentais, já que estudava num num liceu francês, até a revolução de 1979. A revolução que se iniciou como um movimento popular para a derrubada do Xã, veio a se transformar numa ditadura islâmica, muito distante da nossa realidade. Fica sempre a curiosidade sobre como vivem e sentem os iranianos com toda essa reviravolta em suas vidas. Como será a vida por trás do véu, e de todas as restrições impostas pela religião? Até então, o mais próximo que havia chegado da realidade do Irã tinha sido com o filme “Argo”, mas lendo o livro de Marjane conseguimos adentrar a sociedade iraniana de uma maneira muito mais leve e divertida, do que aquela tensão que vivemos no filme.

Marjane, consegue contar todas as dificuldades e sofrimentos pelos quais passou, de uma forma irreverente, que não deixa espaço para tristeza. Uma excelente leitura e mergulho na cultura do Irã.