Polônia

IMG_0655             Não sei porque, existem alguns países que exercem em mim um fascínio especial, e a Polônia é um deles. Toda vez que chega a vez de um desses destinos fico na maior expectativa. Posso dizer que o livro escolhido, Senhorita Ninguém, primeiro romance de Tomek Tryzna, que também é roteirista e diretor de cinema, fez jus a esse fascínio.O livro também foi  adaptado pra o cinema por Andrzej Wajda.

            Marysia, a protagonista e narradora, é uma menina de 15 anos chegando a adolescência. Até então vivia no campo, em um barraco de apenas um cômodo, com os pais e os quatro irmãos menores. Além de frequentar a escola na pequena cidade de Jawiszów, ajudava a mãe na lavoura, a cuidar os irmãos e da casa. A educação que recebia, baseada nas tradições e na religião, e sua própria natureza, não permitia que discordasse dos pais, ainda que, nem sempre fosse fácil lidar com eles, sendo o pai alcoólatra, e a mãe obesa e fumante inveterada.

              Depois que o pai, mineiro, recebe pelo seu trabalho um apartamento para morar, eles são obrigados a se mudar rapidamente, para evitar que seja invadido. O apartamento fica a 20 km de onde eles moravam, em Walbrzyech, cidade industrial e uma das 12 mais poluídas do mundo. Faltando apenas 2 meses para terminar o ano letivo, Marysia e os irmãos mudam de escola. As mudanças em Marsya, acontecem a medida que sua amizade com Kasia e Ewa, vai se aprofundando. As duas são ricas e excêntricas. Kasia, talentosa e precoce, questiona seus valores, como nesse trecho: “Não foi o padre que criou você, foi Deus. Ele criou você para que tentasse igualar-se a ele em sabedoria. mas, além de tudo, criou você para que você fosse livre, também livre dele, entendeu?” fazendo com que ela comece a pensar a vida de uma nova maneira. Com Ewa, transgressora, ela vai aprender a se rebelar e conhecer o sexo. E a medida que vai despertando para vida, vai se valendo de sua tendência para fantasia, para criar uma nova realidade. Tryzna, vai alternando os momentos da realidade cruel com os delírios de fantasia, no mesmo texto, sem demarcação. Um romance para nos fazer pensar.

Samoa

IMG_0660 (1)                    Samoa é um daqueles países que não conhecia nem de ouvir falar, e que é preciso olhar no mapa, para se localizar. Fica na Oceania, no oceano pacífico, entre a Nova Zelândia e o Havaí, e é constituído de duas ilhas, Savai’i e Upolu. Obteve sua independência da Nova Zelândia, em 1 de janeiro de 1962. Suas línguas oficiais são o inglês e o samoano. No livro escolhido para representar o país, The Girl in the Moon Circle, da escritora Sia Figel, vamos nos deparar várias vezes com expressões em samoano, o que as vezes torna difícil a leitura. Malo Sa’oloto Tuto’atasi, este é o nome do país em samoano.

                    O livro foi estruturado, em pequenos capítulos, quase em forma de um diário, e relata as experiências  vividas por Samoana, uma menina de 10 anos, na cidade de Malaefou. Através de seus relatos podemos conhecer, os costumes do país e adentrar na sociedade de Samoa. Samoana, ou Ana, aborda todos os temas que de alguma forma estão presentes em sua vida, como o relacionamento familiar, no qual descreve tanto as brigas quanto as demonstrações de afetos entre os irmãos, e a forma como os pais os educam; a influência da religião na sua vida; amizade; os fatos que marcaram a sociedade, mas que viraram tabu; a morte; a violência sexual cometida contra as crianças, e por aí vai.. Apesar de aparentemente serem descritos de forma ingênua e inocente, Ana faz sua própria leitura dos fatos, demonstrando um grande poder de análise.

Bolívia

IMG_1443O único contato que já tive com esse país, até emtão, foi através de Hector, boliviano de Santa Cruz de la Sierra, com quem convivi na época da faculdade. Ele era intercâmbista na minha turma da faculdade de arquitetura, da UFPE. Na literatura, então, estava zerada, mas graças a Deus, participar do #198livros, está me redimindo e preenchendo esta lacuna.

Edmundo Paz Soldán, é um premiado escritor boliviano, seguidor do movimento McOndo, que até então eu desconhecia por completo, e que se caracteriza por descrever cenários realistas, registrando através da literatura a influência dos meios de comunicação e das novas tecnologias na paisagem urbana do continente latinoamericano. No livro escolhido “O Delírio de Turing” ambientado na fictícia cidade de Rio Fugitivo, já utilizada pelo autor em outros romances, Soldán usa esse argumento para criar uma eletrizante história de suspense.

A partir do aumento da tarifa de energia elétrica, controlada pela multinacional Globalux, tem início uma revolta social, unindo as mais diversas classes contra o opressor, o governo capitalista, comandado por Montenegro, que voltou ao poder por via democrática, depois de o ter exercido na época da ditadura. A revolta se faz sentir tanto no mundo virtual, quando na vida real, entrelaçando a vida dos diversos personagens, numa movimentada história, num crescente suspense, que não nos deixa largar o livro.

 Fazem parte desse roteiro: Miguel Sáenz, mais conhecido como Turing, em referência ao grande criptoanalista inglês, sua mulher Ruth, também criptoanalista, e a filha deles Flavia, que se destaca na área da informática, mantendo um site o TodoHacker. Turing, dedicou sua vida ao trabalho na Câmara Negra, órgão governamental que serviu a ditadura na década de 70, sem nunca ter se questionado, quais eram as consequências do seu trabalho, tanto para a sociedade, como para o seu casamento; Albert criador da Câmara Negra, que tinha como objetivo principal decifrar mensagens dos opositores ao governo, e era o chefe de Turing. Do outro lado, Kandinsky, principal líder da resistência, grupo de hackers que combate o governo; O juiz Cardona, vítima da ditadura e com sede de vingança, e finalmente, Ramírez-Graham, atual chefe da Câmara Negra, que luta desesperadamente contra os ataques da Resistência.

A forma de narrativa é bastante peculiar, com dois narradores, um desconhecido que faz o relato da história de todos os personagens, e Albert, em coma, que narra a sua história e a de Turing.

Argélia

IMG_1421Todo meu contato com a literatura argeliana, se resumia ao escritor Albert Camus, do qual li primeiramente “A Peste”, e depois o “L´Étranger”, sendo este, o primeiro livro que li em francês. Em relação a história do país, tirando o fato de haver sido colonizada pela França, o que pressupõe uma provável luta pela independência, o meu conhecimento era nulo. De forma que, não estava preparada para a tumultuada e violenta história da Argélia, da forma como a vivenciamos no romance de Anouar Benmalek , Les Amants désunis. Como, ele falou em recente entrevista, sempre foi apaixonado por esse tipo de literatura que confronta os personagens ordinários com as grandes destruições da história. Na Argélia, primeiramente, houve a guerra travada pela independência, em seguida, o roubo da democracia pelos militares, seguidos pelo terror islamita com seus 200 mil mortos, e os conflitos com o Oriente-Médio, intermináveis e desesperançosos.

Em 1955, a Argélia está em plena luta pela independência, e Anna e Nassreddine, são vítimas de uma tragédia, que transformará suas vidas. Durante a viagem de volta para casa, vindos de Alger, onde foram regularizar os papéis de casamento, Nassreddine é feito prisioneiro, e torturado. A  Frente de Libertação Nacional(FLN), desconfiando que ele os havia traído, assassinam os dois filhos, e ela por ser estrangeira, é deportada. Quarenta anos depois, Anna, deixa sua vida na Suiça, e volta disposta a se reconciliar com seu passado, encontrando o túmulo dos filhos e Nassreddine, seu marido, o homem que ela amou, e pai dos seus filhos. Ao chegar em Alger, ela conhece Jallal, menino de rua, que aceita guiá-la na sua busca. Só que agora, quarenta anos depois, a Argélia, vive um novo clima de terror, com a guerra civil.

Apesar do cenário ser trágico e violento, a beleza e ternura dos personagens faz do romance, uma agradável e emocionante aventura, que não conseguimos deixar de lado, até conhecer o final. E quando chegamos ao fim, nos deparamos com o enorme vazio que fica com a ausência de personagens tão queridos. Fácil de entender porque esse romance recebeu o prêmio Rachid Mimouni em 1999.

Zimbábue

IMG_1252                    A simpatia pelo país, se iniciou a partir da canção de Bob Marley, “Zimbabwe”, que eu conhecia por ser fã do cantor, embora ainda não tivesse atentado para a letra e muito menos associado à história do país. Desconhecia também o envolvimento de Bob Marley na política do país, e de sua militância no continente africano, nos seus últimos anos de vida. Ele tocou  “Zimbabwe” num concerto no dia da independência do país, 18 de abril de 1980.

             Depois da independência da Rodésia do Norte, território da Zâmbia, os conflitos no Zimbábue culminaram com uma guerra civil.  Os partidários da União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU) partiram para a luta armada. Comenta-se que  Bob teria ajudado a estreitar relações que permitiram o fornecimento de armamentos aos rebeldes do país, que lutavam contra os ingleses. A trégua só viria em 1980, quando a ONU e a Grã-Bretanha reconheceram oficialmente a independência do Zimbábue.

              No romance de Irene Sabatini, autora revelação do Orange Award 2010, “O Garoto da Casa ao Lado” a história de Lindiwe, uma jovem negra, com Ian McKenzie, vindo de uma problemática família branca, se inicia logo após a independência do país. Ao longo do livro, vamos acompanhando a atribulada luta do país para conseguir uma identidade, iniciada a tão pouco tempo com sua independência, da mesma forma que acompanharemos as dificuldades encontradas pelos dois jovens, para viverem e eternizarem o amor, num país marcado pelos preconceitos sociais e raciais. É uma leitura de pegada, não consegui parar de ler, nem de torcer por Ian e Lindiwe, acompanhando-os nos cenários fascinantes do Zimbábue.

Austrália

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Nem só de cangurus vive a Austrália, o surf está totalmente incorporado ao estilo de vida australiano. Lá o surf não é apenas um esporte, faz parte da cultura do país. A geografia, claro que ajuda, pois a extensa costa aliada as variações climáticas favorecem o surgimento de ondas com qualidades internacionais, pequenas, médias, grandes, longas ou tubulares, tanto na costa oeste, quanto na sul e leste que são locais de alta qualidade para o surf. A costa oeste e sul são mais desertas, sendo as águas mais frias e mais desafiadoras. E é precisamente na costa oeste da Austrália, que Tim Winton ambientou seu romance Fôlego. Segundo ele, “escrever é como surfar: a maior parte do tempo você fica ali esperando, até que surja uma explosão no horizonte“.  

Pikelet, o protagonista, é um adolescente, no início dos anos 70. Nasceu em Sawyer, uma cidadezinha, a alguns kilometros do mar, na costa oeste da Austrália. Filho único, de pais já mais velhos, era uma criança solitária e um pouco entediada, até conhecer Loonie, um ano mais velho. Apesar de diferentes em muitos aspectos, aproximaram-se pela capacidade de assustar as pessoas, segurando o fôlego e desafiando os limites um do outro. Pikelet tem verdadeiro fascínio pelo mar, mas até conhecer Loonie, tinha restrições devido ao medo que o pai sentia por não saber nadar direito. Mas com Loonie, tem início, os desafios, e assim em uma manhã no Point conhecem um grupo de surfistas e são tragados pelo vício do surf, e os limites a serem desafiados serão outros, cada vez maiores, passando a brincar com a morte. Tamanha coragem, faz com que sejam tomados por discípulos de um misterioso surfista, Sando, uma lenda no surf e sua mulher americana Eva. E assim está formado o quarteto desses personagens, que vivem intensamente e tentam cada vez mais romper seus limites. Essa experiência, irá deixar marcas na vida de Pikelet, e no homem que ele virá a ser.

 

 

Suiça

 o_juiz_seu_carrasco_bordaÉ pequenino como o pais que representa, no entanto, grande é o prazer proporcionado pela leitura desse romance, de Dürrenmatt, que é quase um clássico. O Juiz e seu Carrasco, é uma das obras mais conhecidas de Friedrich Dürrenmatt, com mais de 5 milhões de livros vendidos em todo mundo, apesar de pouco conhecido aqui no Brasil.

Trata-se de uma novela policial, cuja trama se inicia com a morte de um policial, em circunstâncias misteriosas, numa cidadezinha na Suiça. Quem assume as investigações, é  o Inspetor Bärlach, velho e doente, que se vê obrigado a aceitar Tschanz, policial extremamente eficiente na criminalística. Se Tschanz é excelente tecnicamente, Bärlach tem sentimentos próprios sobre  a justiça. A medida que vamos acompanhando as investigações, descobrimos que trata-se de uma intriga policial, iniciada lá atrás, em fatos passados. E até onde as investigações chegaram, mais do que a eficiência criminalistica de Tschanz, o que está em jogo, é o perfil psicológico do assassino, que precisa ser encontrado e preso. Um romance policial de leitura agradável com um final surpreendente.

É uma história rica nos perfis psicológicos dos personagens, que faz muito o meu estilo. Esse livro, me lembrou de outros que me marcaram, justamente por utilizar esse perfil dos assassinos, como pista para desvendar o crime. São eles, Cai o pano, de Agatha Christie e o Segredo dos seus olhos, de Eduardo Sacheri.

 

 

 

Cuba

Cuba0674Assim que marquei minha viagem para Cuba, coloquei esse pais na ordem do dia, pois penso que, conhecer a historia do país antes de visitá-lo, é essencial para entender, e viver, o que está diante dos nossos olhos. Escolhi A Neblina do Passado, de  Leonardo Padura, na verdade, acho que ele me escolheu. Depois de haver folheado o livro na Livraria Cultura, não consegui mais deixar de achar natural, que fosse o representante de Cuba.

Jornalista, escritor e diretor de cinema, Padura, nasceu em Havana, em 1955, onde mora até hoje. Em entrevista recente, ao lhe perguntarem se não sairia de Cuba, respondeu que não tinha interesse: “É de Cuba que tiro a substância para a minha literatura e o meu jornalismo” . Esteve recentemente no Brasil, para participar da ultima edição da FLIP.

O romance é ambientado em Havana, no verão de 2003, e conta a história de Mario Conde, investigador desiludido, que abandonou a polícia a mais de 14 anos, e desde então vive da compra e vendas de livros usados. Um dia, em busca de mercadoria para trabalhar, se depara com uma biblioteca, que tem um acervo de valor incalculável, e que pode garantir sua existência por um bom tempo. Enquanto folheia um dos livros, encontra uma reportagem sobre uma cantora de bolero, Violeta del Rio, a famosa “Dama da Noite” na qual anuncia precocemente o fim da sua carreira. Atraído pela beleza e voz da cantora, não consegue frear seu instinto de detetive, e segue atrás de pistas que o levem até ela. Na busca para conhecer a história de Violeta del Rio, ele vai mergulhando na própria história de Havana, suas noites mágicas e coloridas nos anos 50, a enorme especulação imobiliária, a revolução, o período “especial” da recessão, chegando até os dias atuais. Conde conta com a ajuda dos seus grandes amigos, tanto para ir atrás de sua trilha de suspense, quanto para dar humor e leveza a história. Sem dúvida um grande romance.

Palestina

51y7qGRVrdL._SX325_BO1,204,203,200_Tentei entender o conflito entre árabes e judeus, pesquisando sobre o assunto, e já tinha até começado a escrever o post, achando que tinha entendido, quando descobri que estava lendo uma versão judaica, e que a mesma história contada por um palestino é totalmente diferente. Parece que consenso mesmo, só o nome Palestina, que significa local dos filisteus, e foi criado pelos romanos. Mais precisamente por Adriano, o imperador, para designar a terra de Israel, como forma de agressão aos judeus, pois os filisteus eram seus inimigos. Assim, desisti de tentar encontrar as razões que culminaram com o conflito. Melhor conhecer os sentimentos de quem o vive, que é a proposta do livro The Lady from Tel Aviv, de Raba’I Al-Madhoun, escolhido para representar a Palestina nesse projeto.

O autor é um jornalista palestino, nascido em l-Majdal, Ashkelon ,em 1945. Durante a limpeza étnica foi deslocado de sua terra natal, juntamente com seus pais, para o campo de refugiados palestinos, na faixa de Gaza, onde passou a infância. Atualmente vive em Londres. Walid Dahman, o protagonista, é um palestino, que vive exilado em Londres, e está voltando para casa depois de quase 40 anos, após ter conseguido seu passaporte britânico. No avião de volta, o acaso faz com que tenha como vizinha, Dana, uma judia, que também está voltando para casa. O diálogo entre os dois, faz com que percebam a diferença de perspectiva e sentimentos para com a mesma terra que ambos consideram seu “lar”. Ao leitor, o encontro dos dois permite conhecer as pessoas por trás do conflito, e não apenas árabes e judeus. Walid, também é escritor, e veio para sua terra natal, não só para rever sua mãe, famílias e amigos, mas também, para fazer um laboratório, com os personagens do romance que está escrevendo, um contador que vive na Alemanha e está retornando para Gaza em busca da mulher pela qual ele se apaixonou 30 anos atrás. Como se pode ver, trata-se de uma quase autobiografia, onde o autor mistura realidade com ficção.

 

México

MalincheAntes de visitar o México pela primeira vez, queria muito ler um romance, que me fizesse conhecer a história, e entender a cultura do país. Camila, gentilmente colocou este destino na frente do sorteio, para que pudéssemos escolher o livro ideal. Malinche, de Laura Esquivel, foi o consenso, e de fato, depois de lê-lo, cheguei a conclusão de que foi a escolha perfeita, exatamente o que estava buscando.

Malinche foi uma mexicana, muito atraente, e que tinha uma grande habilidade no aprendizado de línguas. Por isso, foi escolhida para ser intérprete de Hernan Cortés, o poderoso espanhol que subjugou o povo asteca. Tornou-se uma personagem bastante controvertida, pois além de intérprete, era amante de Cortés, sendo acusada de traição ao seu povo. A história de Malinche, e a relação com sua avó, tornou-se um mito na história do México. E suas tradições, como a relação da religião com a natureza, a cultura do milho, o poder de seguir em frente para se conseguir a transformação, são transmitidas através dos ensinamentos da avó para com a neta. Já a relação de Malinche com Cortés, nos dá uma idéia da violenta ocupação espanhola e a destruição de uma civilização. Adorei a leitura, e todo conhecimento adquirido sobre a história do México.