Chegamos na Tunísia, como estava previsto, mas desta vez a estadia no destino sorteado não seria mais do que um pit stop. Foi rápida, porque não havia muitas informações sobre o país, uma vez que o romance foi ambientado na França.
O autor do livro, o tunisiano Habib Selmi, nascido na cidade de Al-Ala, Tunísia em 1951, vive em Paris desde 1985. Assim como o autor, o personagem principal Mahfoud, é tunisiano e vive em Paris. No romance, narrado na primeira pessoa, Mahfoud faz uma radiografia íntima do seu fracassado romance com Marie-Claire, uma mulher francesa por quem ele se apaixona perdidamente. Logo no início do livro Mahfoud nos informa que Marie-Claire o havia deixado, e passa então a descrever o relacionamento dos dois, as diferenças culturais, as diferenças de personalidade, e a falta de capacidade para supera-las.
O livro, apesar de triste e de ter ficado um pouco fora do propósito do projeto, é muito bem escrito, e tanto é, que mesmo sabendo o final da história, não conseguimos parar de ler.
Argentina foi o primeiro destino dos que foram até agora sorteados, para o qual eu já havia viajado. No entanto, apesar de já ter visitado Buenos Aires, a visão que tive da cidade foi meramente turística, de alguém que está de passagem. Nada a ver com a visita guiada, com direito a roteiro histórico, que o romance de Tomás Eloy Martinez nos proporciona. A escolha do livro foi perfeita para o propósito desse projeto, pelo menos para mim, que é conhecer, através da literatura, todos os países e suas culturas.
O livro conta a história de Bruno Cadogan, um pesquisador norte americano da obra de Jorge Luis Borges. A história se inicia no momento que Bruno após ter se qualificado para o doutorado, inicia sua tese sobre os ensaios de Borges sobre a origem do tango. Apesar de ter sido aconselhado pelos professores a visitar Buenos Aires, não tinha considerado necessário, até ouvir falar de Júlio Martel, um cantor de tango excepcional, que canta tangos antigos, e melhor ainda do que Carlos Gardel. Chegando em Buenos Aires, Bruno fica fascinado pela beleza da cidade, por seus habitantes e sua história. Quando tenta se encontrar com Júlio Martel, descobre que não será uma tarefa fácil, pois o cantor nunca avisa aonde vai se apresentar.
Na busca para encontrar o cantor, ele vai nos levando a conhecer a história, trágica e bela, da cidade de Buenos Aires, assim como dos personagens que a escreveram. A história tem como pano de fundo os acontecimentos catastróficos de 2001. Sem dúvida alguma um romance inesquecível.
Foi no ritmo de gato, e com a liberdade de um pássaro, que acordamos no sábado, do nosso primeiro final de semana em terras parisienses. Sabendo que o céu era o limite para os nossos passeios, o estresse era zero. O primeiro destino, já estava acertado, voltar a Catedral de Saint-Denis, para visitar o seu interior, já que estava fechada quando visitamos da primeira vez, por causa do feriado do 1º de maio. O relato, dessa nossa visita está descrito em outro post.
Em seguida, pegamos o metrô e descemos em Saint Germain-des-Prés, no 5º arrondissement, o nosso destino escolhido para aquele dia. O 5º arrondissement é o bairro mais antigo de Paris, e nele estão localizados, além do Quartier Latin, Panthéon, Sorbonne, Jardim de Luxemburgo, Boulervards de Saint Michel e Saint-Germain, e tudo que sobrou da antiga Lutércia. Essa cidade galo-romana foi o berço de Paris, e teve seu início em 50 a.C., após os romanos terem ocupado o território dos parísios e construído uma cidade completamente nova no alto da atual colina de Saint-Geneviève. O que restou da Lutércia antiga, foram as termas de Cluny, a arena de Luterce e o traçado de algumas ruas nos arredores da igreja Saint-Séverien.
Inicialmente, passamos pelas termas de Cluny, que fica ao lado do Hôtel de Cluny e Museu Nacional da Idade Média, no Boulevard Saint Michel, mas como estava fechada para reforma/manutenção, resolvemos deixar todo o conjunto para outra ocasião e seguir em frente. A próxima parada no roteiro era a Arena de Lutèce, e para chegar lá, contamos com a ajuda do mapa e do boca a boca. Saímos pela Rue Sommnerd até a Place de la Contrescarpe descemos pela rue Lacépede até alcançar a rue Monge, e depois foi só atravessá-la para encontrar a entrada da Arena.
A arena de Lutéce era um anfiteatro, construído no século I pelos romanos, para ser utilizado nas representações teatrais e como arena para os combates entre gladiadores, dentre outros jogos. Podia receber até 17.000 espectadores, e é provável que tenha permanecido em atividade até o fim do Século III, quando Lutercia foi destruída pela primeira vez. Entre reconstruções e demolições, recebeu o apoio da sociedade dos amigos da Arena, que tinha Victor Hugo entre seus membros, para chegar até os nossos dias.
Arena de Lutece
Depois de deixar a Arena, saímos andando a esmo pelas ruas, encontramos a casa onde Renê Descartes passou diversas temporadas, na rue Rollin, nº 14, e a do poeta e filósofo françês, Benjamin Fondane dentre outros. Essa era nossa diversão, pois o francês adora colocar placa em tudo que é canto para marcar sua história, o que é ótimo para nós, turistas e curisosos.
Uma vez que estávamos pelas imediações, passamos pela sorveteria Amorino, na Place de la Contrescarpe, para o sorvete nosso de cada dia, antes de seguir nosso tour e fazer uma parada na Église St-Etienne-du-Mont, uma magnífica igreja que combina de forma harmoniosa uma mistura de estilos, gótico no exterior e renascentista no interior. A igreja abriga o túmulo de Santa Genoviève, padroeira da cidade de Paris, e as tumbas de Pascal e Racine. Tivemos sorte de passar por lá na hora da missa, pois além de ouvir o sermão do padre ainda pudemos conhecer o interior, pois só são permitidas visitas guiadas e previamente agendadas. As cenas do filme Meia-Noite em Paris, em que o personagem Gil esperava sentado pelo sino da meia-noite, foram rodadas ali nas escadarias laterais da igreja(lado esquerdo)
Então saimos de lá direto para a Gare de Lyon, para buscar Daniel que estava vindo de Lyon para o final de semana. Aproveitamos para conhecer o Train Bleu, um dos restaurantes mais antigos de Paris. Mais isso é assunto para outro post.
Quem preferir ir direto para a Arena de Lutèce, o endereço é:
49 rue Monge, Metrô, Place Monge, linha 7.
A igreja de St Etienne-du-mont, fica por trás do Panthéon, na Place de Sainte Geneviève.
Antecipei minha chegada aos Emirados Árabes, porque o livro encomendado para Ruanda, que era o segundo destino da viagem, ainda não havia chegado. A passagem pelos Emirados Árabes foi marcada por uma experiência inovadora, que foi a primeira leitura em livro digital. Experiência totalmente aprovada, pois mesmo sem abrir mão dos livros de papel, constatei a praticidade dos livros digitais. Principalmente para ajudar a levar adiante este projeto.
O livro escolhido, TheSand Fish, é o primeiro romance de Maha Gargash, escritora nascida em Dubai, em 1985. A história foi ambientada nos anos 50, antes dos Emirados Arábes conquistarem sua independência em 1971, antes que o boom do petróleo mudasse completamente a economia e cultura da região, e conta a trajetória de Noora.
A história se inicia quando Noora, então com 17 anos, tendo perdido a mãe recentemente enfrenta, junto com os irmãos, os problemas ocasionados pela doença do pai que está perdendo a razão. Talvez por morarem isolados nas montanhas, e Noora ser a única mulher entre quatro irmãos, foi criada com mais liberdade pelos pais, deixando que sua personalidade se firmasse. Com a morte da mãe e a doença do pai, o irmão Sager, um ano mais novo que ela, assume toda a responsabilidade da família, como era o costume. Preocupado com o futuro dela, isolada naquelas montanhas, decide vendê-la para um rico mercador de pérolas, bem mais velho que ela, para ser sua terceira esposa, e gerar um filho.
Noora é uma garota atrevida e ardente, e mesmo se sentido revoltada com sua condição, consegue pelo seu temperamento, tirar proveito de todos os momentos que vão surgindo, até o limite que lhe impõem a cultura e a sociedade em que vive. A medida, que vai se deparando com as situações e conflitos de sua nova vida, vai aprendendo a lidar com elas, deixando de agir de forma inconsequente até o grand finale, numa cena emocionante, que marca então o seu amadurecimento.
O livro traz excelentes informações sobre os costumes, cultura, arquitetura e tradição do país, e foi sem dúvida uma grande oportunidade de conhecer um pouco dessa região, tão fora da nossa rota. E agora é seguir viagem!
“J’ai quitté Laon ce matin, vieille ville avec une cathédrale qui est une autre ville dedans, une immense cathédrale qui devrait porter six tours qui n’en a que quatre; quatre tours presque byzantines, à jour comme les flèches du XVI e siècle. Tout est beau à Laon, les églises, les maisons, les environs, tout…”
A verdade é que Laon só entrou no nosso roteiro, por causa da sua catedral, Notre-Dame de Laon, que segundo informações de Ina Caro, seria a perfeita catedral, a ser visitada para se ver a transição do estilo romanesco para o gótico. E era esse o nosso projeto, viajar pela história da França, conforme havia dito em outro post. Então pela ordem cronológica, Laon era a bola da vez. Ao chegar lá, descobrimos que a catedral que queríamos visitar ficava em uma cidade medieval murada, a 200m de altura, e como bem testemunhou Victor Hugo, era uma graça.
Laon está localizada no nordeste da França a 135 km de Paris, e dá para fazer um bate e volta bem tranquilo. Saindo da Gare du Nord, leva-se em média 1hora e 40minutos de trem até a gare de Laon. Para ir para a cidade medieval ou cidade alta, a gente pega o Poma, uma espécie de furnicular, que sobe numa velocidade tão grande que parece até que estamos numa montanha russa, mas que torna a viagem muito divertida. A estação do Poma fica ao lado da estação de trem.
Viagem no furniculaire
A origem da cidade é bem remota, vem desde os primeiros séculos da era cristã. Primeiro vieram os celtas, a quem a cidade deve o nome, pois a batizaram com o nome de seu deus da luz, Loucetios. Depois vieram os romanos, que a fortificaram com muros, e em seguida, os carolíngios estabeleceram lá sua capital, em 888. No século X, após tornar-se soberano dos francos, com a ajuda da Igreja Católica, substituindo os descendentes de Carlos Magno, Hugo Capeto fez dela o centro do seu reino, antes de transferi-lo para Paris. De fato, foi por muito pouco tempo, talvez a logística tenha contribuído para a rápida mudança, já que a época não havia o furniculaire. Imagine então a dificuldade para se chegar lá no alto. Não sei se foi esse motivo, mas a dificuldade existia de fato, e poderia ser ilustrada por meio da lenda que explica a existência de vários bois esculpidos em duas das cinco torres da catedral. Segundo essa lenda, durante a construção da catedral, os bois que carregavam as carroças com as pedras montanha acima, tombavam de exaustão, e então, misteriosamente outros bois apareciam para substituir os que haviam tombado. Para lembrá-los, foram esculpidos esses que ornamentam as duas torres.
Assim que chegamos, nos dirigimos para a catedral, a fim de cumprir logo o nosso roteiro! A catedral, construída em 1230, é uma das mais antigas a utilizar os elementos góticos, e uma das que menos sofreram com a Revolução Francesa. No dia em que visitamos Laon, o tempo estava nublado, fazia muito frio, e o sol não apareceu nem por um momento. E ainda assim. quando entrei na catedral tive a sensação que o sol estava lá, haja vista a intensidade da luz em seu interior! Não deveria, mas vou antecipar que de todas as catedrais que visitei nessa viagem, Laon e Saint-Denis foram as que mais me emocionaram. Ficamos lá um bom tempo, verificando as características góticas, e apreciando a sua beleza, antes de decidir deixá-la. Só pela catedral, a visita a Laon já teria valido a pena, mas ainda tinha mais.
Ao lado da catedral se encontra o Hôtel-Dieu, construído em torno de 1170, para cuidar do corpo e da alma(nível superior), e acolher os pobres e peregrinos (sala gótica), é o mais antigo hospital gótico da França. Hoje abriga no nível superior, o posto de informações turísticas e, a sala gótica é uma sala de eventos. Gostaria de ter feito como Ina Caro e almoçado em uma brasserie defronte a catedral, mas infelizmente os nossos horários não coincidiam com os dos restaurantes. Quando decidimos almoçar a cozinha de todos os restaurantes charmosinhos pelo qual passávamos já estavam fechadas, para só voltar a abrir às 19:00h. Tivemos que nos contentar com uma pizza, em uma brasserie ao estilo de Laon, cheia de charme. Depois da pausa do nosso “almoço” continuamos a explorar a cidade e fomos conhecer o museu e capela dos templários, construída em torno de 1134, projetada de forma a seguir o modelo do Santo Sepulcro em Jerusalém, num formato octogonal bem interessante. Lamentei o estado de conservação da capela, com várias infiltrações.
Em função do tempo frio e chuvoso, e da hora, tivemos que retornar à Paris, mas recomenda-se voltar em um dia ensolarado, porque há muito mais para se ver, como os três portais: Porte de Soissons, arquitetura militar do século XIII, guardada por duas torres; Porte d’Ardon, outrora chamada de Porte Royale, levava ao palácio real carolíngio; e Porte des Chenizelles, que levava a uma das quatro rotas principais que saíam da cidade. Tem ainda a Torre inclinada da Dame Eve, os bosques no entorno e outras maravilhas, como disse Victor Hugo…”Tout est beau à Laon…”
Finalmente chegou a hora de deixar a República Tcheca, com o final da leitura de Nem santos, nem anjos, de Ivan Klíma. O livro narra a história de Kristina, uma dentista divorciada, depressiva ao extremo, e a forma como ela se relaciona com as pessoas de sua família e das que lhe são próximas, como o ex-marido, amigos e namorados. Ela é uma pessoa negativa e rigorosa no julgamento que faz dos outros e de si mesma. A história envolve 03 gerações de sua família, no período que vai desde a segunda guerra mundial até os dias atuais. Klima escreve de uma forma tão envolvente que não conseguimos parar de ler, apesar de ser uma leitura muito densa, não só pelos temas abordados como drogas, suicídio, traição, mas principalmente pela ausência de fé e esperança na vida durante praticamente todo o enredo.
Nossa última aula nesse dia foi na Closerie des Lilas, no 171, do boulervard du Montparnasse, uma delícia de café e cheio de histórias. Na parte externa há um terraço agradável e bastante arborizado, mas que, ao mesmo tempo fica meio que escondido do público externo. No interior a decoração é clássica e elegante. Os banheiros são imperdíveis, um luxo, vale a pena conferir. Era muito frequentado nos anos 20 por estudantes, poetas, escritores, pintores, e políticos. Ernest Hemingway, além de fazer dele seu quartel general, imortalizou-o no livro, Paris é uma festa! O lugar onde ele costumava sentar está marcado com seu nome, assim como o de outras personalidades que frequentaram o lugar. Anualmente, se realiza lá, um concurso literário, para promover jovens escritoras de língua francesa, Le Prix de La Closerie des Lilas
Depois de um café e do fim da aula, eu e Teena nos jogamos no mundo, em Paris!
Closerie de Lilás
Apesar de estar fazendo muito frio, a estação do momento era a primavera, época em que os dias vão se tornando mais longos e demora cada vez mais a escurecer. Logo no início da nossa estadia, só escurecia em torno das 21:00h, mas no final, quando já estávamos no início de junho, até as 22:00h ainda estava claro. A aula terminava às 16:30, mas só conseguíamos voltar para casa quando escurecia, o que nos dava bastante tempo para explorar a cidade em longas caminhadas em diferentes direções.
Assim que saímos da Closerie, tomamos a direção do Jardim do Luxemburgo, e depois de andar por todo jardim, seguimos até o Panthéon, para uma visita. Mas ainda não seria dessa vez que iríamos conhecer o interior, pois como já passava das 17:30 h, as visitas já haviam se encerrado.
Jardim de Luxemburgo
Jardim de Luxemburgo
Jardim de Luxemburgo
A Arena de Luterce, era um local que queria muito conhecer, e com o mapa da cidade nas mãos, verificamos que ficava nos arredores, então decidimos ir até lá. Antes porém de atingir nosso destino, topamos com a rue de Mouffetard, que nos tirou totalmente de tempo, ficamos literalmente caída de amores por ela. Viemos pela rue de Blainville e caímos direto na Place de la Contrescarpe, um dos lugares mais pitorescos que já vi.
Rue Blainville com a Place de la Contrescarpe ao fundo
Place de la Contrescarpe
A praça é cheia de barezinhos e cafés super charmosos, e como já era final de tarde, dava para perceber a agitação crescente, as pessoas chegando e começando a ocupar seus lugares nas mesas do lado de fora, os músicos tirando seus instrumentos das capas e se posicionando! Um agito só! Ficamos ali olhando, completamente fascinadas, sendo contagiada pelo clima e sem saber o que fazer, vimos então a sorveteria Amorino e fomos até lá para um sorvete. Escolhi o de pistache, que estava delicioso! Achei melhor que o da Berthillon. Depois de ficar um tempo ali, curtindo nosso sorvete na praça, resolvemos explorar a rua.
A origem dessa rua data da idade média, e continuava até a Place d’Italie, mas depois das transformações do barão Haussaman, ela foi reduzida ao que é hoje. Ela vai descendo numa inclinação suave até a Av. de Gobelins. Lá você encontra de tudo, cafés, bares, pubs, lojas de comércio, e uma feira permanente, com tudo que pudermos encontrar, e que faz a festa de todo bom chef gourmet, de frutas, legumes, queijos, embutidos, carnes, peixes, frutos do mar e por aí vai. Não resistimos, compramos um quilo de moules por 5 euros, uma garrafa de vinho e voltamos para casa para preparar nosso jantar.
A praça em torno da Catedral de Saint-Denis, estava deserta, fria e assustadora, e como não poderiamos conhecer o interior da Catedral naquele dia, resolvemos não perder mais tempo e ir passear em outro lugar. O destino escolhido foi a Place de Vosges, pois estava no roteiro do livro de Ina Caro. Eu tinha estado lá recentemente como relatei num post aqui, mas Teena não conhecia ou não se lembrava. Pegamos o metro e descemos na estação de Champs-Élisées para pegar a linha 1 e descer na estação Saint-Paul. Como chovia muito paramos num café para comer e esperar a chuva passar, depois lamentamos termos parado logo no primeiro café, pois na praça, as opções eram bem melhores, além de ser mais agradável. Depois de rodar pela praça, olhar galerias, lojas e bater fotos, claro, seguimos adiante. Ficamos encantadas com um tocador de harpa na saída da Place de Vosges, depois com um mercado na Rue de Saint-Antoine, e com tudo mais que foi aparecendo no nosso caminho.
Rue de Saint-Antoine
Entrada da Place de Vosges pela rue de Birague
Saimos caminhando, sem destino, e fizemos esse roteiro aqui, passamos pelo Hotel de Ville, Musée do Louvre, Rue de Rivoli. Pensamos em tomar um chocolate quente no Angelina da Rue de Rivoli, mas quando chegamos já estava fechado. Ao chegar na place de la Concorde pegamos o metro de volta para casa, e encerramos o dia com nosso jantarzinho e vinho para acompanhar.
Em Paris sobre Trilhos, Ina Caro inicia sua viagem de trem pela história da França, pela basílica de Saint-Denis do século XII, e nós decidimos fazer o mesmo. Acontece que nosso primeiro dia livre, caiu justo no dia 1º de maio! E aqui vale um parêntese: A experiência de morar em outra cidade nos proporciona a oportunidade de enxergá-la de dentro para fora, o que não acontece quando estamos de passagem, pois vemos a cidade de fora para dentro. Nossa professora Danielle nos havia explicado na véspera, que é costume na França se oferecer um bouquet de muguet aos entes queridos no primeiro dia de maio, para lhes desejar felicidade e celebrar a nova estação. Não conhecia a tradição, que segundo a lenda remonta desde os tempos da renascença, com Carlos IX, mas só foi associado ao dia do trabalhador a partir do inicio do século XX. Christian Dior fez do muguet a marca de sua Maison.
Bouquet de muguet Venda de flores no 1º de maio
Mas voltando ao nosso passeio, para chegar a basílica de Saint-Denis, tomamos a linha 13 do metrô, com cuidado para pegar o trem certo, o Saint-Denis Université, para poder descer na estação Basilique de Saint-Denis, pois essa linha bifurca na estação La Fourche. O local fica no subúrbio de Paris, e para ser sincera, o visual dos arredores não é muito agradável, chega mesmo a ser um pouco assustador, mas como o nosso interesse era a basílica, seguimos em frente e foi só virar a esquina, para obtermos a primeira visão.
Fachada oeste da Basílica Saint-Denis
Fachada da Basílica
A basílica foi construída sobre um cemitério gallo-romano que abrigava a sepultura de Saint-Denis, considerado o primeiro bispo de Paris, foi martirizado em torno do ano de 250. E segundo a lenda foi decapitado e caminhou de Montmartre até o local onde foi enterrado, segurando a própria cabeça. Tornou-se um lugar de peregrinação, e no século V foi construída a igreja. No século VII, Dagoberto I fundou a basílica, que veio a tornar-se uma das Abadias beneditinas mais importantes da Idade Média. A maioria dos reis e rainhas da França foram enterrados lá, desde o século VI.
No século XII, o abade de Saint-Denis, Suger, que além de político influente, era um magnífico artista e empreendedor, mandou reconstruir a basílica utilizando pela primeira vez técnicas construtivas, como o arco em ogiva, rosácea, e vitrais coloridos, que rasgavam as paredes espessas das igrejas em estilo românico, deixando a luz entrar. A inauguração do coro da Basílica de Saint-Denis em 11 de junho de 1144, marca o nascimento da arte gótica.
Como era 1º de maio, nós não pudemos entrar, e vimos só a parte externa conferindo todos os detalhes das fachadas, as quatro colunas com cornijas no topo, etc. Ventava e fazia muito frio, então decidimos continuar o passeio em outros lugares e retornar em outro dia. Voltamos 03 dias depois, para conhecer a parte interna e a necrópole.
Foi uma sensação indescritível quando entrei pela primeira vez na Basílica! Não pude deixar de pensar, no que sentiram todos os convidados de Suger, o rei Luis VII, sua mulher, e todos os bispos e arcebispos, no dia da inauguração do coro da Basílica, quando viram toda aquela luz entrando pelos vitrais coloridos, as portas de bronze na entrada, o altar dourado, etc, e tudo isso naquela época, em que todos estavam vendo essas técnicas construtivas pela primeira vez. Olha só que lindo a luz passando pelos vitrais e indo até o chão!
Sarcófago de Luís XVI e Maria Antonieta
A visita ao interior da igreja é gratuita, mas para visitar a necrópole é necessário adquirir o ingresso e dura em média uma hora e meia. Existem visitas comentadas e audio guiadas.
O dia seguinte foi de transição e mudanças. Troquei meu status de turista em férias para estudante-turista, sai do hotel para o meu novo lar, o apartamento alugado com minha irmã, minha nova companheira de viagem. Os meninos voltaram para suas rotinas. E nós íamos começar a nossa. Em relação a nossa atividade principal, as aulas de francês, fizemos uma simulação do caminho até a Aliança, para ver o tempo necessário. Da nossa casa, na rue de Vaugirard, até a Aliança, no boulevard Raspail, levamos mais ou menos 20 minutos andando, e de metrô, o trajeto passava por 4 estações até a Aliança. Havíamos organizado nosso horário para ficar com dois dias livres, mesmo com 15 horas de aula semanais. A idéia era, além de conhecer Paris, sua história, gastronomia e cultura, viajar pela França. A descoberta do livro Paris sobre Trilhos, de Ina Caro. foi fundamental pelas informações e orientação que nos passou, e era tão exatamente o que vinha procurando, que passou pela minha cabeça que ela havia escrito o livro para minha pessoa. Fiz questão de presentear Teena com o livro, e mesmo sem a gente nunca ter discutido o assunto, ficou acertado entre a gente que seguiríamos o roteiro de Ina Caro.
Entrada da nossa casa
Nosso apartamento
Os primeiros dias foram de reconhecimento do ambiente e rotina da nova vida. Como passávamos dois dias, a terça e a quinta, direto na Aliança, resolvemos almoçar por lá mesmo, pois tem um ótimo restaurante com preço super em conta, não só para nós “estudantes” mas para o público em geral. Uma refeição completa, entrada, prato principal e sobremesa, com bebida, saía para estudante por 6 euros, e para o público uns 10. Descobrimos que os supermercados mais afastados são bem mais baratos, mas para as emergências sempre existe um mercadinho árabe perto da sua casa, vendendo de tudo, a qualquer hora, desde que se pague um pouco mais pelo serviço. Para levar as compras no metrô a solução era essa:
Levar as compras na mala.
Tirando as aulas de francês com horários e dias certos, nosso maior compromisso era com a nossa vontade. Havia a vontade de experimentar o autêntico boeuf bourguignon e cassoulet, assistir um concerto na Saint Chapelle, ver o teto de Chagall enquanto assistia um ballet na ópera Garnier, ou simplesmente bater pernas pela cidade sem destino e ao acaso descobrir lugares interessantes, residências onde viveram personalidades diversas, poetas, escritores, artistas, políticos, etc, e chegar em ruas e parques desconhecidos ou ainda chegar a lugares conhecidos por caminhos diferentes. Foi assim que começou nossa viagem.
Endereço da Aliança: 101 Boulevard Raspail-Linha 12, Notre-Dame-de-Champs
Nosso Carrefour preferido: Carrefour Paris Auteuil – Linha 10, Porte d’Auteuil