Colômbia

 

       foto (1)Colômbia passou na frente dos outros países, já sorteados, porque em umas das minhas visitas a Livraria Cultura, encontrei o livro do premiado autor colombiano Evelio Rosero, “Os exércitos”, enquanto passeava por entre as prateleiras da livraria. Depois de folheá-lo, fiquei com tanta vontade de ler, que decidi levá-lo comigo e fazer dele o representante da Colômbia no #198livros.  E a escolha foi perfeita, o romance conta a história de um casal de aposentados, o professor Ismael e sua esposa Otília, que vivem há quatro décadas no pequeno vilarejo de San José. A história, narrada por Ismael, retrata a transformação da pacata vida do vilarejo, em uma violenta praça de guerra. A transformação é feita lenta e gradativamente, a medida que o desaparecimento dos habitantes do vilarejo, vai sendo substituído pelo surgimento de homens armados, que começam a tomar conta da cidade. A violência retratada é a própria história de violência da Colômbia, com os grupos paramilitares, FARC e os narcotraficantes, agindo ao mesmo tempo. No entanto, embora o tema seja assim, avassalador, ele chega até o leitor de forma leve, suave, poética.  O livro foi vencedor do Independent Foreign Fiction Prize.

Finlândia

       finlândiaNem precisei andar muito para chegar ao próximo destino, bastou cruzar a fronteira, e pronto cheguei na Finlândia!  Este ano a Finlândia foi o país convidado da Feira de Frankfurt, e apesar de muitos autores se concentrarem nas guerras do século XX, principalmente a guerra de civil de 1918, parece que o romance policial, continua sendo a preferência dos autores nórdicos em geral, e de finlandeses como Matti Rönkä e Markku Ropponen, por exemplo. Além, claro, de Leena Lehtolainen, autora do livro Meu Primeiro Assassinato, escolhido para representar a Finlândia no projeto.  Este livro é o primeiro de uma série, tendo como personagem principal a policial Maria Kallio. Como o título revela, Maria inicia neste romance sua carreira de detetive, quase que por acaso. Enquanto aceita substituir um colega,  é chamada a desvendar um crime, o assassinado de um jovem na casa de praia dos pais. Jukka, a vítima, tinha ido passar o final de semana com mais alguns amigos, todos integrantes de um coral, para se preparem para uma apresentação.  Ao iniciar as investigações Maria descobre que conhecia a vitima e alguns dos suspeitos dos tempos de estudante, e tenta se desligar do caso. Mas, diante das circunstâncias que envolvem seu local de trabalho, é forçada a seguir adiante.

                 Mergulhei de cabeça no livro, já antecipando o prazer, com base nas experiências de Millenium e A procurada, mas confesso que fiquei um pouco decepcionada. Apesar de ser uma leitura leve, Maria não convence, parece o tempo todo deslocada em relação a própria vida, tanto pessoal como profissional, e como a história é toda centrada nela, o enredo deixa a desejar. No entanto, o livro valeu, pela viagem, pelo conhecimento que proporciona sobre a Finlândia,  sua capital Helsinque, seu entorno e a cultura do país, instigando nosso desejo de visitá-lo pessoalmente.

Suécia

    A_PROCURADA_1242681148B                Apesar de ainda não conhecer o país “ao vivo”, já o conhecia de outras viagens literárias. E foi depois de ter lido a trilogia  Millennium, de Stieg Larssonque descobri o blog de Camila Navarro, quando pesquisava sobre esse maravilhoso país. E assim, sem saber, havia dado o pontapé inicial para me juntar ao projeto #198livros. Apesar de tentar seguir a ordem de Camila, as vezes essa lógica sai bagunçada, e a Suécia foi uma tentativa de desordem organizada, pois combinamos, todas as seguidoras do projeto, de tornar o livro da Suécia o destino da vez para todas. É, esse projeto tem um pouco de tudo, mas é acima de tudo muito divertido. E sendo assim, com a anuência de todas escolhemos “A procurada”, de Karin Alvtegen.

                     Karin Alvtegen, é  uma premiada escritora, intitulada a rainha do romance policial sueco, e este livro, foi considerado o melhor Thriller Sueco de 2001, além de receber o Prêmio Poloni 2000, foi indicado ao Edgard Award em 2009.  O livro, narra a história de Sybilla, de 32 anos, que há quinze vive nas ruas de Estocolmo sobrevivendo a custa de pequenos golpes e expedientes, completamente a margem da sociedade. Numa noite, durante um dos seus golpes, acontece um bárbaro crime a poucos metros de onde ela se encontrava, e a vítima era o executivo ao qual ela havia aplicado mais um dos seus golpes. Com todas as pistas apontando para Sybilla, ela se torna a principal suspeita, e se antes ela conseguia administrar o vazio de sua tranquila existência, agora ele foge totalmente ao seu controle, e para não ser descoberta, ela precisa encontrar o verdadeiro assassino. Enquanto, os crimes vão se sucedendo, vamos conhecendo a trajetória de Sybilla, de filha única de um casal de milionários, até se tornar sem-teto, excluída da sociedade, e agora fugitiva da polícia.

                    No início, duvidava que a autora pudesse conduzir a história de forma a relacionar os crimes de forma convincente, mas a medida que fui avançando no enredo fui ficando irremediavelmente presa a ele, e não consegui mais parar de ler. Foi uma leitura divertida e empolgante.

Moldávia

 the_good3      A Moldávia foi mais um daqueles destinos que o #198livros me fez ter 100% de aproveitamento, pois saí do zero, para uma agradável viagem de reconhecimento, além de mais uma vez alimentar o desejo uma nova viagem, dessa vez in loco. Esse pequeno país, de menos de 5 milhões de habitantes fez parte da União Soviética, no período que vai da segunda guerra mundial até 1991, tendo antes pertencido a Romênia, e antes ainda ao Império Russo. Faz parte do leste europeu e está localizado entre a Romênia e a Ucrânia, sem saída para o mar. Sua capital, em torno de mais ou menos 800 mil habitantes, chama-se Chisinau , e é a maior cidade do país.

                  Após o colapso da União Soviética, a economia da Moldávia quebrou, sendo hoje o país mais pobre da União Européia. Estima-se que em torno de um milhão de pessoas fugiram do país para encontrar trabalho no exterior, sendo mesmo difícil encontrar mulheres jovens em algumas aldeias, já que a maioria emigrou em busca de trabalho. Segundo autoridades da ONU e registros dos direitos humanos muitas delas foram enganadas, estupradas e traficadas para os bordéis da Europa Oriental.

               Essa fuga do país em busca de oportunidades de trabalho é o tema do livro de Vladimir Lorchenkov, The Good Life Elsewhere. No livro o autor narra de forma caricatural, a tentativa dos habitantes do pequeno vilarejo de Larga, de emigrarem para o exterior em busca de melhores oportunidades de vida. Para eles, no entanto, a Itália, é o paraíso a ser alcançado. Através de diversos personagens, vai relatando de forma um pouco mórbida, as inúmeras tentativas frustadas de chegarem ao seu destino. Achei que o autor não fez justiça aos seus conterrâneos, pois trata-se de um povo valente que vem tentando se inserir na União Européia, apesar das sanções sofridas pela Rússia, como bloqueio as exportações de vinhos e ameças de cortar o gás natural. Mesmo assim os moldávios não se deixam intimidar e mesmo sem apoio, nenhum presidente jamais visitou o país oficialmente, continuam sua luta para fazer parte da União Européia. Nos últimos anos o governo tem tentado tomar medidas para recuperar a economia, e tem mostrado alguns sinais de recuperação. De forma que não consigo enxergá-los praticando as maldades narradas no livro.

Uzbequistão

download                        Assim que vi as paisagens das montanhas no Uzbequistão, fiquei encantada com a beleza e animada para mergulhar no livro escolhido, “A poet and Bin-Laden” de Hamid Ismailov. Dessa vez, no entanto, a pesquisa precisou se estender um pouco além das fronteiras físicas, já que meu conhecimento sobre o tema do livro, o islamismo, era tão insignificante, que até pra dar a largada precisava de um mínimo de conhecimento. A medida que fui avançando na leitura, fui ficando intrigada com o clima de guerra e terror que a narrativa vai deixando no ar, e me perguntava se atualmente, a vida no país seria tão perigosa como o livro deixava transparecer. Voltei para as pesquisas, e através dos relatos de viagens, em vários blogs, pude confirmar minha impressão inicial, de que o Uzbequistão, é sim de uma maravilhosa beleza natural, de uma cultura exótica, e o melhor, podemos visitar o pais tranquilamente e em segurança.

                          Mas voltando ao enredo do livro, trata-se da biografia do poeta uzbeque Belgi, e de sua estranha trajetória de vida.  O autor nos envolve em suas indagações, para tentar entender o que levou, Belgi, um poeta seguidor da doutrina sulfi, adepto da natureza, a terminar seus dias, como guerrilheiro junto aos membros do grupo do Taliban, nas montanhas do Alfeganistão. Para entender como tudo se passou ele refaz toda a trajetória de vida de Belgi, nos conduzindo a realidade do pais, que pertenceu a extinta União Soviética e só em 1991 recuperou sua independência. Desde então o país é governado pelo presidente Islam Karimov, e vive em conflito com os fundamentalistas muçulmanos. Paralelo a história de Belgi, o autor relata situações reais de guerras e conflitos, vivenciados no pais, juntando documentos e depoimentos para ilustrar a narrativa. Apesar de tornar a leitura cansativa, e difícil de assimilar, não deixa de ser bastante esclarecedora sobre a cultura, o islamismo e a história do pais, se encaixando muito bem. nesse nosso desejo de viajar e conhecer o mundo que o #198livros tem viabilizado.

                     Para mim, a grande questão que o autor coloca para o leitor, é saber se a transformação do poeta em guerrilheiro, foi voluntária, ou foi levada a ela pelo destino. No final da narrativa, ele coloca uma história supostamente escrita pelo poeta, que me pareceu ser uma forma de esclarecer sua escolha. Mesmo com toda dificuldade, gostei muito de ter feito essa viagem.

Áustria

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          Mais um destino conhecido, que volto a visitar graças ao #198Livros. Só que desta vez não contei com a boa vontade do autor, muito pelo contrário, se dependesse dele não retornaria jamais. Isso porque, um dos personagens do livro, que vem a ser o narrador, embora seja austríaco, não suporta a Áustria. Os personagens fazem parte do livro O Náufrago de Thomas Bernhard, que criou uma história híbrida em que personagens reais, Glenn Gould e Vladimir Horowitz, ambos grandes pianistas, se misturam com personagens fictícios, Wertheimer e o narrador, também pianistas.

                        O livro narra o retorno do narrador a Áustria, para o funeral de Wertheimer, e ao passado de 28 anos atrás, época em que os três jovens pianistas, Glenn Gould, Wertheimer e o narrador se conheceram. Eles foram estudar na Mozarteum, em Salzburgo, com o grande mestre Vladimir Horowitz, tornando-se a partir de então grandes amigos. Todos ambicionavam tornarem-se virtuosos no piano, mas somente Glenn Gould seguiria adiante como gênio do piano, os outros dois viram seus sonhos se desvanecerem ao escutarem Glenn Gould tocar as Variações de Goldberg, de Bach. A partir do momento que eles o escutam tocar, ficam convencidos que jamais poderão tocar daquela maneira e assim desistem do piano. A consequência dessa decisão em suas vidas é devastadora,  Wertheimer, que é o próprio náufrago, termina se suicidando, e é justamente para o seu funeral que o narrador retorna de Madri, onde vive. Após a cerimônia decide ir até a casa do amigo, em busca de um manuscrito que ele supostamente teria escrito, passando pela pousada onde costumavam ir. Enquanto espera a dona da pousada começa a reviver sua vida e a dos dois amigos, que estão mortos, e a repensá-las. Ele faz uma verdadeira catarse de tudo que viveu, individualmente, e entre eles, e ainda, como a personalidade de cada um influenciou a dos outros. Na verdade, Glenn Gould foi quem deu o tom, pois influenciou muito mais do que foi influenciado, inclusive foi ele que identificou Wertheimer como sendo um náufrago na vida.

                    Apesar dos personagens serem muito depressivos em relação a vida, a leitura é muito intensa, a gente não consegue parar, vamos seguindo no ritmo do narrador e das palavras, ficando quase sem folego. O livro é escrito em apenas 4 parágrafos, os três primeiros bem curtinhos, como apresentação, antes de mergulhar nas lembranças a partir do quarto, que segue até o final do livro, sem pausa. Muito boa a viagem.

Holanda

     foto (9)Viajar sempre é muito bom, não importa se o destino é novo, ou se já é um velho conhecido, há sempre um novo olhar para um mesmo lugar. E quando vemos o lugar pelos olhos dos nativos, ou dos que lá habitam, é ainda melhor, porque os lugares deixam de ser como monumentos para nós turistas e passam a ter vida própria. Com a chegada a Holanda foi assim, acompanhei o protagonista do livro escolhido, para cima e para baixo, conhecendo, ruas, bares, parques, bosques, canais, e ilhas, em sua busca desenfreada para reencontrar o equilíbrio em sua vida.

Armin Minderhput, o protagonista do livro de estréia de Karel G. van Loon, “Amor de Pai”, é um holandês de 37 anos, revisor de livros científicos, que sofre um abalo em sua vida ao descobrir que sempre foi infértil, mesmo sendo pai de um adolescente de 13 anos. A partir dessa descoberta, ele começa sua busca para tentar descobrir quem é o pai biológico de seu filho e amante de sua mulher, morta há 10 anos. Ao longo dessa viagem de volta ao passado, que ele precisa fazer, para poder direcionar suas buscas, ele vai encontrando surpreendentes aspectos da vida da sua mulher e da sua própria vida, que o farão repensar toda a sua forma de viver.

É um livro de leitura leve e muito agradável, que não dá vontade de largar. Uma boa escolha para o projeto do #198 livros.

Vietnã

foto (8)        Antes desse projeto, o Vietnã, para mim, estava diretamente associado a Guerra do Vietnã. Era automático, pois foram tantos filmes, tantas manifestações e depoimentos que não tinha como não associar. E o sentimento era sempre o mesmo, de revolta pelos jovens americanos que foram defender uma causa que não era a deles, e perderam a saúde, a paz e a vida. Muito pouco ou quase nada, ficamos sabendo sobre a realidade do Vietnã como país, sua cultura e costumes, e como os conflitos que deram origem a guerra, afetaram a população. Viajar até o Vietnã através dos olhos de Duong Thu Huong, foi fascinante, uma excelente oportunidade de conhecer o país. A autora do livro escolhido Les Paradis Aveugles, nasceu no Vietnã em 1947, e aos vinte anos, já dirigia a brigada da juventude comunista, que foi enviada ao fronte durante a guerra. Advogada dos direitos humanos e das reformas democráticas, sempre defendeu suas convicções políticas, através de seus livros e de seu engajamento político, o que lhe valeu a expulsão do partido comunista em 1990, e a prisão de forma arbitrária, sem direito a processo. Atualmente ela vive em Paris, depois de ter vivido em prisão domiciliar em Hanói. Seu livro, Terre des Oublis, alcançou enorme sucesso na França, em 2006, e lhe valeu o Premio das leitoras de ELLE, 2007.  Embora tenha sido uma das escritoras mais populares  no seu país, seus livros foram proibidos de serem publicados lá, sendo no entanto, traduzidos no mundo inteiro.

                      Les Paradis Aveugles conta a história de Hàng, uma jovem vietnamita que vive e trabalha como operária numa fábrica de tecidos em Moscou.  A história se inicia no momento em que ela resolve atender um pedido de ajuda de tio Chinh, que lhe enviou um telegrama informando que se encontra doente. No trem que lhe levará ao encontro do tio, ela recorda seu passado doloroso, como a reforma agrária promovida pelo partido comunista, do qual seu tio é um membro ativo, afetou e destruiu não só a vida de seus pais, mas de toda sua família. E como o comportamento da mãe, agindo sob a alegação de respeito às tradições familiares, contribuiu para tornar a vida dela um suplício. Através do relato de Duong Thu Huong, podemos conhecer outra forma do sistema comunista, que já tinha acompanhado nos livros da Bulgária, e do Camboja. Embora a história de vida de  Hàng seja de dor e sofrimento, a leitura é leve e agradável, e a viagem ao Vietnã extremamente enriquecedora, onde podemos ter uma maravilhosa visão das tradições dos vietnamitas, sua gastronomia, usos e costumes.

Moçambique

                      Tinhafoto (7) na cabeça uma imagem de Moçambique que absolutamente não correspondia a realidade. Não sei por que imaginava uma terra árida e feia, e qual não foi minha surpresa ao assistir um vídeo sobre o país, e ver como o lugar é lindo, praias belíssimas, natureza perfeita, povo simpático, animado e colorido. A única nota triste foi saber o índice de contaminação com a AIDS, segundo dados que vi, é de 1 pra 10, uma das maiores taxas do planeta. Localizado no sudeste da África e banhado pelo oceano Índico, foi colonizado por Portugal,  e só conquistou sua independência em 1975, e apenas dois anos depois começou uma difícil guerra civil que durou até 1992.  É neste cenário devastado, que se passa a história do livro da vez, Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Ainda não tinha lido nada dele, e estava na maior expectativa.

                O livro conta a história de dois companheiros, Tuahir e Muidinga, um velho e um menino que viajam fugindo da miséria deixada pela guerra, que tudo devastou. No caminho encontram um ônibus incendiado, que utilizam como abrigo, e uma velha mala contendo 12 cadernos com o diário de Kindzu, outro viajante, também fugitivo da terra devastada. Para se distraírem da solidão e dos sofrimentos começam a ler as histórias contadas por Kidzu em seu diário. As histórias dos três personagens vão sendo contada alternadamente e a medida que avançam, vamos conhecendo a vida e os costumes do país, sua magia e o pesadelo causado pela guerra. Também vamos acompanhando a evolução dos personagens, o amadurecimento de Kindzu e o estreitamento do relacionamento entre o menino e o velho.

                Mia Couto escreve de uma forma magnífica, quase que não nos deixa tomar folego. Fiquei fascinada também pelo português de Moçambique, a forma como determinadas palavras são utilizadas. Porque não é só a utilização de palavras sinônimas, mas, o mesmo significado com uma variação diferente, como nesse trecho aqui: “A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali.” Apesar das atrocidades da guerra, Mia Couto nos conduz por uma bela estrada.

Camboja

 

  cambojaOuvi muito falar da guerra do Camboja, mas assim como outras notícias sobre guerras em países distantes, o conhecimento fica restrito apenas ao que é divulgado pela imprensa. A dura realidade vivida pelos cambojanos, só se conhece de fato, quando se entra em contato direto, com o relato de alguém que a tenha vivenciado na própria pele. E a realidade nunca faz jus às informações que chegam até nós, ela sempre supera. Foi o que percebi, enquanto devorava o livro de Vaddey Ratner, “In the Shadow of the Banyan”, escolhido para o #198livros.

 Embora a história retrate os horrores que os cambojanos viveram no período de 1975 a 1979, época em que o Khmer Vermelho, tomou o poder no Camboja, trata-se na verdade, de uma história de amor. O amor entre um homem e uma mulher, deles por suas filhas, de uma família e seus entes queridos. Dessa forma, a autora, que escreveu a história baseada em sua experiência pessoal, rende um tributo aos que não sobreviveram ao massacre. No livro, Vaddey Ratner empresta sua voz a Raami, para contar sua história.

                   A família de Raami fazia parte da monarquia cambojana, que havia sido afastada do poder, quando o Camboja tornou-se uma republica em 1970. No inicio da história, ela está com 7 anos e vive cercada de amor, num mundo idealizado para ela, onde vive com os pais e a irmã pequena. Seus pais fazem de tudo para que ela não sofra com a sequela deixada pela pólio, adquirida quando era um bebe. Tem uma forte ligação com o pai, um poeta e idealista, que transmite através das mais variadas histórias, seus ensinamentos sobre o mundo e as pessoas.  É nesse contexto, vivendo essa existência feliz, que um dia, os soldados do Khmer Vermelho batem a porta de sua casa, transformando seu mundo de poesia, num inferno de dor e sofrimento. Através do relato de Raami, pode-se ter uma ideia do que viveram os cambojanos nesse período, como eram os campos de trabalhos forçados, a fome, os assassinatos, as torturas físicas e psicológicas. Mas para enfrentar todo esse sofrimento, Raami, conta com a força do amor dos seus pais, que são capazes de qualquer sacrifício, para que ela sobreviva. Esse sentimento para mim pode ser resumido nessa frase, que a mãe de Raami diz para ela em determinado momento: “Seu pai lhe deu asas, mas sou eu que devo lhe ensinar a voar”.  Foi um dos livros mais tocantes que já li, e foi mais uma escolha perfeita deste projeto.