Chinon

DSC01445                Continuando nosso roteiro do Vale do Loire, chegamos em Chinon depois de rodar aproximadamente 33 km, a partir de Saumur. A pequena cidade medieval, está cercada pelos rios Vienne e Loire e fica aos pés da colina onde foi construída a Fortaleza Royal de Chinon, de onde se tem uma vista maravilhosa. Até então, todo meu conhecimento sobre a cidade, resumia-se ao vinho “Chinon” e ao encontro histórico entre Joana d’Arc e o delfim, o futuro rei Carlos VII, principal razão da visita à cidade. Se havia lido antes sobre a situação atual da fortaleza, não registrei, mas o fato é que ao olhar aquela imensa fortaleza em ruínas, fiquei arrasada. Só o que ficou de pé foram as três torres e as muralhas, o restante foi demolido a mando de Richelieu, um Cardeal-bispo de política absolutista. Nem o salão, onde se passou a cena histórica, com Joana d’Arc se ajoelhando diante do delfim após identificá-lo (mesmo este se disfarçando), para dizer da parte de Deus que ele era filho legítimo do rei da França, portanto, era ele o legítimo rei da França, foi poupado. Pode-se ver pela beleza da torre que ficou de pé, a grandiosidade do restante da construção em pedras, do castelo-fortaleza. Fiquei andando por ali, tirando fotos, sentindo a energia do lugar, sem conseguir ir embora. Só após os insistentes chamados das meninas, foi que resolvi deixar o local.

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DSC01442                      Chegamos a fortaleza de carro por um acesso que nos levou direto a ela, e só tivemos que estacioná-lo nas proximidades. Na época de Joana d’Arc não era assim, não existia a rodovia, o acesso era feito pela ladeira de pedra, com acentuada inclinação. Joana, chegou de cavalo até o início da subida. Fizemos então o caminho inverso, do alto da fortaleza descemos pela ladeira até a cidade.

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                       Foi aqui diante dessa casa, onde se pode ver a placa em cima da porta que Joana, desceu do cavalo para subir a ladeira até a fortaleza e encontrar com o delfim. Sou fascinada por Joana d’Arc e acredito que os franceses também, pois fazem questão  de deixar registrado todos os locais por onde ela passou. A cidade de Chinon parece que parou no tempo, e assim podemos de fato nos transportar através dele e imaginar a vida naquela época. DSC01454

 

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                    Uma vez embaixo, demos uma circulada por toda a cidade que é uma graça, com praças e barezinhos, e aí já estava na hora de levantar voo para aterrissar em Azay-le Rideau.

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Vietnã

foto (8)        Antes desse projeto, o Vietnã, para mim, estava diretamente associado a Guerra do Vietnã. Era automático, pois foram tantos filmes, tantas manifestações e depoimentos que não tinha como não associar. E o sentimento era sempre o mesmo, de revolta pelos jovens americanos que foram defender uma causa que não era a deles, e perderam a saúde, a paz e a vida. Muito pouco ou quase nada, ficamos sabendo sobre a realidade do Vietnã como país, sua cultura e costumes, e como os conflitos que deram origem a guerra, afetaram a população. Viajar até o Vietnã através dos olhos de Duong Thu Huong, foi fascinante, uma excelente oportunidade de conhecer o país. A autora do livro escolhido Les Paradis Aveugles, nasceu no Vietnã em 1947, e aos vinte anos, já dirigia a brigada da juventude comunista, que foi enviada ao fronte durante a guerra. Advogada dos direitos humanos e das reformas democráticas, sempre defendeu suas convicções políticas, através de seus livros e de seu engajamento político, o que lhe valeu a expulsão do partido comunista em 1990, e a prisão de forma arbitrária, sem direito a processo. Atualmente ela vive em Paris, depois de ter vivido em prisão domiciliar em Hanói. Seu livro, Terre des Oublis, alcançou enorme sucesso na França, em 2006, e lhe valeu o Premio das leitoras de ELLE, 2007.  Embora tenha sido uma das escritoras mais populares  no seu país, seus livros foram proibidos de serem publicados lá, sendo no entanto, traduzidos no mundo inteiro.

                      Les Paradis Aveugles conta a história de Hàng, uma jovem vietnamita que vive e trabalha como operária numa fábrica de tecidos em Moscou.  A história se inicia no momento em que ela resolve atender um pedido de ajuda de tio Chinh, que lhe enviou um telegrama informando que se encontra doente. No trem que lhe levará ao encontro do tio, ela recorda seu passado doloroso, como a reforma agrária promovida pelo partido comunista, do qual seu tio é um membro ativo, afetou e destruiu não só a vida de seus pais, mas de toda sua família. E como o comportamento da mãe, agindo sob a alegação de respeito às tradições familiares, contribuiu para tornar a vida dela um suplício. Através do relato de Duong Thu Huong, podemos conhecer outra forma do sistema comunista, que já tinha acompanhado nos livros da Bulgária, e do Camboja. Embora a história de vida de  Hàng seja de dor e sofrimento, a leitura é leve e agradável, e a viagem ao Vietnã extremamente enriquecedora, onde podemos ter uma maravilhosa visão das tradições dos vietnamitas, sua gastronomia, usos e costumes.

Saumur

                      Nada de castelo, o que nos levou a Saumur foram os cogumelos! Foi principalmente para visitar o Museé du Champignon, que decidimos incluí-la no roteiro, mas já sabendo de antemão, que esse era apenas mais um indicativo para ajudar na escolha do roteiro, porque dificilmente se erra ao visitar uma pequena cidade francesa no Vale do Loire, é encantamento na certa. E com todos aqueles ingredientes que as caracterizam #belacidade#château#vinhos#rioLoire#  Mas vamos começar a visita pelo início.

Vista do rio Loire ao fundo.
Vista do rio Loire ao fundo.

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                    Deixamos Villandry e depois de rodar aproximadamente 57 km chegamos em Saumur, uma pequena cidade construída predominantemente de pedra, as margens do rio Loire. Decidimos visitar logo o Château de Saumur, pois ele esta localizado no alto de um rochedo, e domina a cidade com suas torres, impossível ignorá-lo. Depois de uma tentativa fracassada de encontrar o caminho até lá, fizemos o óbvio e pegamos um mapa num quiosque de turismo. O castelo foi construído, no século XIV, pelo duque Luis I,  de Anjou, irmão do Rei Carlos V, a partir de uma fortaleza, e remodelado um século depois por seu neto, o bon roi René, último Duque de Anjou,DSC01411DSC01414                 Havíamos decidido que não iríamos visitar internamente todos os castelos, em função da disponibilidade de tempo. Como tínhamos outros interesses na cidade, além do castelo, esse foi selecionado para ser visitado apenas externamente.DSC01421DSC01419DSC01416

                   De mapa na mão, seguimos para o Museu dos cogumelos, e ao longo da estrada vimos inúmeras vinículas, mas já tínhamos um destino certo. Aqui vale um parentese, os vinhos do Vale do Loire, são bastante apreciados na França, a um custo bem mais acessível que os mais conhecidos da região de Bordeaux e Borgonha. Os tintos de Saumur são uma maravilha com destaque para o Saumur Champigny . E então, finalmente chegamos!

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                   O Museu consiste em inúmeras cavernas calcárias onde são cultivados 75% da produção de cogumelos do país, em torno de 12 toneladas. Além da exposição de centenas de cogumelos selvagens. O museu é aberto todos os dias de fevereiro a novembro, e a visita de 1:30h custa 8,20 euros. Não consegui boas fotos dos cogumelos, mas a visita é fascinante.???????????????????????????????                  No final da visita, fomos conhecer a boutique com diversos produtos do Museu e aproveitamos para almoçar no pequeno restaurante. Dentre os vários menus oferecidos escolhemos o que oferecia: cogumelo paris ao molho da casa, velouté de shitake e uma taça de  crémant, o espumante do vale do Loire. Tudo isso ao custo de 7 euros.DSC01426DSC01427                     #partiu#Chinon#

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Moçambique

                      Tinhafoto (7) na cabeça uma imagem de Moçambique que absolutamente não correspondia a realidade. Não sei por que imaginava uma terra árida e feia, e qual não foi minha surpresa ao assistir um vídeo sobre o país, e ver como o lugar é lindo, praias belíssimas, natureza perfeita, povo simpático, animado e colorido. A única nota triste foi saber o índice de contaminação com a AIDS, segundo dados que vi, é de 1 pra 10, uma das maiores taxas do planeta. Localizado no sudeste da África e banhado pelo oceano Índico, foi colonizado por Portugal,  e só conquistou sua independência em 1975, e apenas dois anos depois começou uma difícil guerra civil que durou até 1992.  É neste cenário devastado, que se passa a história do livro da vez, Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Ainda não tinha lido nada dele, e estava na maior expectativa.

                O livro conta a história de dois companheiros, Tuahir e Muidinga, um velho e um menino que viajam fugindo da miséria deixada pela guerra, que tudo devastou. No caminho encontram um ônibus incendiado, que utilizam como abrigo, e uma velha mala contendo 12 cadernos com o diário de Kindzu, outro viajante, também fugitivo da terra devastada. Para se distraírem da solidão e dos sofrimentos começam a ler as histórias contadas por Kidzu em seu diário. As histórias dos três personagens vão sendo contada alternadamente e a medida que avançam, vamos conhecendo a vida e os costumes do país, sua magia e o pesadelo causado pela guerra. Também vamos acompanhando a evolução dos personagens, o amadurecimento de Kindzu e o estreitamento do relacionamento entre o menino e o velho.

                Mia Couto escreve de uma forma magnífica, quase que não nos deixa tomar folego. Fiquei fascinada também pelo português de Moçambique, a forma como determinadas palavras são utilizadas. Porque não é só a utilização de palavras sinônimas, mas, o mesmo significado com uma variação diferente, como nesse trecho aqui: “A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali.” Apesar das atrocidades da guerra, Mia Couto nos conduz por uma bela estrada.

Villandry

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             Apesar de Ricardo Freire, do blog Viaje na Viagem, ter sugerido deixar o Villandry para a sobremesa nesse post,  foi justamente por ele que começamos. Por uma simples questão de logística, Villandry fica a 18 km de Tours.  Mas a ordem das visitas, na verdade, é irrelevante, o importante é conhecer Villandry, pois embora não tenha tanta importância histórica, é deslumbrante. O que achei mais incrível desse castelo, é que ele parece um “lar”, bem diferente dos outros castelos da França que já tinha visitado, fora dessa região, como o de Versailles, Vaux le Vimconte, Fontainebleau. Esses são suntuosos demais, eu não consigo imaginar uma família morando em um desses castelos, mas não é o caso do Villandry, onde os ambientes são “clean”, e apesar de amplos, são bem aconchegantes, conforme pode-se ver nas fotos a seguir. Além da decoração minimalista, Villandry, também se destaca pelo aproveitamento que foi feito do terreno, para nele se construírem os lindos jardins.

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                      Villandry foi construído em 1536 por Jean le Breton, ministro das finanças de Francisco I, sendo o último dos grandes castelos construídos nas margens do rio Loire, na época do renascimento. Para construí-lo Jean le Breton, mandou demolir uma fortaleza do século XII, dela restando apenas as fundações e a torre de menagem.

Vista da torre de menagem
Vista da torre de menagem

                    Os descendentes de Jean le Breton conservaram o castelo até 1754, quando passou a pertencer ao marquês de Castellane, embaixador do rei e proveniente de uma família provençal. Ele acrescentou uma ligação em estilo clássico e reformou a área interna, adaptando .ao século XIX.DSC01382

                  Finalmente, em 1906, o castelo foi adquirido por Joachim Carvalho, espanhol e bisavô do atual proprietário. Ele restaurou o castelo e recriou os jardins em estilo renascença. Iniciamos a visita pelos jardins, a bordo de uma pequena carruagem, dando um clima bem romântico e alegre a nossa visita, me senti voltando no tempo.DSC01368

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                      De carruagem percorremos todo o percurso em torno dos jardins, que também pode ser feito a pé, seguindo uma sinalização vermelha no chão. Os jardins estão divididos em Jardim Decorativo, da água, do sol e a horta. A horta é replantada duas vezes por ano, na primavera e no verão, respeitando-se nessa renovação, as restrições de harmonia das cores e das formas, e por outro lado, as restrições hortícolas que impõem uma rotação trienal das culturas para não empobrecer a terra. São cerca de 40 espécies, que pertencem a 8 famílias botânicas. É lindo passear entre os jardins, mas para se ter uma ideia de  todos os desenhos, o ideal é olhar de cima da torre de menagem.

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Horta
Horta

                   A visita que já estava sendo bem divertida, só na área externa, ficou ainda melhor quando passamos para o interior, com sua decoração e astral maravilhosos.

O salão e o escritório
O salão e o escritório
Sala de jantar
Sala de jantar

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Cozinha
Cozinha
Escada principal
Escada principal
Quarto do príncipe Jerônimo
Quarto do príncipe Jerônimo
Salão oriental, teto oriundo do palácio dos duques de Maqueda, construído no século XV, em Toledo.
Salão oriental, teto oriundo do palácio dos duques de Maqueda, construído no século XV, em Toledo.

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                     A farra estava boa, mas o resto do Loire nos aguardava, # partiuSaumur#

Camboja

 

  cambojaOuvi muito falar da guerra do Camboja, mas assim como outras notícias sobre guerras em países distantes, o conhecimento fica restrito apenas ao que é divulgado pela imprensa. A dura realidade vivida pelos cambojanos, só se conhece de fato, quando se entra em contato direto, com o relato de alguém que a tenha vivenciado na própria pele. E a realidade nunca faz jus às informações que chegam até nós, ela sempre supera. Foi o que percebi, enquanto devorava o livro de Vaddey Ratner, “In the Shadow of the Banyan”, escolhido para o #198livros.

 Embora a história retrate os horrores que os cambojanos viveram no período de 1975 a 1979, época em que o Khmer Vermelho, tomou o poder no Camboja, trata-se na verdade, de uma história de amor. O amor entre um homem e uma mulher, deles por suas filhas, de uma família e seus entes queridos. Dessa forma, a autora, que escreveu a história baseada em sua experiência pessoal, rende um tributo aos que não sobreviveram ao massacre. No livro, Vaddey Ratner empresta sua voz a Raami, para contar sua história.

                   A família de Raami fazia parte da monarquia cambojana, que havia sido afastada do poder, quando o Camboja tornou-se uma republica em 1970. No inicio da história, ela está com 7 anos e vive cercada de amor, num mundo idealizado para ela, onde vive com os pais e a irmã pequena. Seus pais fazem de tudo para que ela não sofra com a sequela deixada pela pólio, adquirida quando era um bebe. Tem uma forte ligação com o pai, um poeta e idealista, que transmite através das mais variadas histórias, seus ensinamentos sobre o mundo e as pessoas.  É nesse contexto, vivendo essa existência feliz, que um dia, os soldados do Khmer Vermelho batem a porta de sua casa, transformando seu mundo de poesia, num inferno de dor e sofrimento. Através do relato de Raami, pode-se ter uma ideia do que viveram os cambojanos nesse período, como eram os campos de trabalhos forçados, a fome, os assassinatos, as torturas físicas e psicológicas. Mas para enfrentar todo esse sofrimento, Raami, conta com a força do amor dos seus pais, que são capazes de qualquer sacrifício, para que ela sobreviva. Esse sentimento para mim pode ser resumido nessa frase, que a mãe de Raami diz para ela em determinado momento: “Seu pai lhe deu asas, mas sou eu que devo lhe ensinar a voar”.  Foi um dos livros mais tocantes que já li, e foi mais uma escolha perfeita deste projeto.

Tours

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             Conforme havia mencionado nesse post aqui, começamos nossa viagem ao Vale do Loire por Tours, cidade que escolhemos para nos servir de base. Tanto por sua localização, cercada de castelos por todos os lados, quanto pela  infraestrutura. Chegamos lá de trem, duas horas depois de deixar Paris, saindo da Gare de Austerlitz.  Alugamos o carro para o dia seguinte, na própria gare, deixamos as malas no hotel e saímos para explorar a cidade.

                    Tours é uma cidade muito bonita, localizada entre dois rios, La Loire e Le Clerc, foi fundada no século I, sob o nome de Caesarodunum, sendo uma das 50 Romas em miniatura dadas aos legionários romanos, que lutaram na Gália e no Egito. Augusto queria agradar aos legionários, mas ao mesmo tempo deixá-los bem longe de Roma evitando assim os distúrbios quando voltassem dos serviços. Floresceu nos dois séculos seguintes, mas depois da chegada dos bárbaros germânicos, que não souberam dar continuidade ao sistema romano de impostos e manter sua infraestrutura, a cidade começou a decair. Durante o período de quase 200 anos (1418 a 1589) em que os reis franceses residiram no Loire, construindo seus castelos em volta dela,Tours voltou ao seu apogeu, e o tornou-se o centro econômico e administrativo do reino, substituindo Paris. E ao contrário dela, que teve a maior parte do passado medieval derrubado pelo Barão von Haussmann, o distrito medieval de Tours, foi bem restaurado.

Defronte ao hotel prontas para explorar.
Defronte ao hotel, se preparando para alçar voo.

                      Deixamos o hotel, e de mapa na mão, seguimos em direção a vieux Tours, distrito medieval. Ao longo do caminho, encontramos vestígios da antiga cidade romana, construções do período medieval, renascentista, até culminar com uma mistura de estilos na Place Plumereau, que é bem animada, cheia de bares e restaurantes. DSC01353

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DSC01345                   Não conseguimos resistir ao chamado da Place Plumereau, e apesar do frio, paramos para brindar ao clima festivo da cidade. DSC01365

                   Num cenário como esse, não há mais nada a fazer que não seja, andar, andar e andar……..E foi assim que passamos por Tours.

Comores

                   foto (6)Saí de uma ilha para outra, da Ásia para a África, mas enquanto Timor Leste é apenas parte de uma ilha, Comores faz parte de um arquipélago.  A União dos Comores é uma república federal islâmica que compreende três (Grande Comore, Mohéli e Anjouan), das quatro ilhas principais do arquipélago das Comores, localizado ao norte do canal de Moçambique, no Oceano Índico. O país só ficou independente da França em 06 de julho de 1975, após um domínio de mais de um século. Anteriormente havia sido colônia islâmica, entre o século IX e XIX. Esse grande período de domínio árabe deixou marcas na cultura da ilha, 98% da população são muçulmanos contra 2% das outras religiões. A influência dos colonizadores também se faz sentir no idioma, havendo nada menos que três idiomas oficiais: árabe, francês e shikomor. No romance de Mohamed Toihiri, Le Kafir du Karthala, dá para conhecer muito da cultura de Comores e imaginar a beleza das ilhas. O “Karthala” mencionado no título, é um vulcão ativo, perto da capital, considerado o ponto mais alto de Comores, e o “Kafir” pode ter diferentes siginificados, tanto pode ter o sentido de “infiel” para o Corão, “negro” na África do Sul e “marginal” nos Comores. Sendo a simbologia utilizada pelo autor para representar a questão moral do seu protagonista.

                   O livro conta a história de Mazamba, iniciando-se no exato momento em que ele recebe a notícia que é portador de um tumor maligno e tem pouco tempo de vida. Refeito do choque inicial, toma a decisão de não contar a ninguém sobre a doença, e encontrar um sentido para sua morte. Até então, Dr Idi Wa Mazamba, vive em Moroni, capital do país, exercendo a medicina depois de ter estudado na França. No exercício da medicina ele convive de perto com a diferença de classes e má distribuição de renda. Ele é um nacionalista que ama seu país e suas origens, mas que se sente incomodado com alguns costumes locais e com a corrupção que domina o país, liderada principalmente pelos PG “partenaire généreux” europeus que controlam o país.  Com a proximidade da morte, Mazamba sai da inércia em que vivia e se liberta das amarras sociais. Livre, para viver suas emoções, ele vai se envolver com uma professora francesa, judia e “branca”, e vivenciar o amor pela primeira vez, apesar de ser casado já alguns anos. Essa liberdade também vai lhe permitir agir de acordo com suas convicções. Ao longo do livro, por meio das experiências de Mazamba, vamos conhecendo a cultura do país: O grande casamento ou Anda, em shikomor, grande evento, momento de afirmação social, tanto para o homem como para a mulher; bangano, disputa pública na qual os participantes tentam marcar pontos, cada vez que humilham o adversário por meio da revelação dos segredos, seus e de sua família; as brincadeiras e cantigas infantis; a bruxaria que se pratica na ilha, e por aí vai. O romance tem uma leitura gostosa, que não nos deixa largar o livro. Uma delícia de viagem.

Timor Leste

                     foto (5)Não sabia quase nada sobre o Timor Leste, apenas que lá se falava português e que a independência era recente. Como sempre minhas pesquisas me levaram um pouco mais adiante.  De fato, ele é um jovem país, acho que o mais jovem do mundo, além de muito pequeno. Está localizado na parte oriental da ilha de Timor, no Sudeste Asiático. Foi colônia de Portugal do século XVI, até 1975, quando teve sua independência declarada. Após a saída de Portugal, a Indonésia invadiu e anexou o país ao seu território, transformando o Tímor em sua 27ª província. Durante o período de ocupação da Indonésia, que durou até 2002, quando o país conseguiu restaurar a independência, os timorenses viveram um pesadelo. Um clima de terror se instalou no país, a população foi massacrada, fala-se inclusive em genocídio, quase um terço da população foi exterminada. Nesse período o uso do português foi proibido e o tétum desencorajado, além de serem intimidados a professar uma religião, sob pena de serem considerados comunistas. Até então, o catolicismo era a religião do estado e da elite, mas diante das circunstâncias, se vendo forçados a decidir, a escolha recaiu sobre o catolicismo, já conhecido, em oposição ao islamismo dos indonésios. Hoje 90% da população se declara católica, apesar do ocultismo das religiões étnicas ainda ser muito forte, sendo essa coexistência entre a prática do catolicismo e de outras religiões uma característica cultural do país. Nesse período, a igreja assumiu também um papel importante de estrutura social e de poder.

                     A história do escritor timorense Luis Cardoso, no seu livro Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo, é ambientada nesse mundo. Não no mundo de terror criado pelos indonésios, mas nesse mundo surreal e fantástico, que parece fazer parte da cultura do país. Nele, a história de Beatriz e sua família, é narrada por ela mesma, de uma forma tão envolvente que não conseguimos parar de ler.  O nascimento de Beatriz desestruturou a família, tanto por ser inesperado e tardio, como pelo tamanho dos seus olhos, que pareciam enxergar demais. Os personagens, e membros da família de Beatriz, entram e saem do enredo, sem pedir licença, nem dizer adeus. Não tenho certeza se a intenção do autor foi fazer uma alusão indireta a história do país, já que a luta pela independência só é mencionada no final. Mas com certeza muito dos costumes do Timor estão bem retratados no livro; as tradições familiares, o costume de mascar uma mistura de areca, bétel e cal virgem, a briga de galos, a figura dos grandes homens, o poder da igreja católica, e principalmente o sobrenatural. Uma grande viagem.

 

Vale do Loire

                      Para encerrar a viagem com chave de ouro, planejamos conhecer o Vale do Loire no último final de semana. Depois de entregar o apartamento, deixamos toda a grande bagagem na casa das meninas, em Paris, e partimos. Fomos direto para Tours, de trem, pois como a cidade é conhecida como a porta de entrada do Loire, decidimos montar lá nossa base. Reservamos hotel para duas noites, e acertamos com a locadora para pegar o carro no dia seguinte a nossa chegada, pois não precisaríamos dele em Tours, já que a cidade é pequena, e dá para percorrer a pé. Minha vontade era de fazer pelo menos uma parte do caminho de bike, pois sei que existem vários passeios. Mas, diante das circunstâncias, de pouco tempo e do clima, ainda frio, me rendi as evidências, e ficou só na vontade. Ficou para uma próxima vez.

                      Depois de muito planejar, o roteiro ficou assim; no primeiro dia, incluindo o deslocamento ficamos em Tours. No dia seguinte, pegamos o carro na locadora, e seguimos primeiro para Villandry, depois Saumur, Chinon, Azay-le Rideau, Montrésor e Amboise. No último dia, Chenonceau, Blois e Chambord. Não foi fácil montar esse roteiro, diante da enorme variedade de opções que a região oferece. Dos inúmeros castelos, as pequenas cidades, passando pela produção de vinhos, espumantes, aspargos, champignos e por ai vai.  Chegamos a conclusão que não daria  para entrar em todos os castelos, apesar da grande tentação, pois além do tempo não permitir, ficaria muito cansativo. Como estávamos em quatro, também tinha que haver um consenso nas escolhas.

                    Cada viagem, é uma aventura diferente, variam os companheiros, os lugares, o tempo, os motivos, mas sempre é uma alegria, conhecer novos lugares, rever outros, e simplesmente flanar pelo mundo afora e voltar com a alma tranquila e rejuvenescida. Rodando ao lado do rio Loire, com toda aquela paisagem ao nosso redor dá para entender porque a realeza  escolheu aquele lugar para construir seus castelos. A viagem foi curta, mas deu para conhecer um pouco do Loire, e se divertir muito!

                 A medida que for escrevendo os posts, vou fazendo o link com o roteiro que mencionei acima.