Château Vaux-le-Vicomte

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                  Vinte minutos de trem é a distância que separa os castelos de Fontainebleau e o de Vaux-le-Vicomte, e de Paris leva-se 45 minutos até o primeiro e 25 até o segundo. Era um dia chuvoso e frio, mais um naquele mês de maio de 2013, considerado atípico até para os padrões franceses, pelo menos esse era o comentário geral. Decididas a não deixar que o clima nos intimidasse, resolvemos visitar os dois castelos.  O trem sai da Gare de Lyon, Grandes Lignes, e o ticket que custa em torno de 10 euros, é utilizável durante todo o dia, inclusive para o ônibus que vai da estação de Fontainebleau-Avon, até o castelo. Em dias de sol, o trajeto pode ser feito a pé, pois a distância é pequena, menos de 2 km. Entramos pelo jardim de Diana, que fica na lateral, e embora, o castelo esteja locado em meio a jardins, lagos e bosque maravilhosos, nossa visita restringiu-se a parte interna, devido a chuva e o frio.   Ainda assim, há muito a ser visitado, só a galeria de Francisco I com seus afrescos e pinturas que narram as histórias de sua vida, e que deu início ao maneirismo, é de encher os olhos. O castelo era o queridinho de Francisco I e de Napoleão, e foi habitado ininterruptamente por 7 séculos.  Infelizmente fiquei sem registros da visita, pois quando chegamos em Fontainebleau, procurei a máquina fotográfica na bolsa e não encontrei. Achei que tinha deixado em casa carregando, e só quando chegamos em Melun, foi que a encontrei no fundo da bolsa. Minha irmã, que tinha tirado fotos com o celular, realizou não sei qual manobra radical no aparelho, e conseguiu perder todas as fotos da viagem. Restou a esperança de clicar Fontainebleau em uma próxima visita. Depois de um almoço leve, no próprio castelo, pegamos o trem para Melun.

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                            O Château Vaux-le-Vicomte, está situado na comuna de Maincy (Seine-et-Marne), à 50 km a sudoeste de Paris, e 6 km de Melun. O acesso a ele, da estação onde descemos, pode ser feito pelas navettes(ônibus que saem defronte da estação e levam até o castelo), ou de táxi. O castelo pertencia a Nicolas Fouquet, o Superintendente das Finanças do rei Luis XIV. É uma verdadeira obra prima da arquitetura, em harmonia perfeita com os jardins e com a decoração, e muito, muito bonito. Para construí-lo, Fouquet contratou o arquiteto Louis Le Vau, entregou ao pintor Charles Le Brun a decoração, e ao paisagista André Le Nôtre, os jardins.

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                              Fouquet era um grande apreciador das artes, e conhecido por financiar artistas, e gastar muito para viver bem. A festa de inauguração do château, em 17 de agosto de 1661, uma das mais belas do século XVII,ficou conhecida pela sua magnificência, e por marcar o início da queda do seu anfitrião. Quinze dias depois ele foi preso a mando do rei, por uma série de intrigas políticas, e assim permaneceu até a sua morte. Para quem desejar reviver o clima da festa, a partir de maio, é possível jantar no castelo, iluminado pela luz de 2.000 velas.

Aqui, o trabalho de Charles Le Brun.
Aqui, o trabalho de Charles Le Brun.

DSC01038 Depois da prisão de Fouquet, o rei  Luis XIV levou toda a equipe para Versailles, para transformar uma propriedade rural no maravilhoso palácio que é hoje. Nós ficamos tão embevecidas com o Vaux, que perdemos a hora da navette, então tivemos que voltar de táxi.

Mali

                                MaliQuando comecei a ler o livro de Mali, destino desconhecido para mim tanto quanto era o Butão, senti certa dificuldade, porque meu espírito ainda permanecia nas montanhas do Himalaia. Então, mudar assim repentinamente da Ásia para a África parecia muito difícil. No entanto, a história que Amadou Hampâte Bâ nos conta, no seu livro, é tão fantástica, que somos levados a mergulhar nela de cabeça. Como explica Fábio Leite no prefácio do livro, existem duas maneiras distintas de se ver a África, de fora para dentro, ao que ele chama de África-Objeto que não se explica adequadamente, e é como estamos acostumados a ver.  A outra é de dentro para fora, onde se tem uma visão interna da África-Sujeito, “a África da identidade profunda, originária, mal conhecida, portadora de propostas fundadas em valores absolutamente diferenciais.”  Neste livro vamos conhecer a África-Sujeito, e se deparar com uma visão da cultura africana tão rica e ao mesmo tempo tão ignorada por nós, que chega a ser desconcertante. E olhe que o livro se restringe apenas as tradições da savana africana, que se estende de leste ao oeste ao sul do Saara. Senti tristeza, ao perceber, o quanto o povo africano foi prejudicado com a dominação européia, que retalhou o continente entre eles, escravizou o povo e interferiu nos costumes. Um exemplo dessa interferência, Amadou nos descreve ao mencionar os efeitos que a 1ª guerra mundial provocou na tradição oral dos conhecimentos da África originária. A maioria dos jovens foi lutar ao lado dos franceses, esvaziando os saraus, locais onde se reuniam para contar histórias, cantar e onde os mais velhos transmitiam os conhecimentos para os jovens. Como cita Amadou:  “Na África cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima.”

                      O livro “Amkoullel, o Menino Fula” é um relato auto-biográfico de Amadou, que vai do nascimento, que ele acredita ter sido no ano de 1900, na aldeia de Bandiagra, Mali, até a juventude.  Através de sua história, do relacionamento com sua família, viagens que fez com a família e das que realizou sozinho, somos transportados para Mali, suas cidades e costumes impressionantes que ele descreve com riqueza de detalhes. Muito interessante também a maneira como descreve a chegada do homem branco, que segundo se dizia tinha saído do grande rio de água salgada.

                   Graças a habilidade de Amadou para assimilar o costume da tradição oral que existia na África, e transmitir as narrativas de memória, tornou-se especialista na tradição oral e no estudo da sociedade negro-africana das savanas. E graças a ele, também tivemos mais um livro perfeito para o #198 livros.

Art de Vivre à Paris

                      Como havia mencionado anteriormente em outro post, nessa viagem/intercâmbio, as aulas de francês eram as nossas prioridades, pois era a razão da viagem propriamente dita. Mas, a parte esse compromisso, tínhamos todo o resto do tempo livre para desfrutar Paris do nosso jeito, e posso dizer que nós aproveitamos bastante. Uma de nossas metas era a gastronomia, conhecer cafés, bistrôs, e restaurantes irados que valessem o custo/benefício e servissem o top das comidas que eram nosso objeto de desejo, como cassoulet e boeuf bourguignon.  Depois de muito pesquisar, através de conversas com os nativos, sugestões de conterrâneos e do amigo Google, e de experiências in loco, chegamos a alguns bons resultados e outros nem tanto. Também aproveitamos as excelentes matérias-primas encontradas nos supermercados e nos brindamos com inesquecíveis jantares em nossa casa, acompanhados de maravilhosos vinhos franceses, claro! Aqui algumas de nossas descobertas.

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                            Vou começar por este boeuf bourguignon, porque ele foi fruto de muita pesquisa e valeu cada minuto que gastamos para chegar até ele, nesse restaurante,  Au Bourguignon du Marais. Estava delicioso e foi até então, o melhor que eu já comi. O restaurante,  fica na 52, rue François Miron, linha 1 do metrô, Saint-Paul. Tel: 01 48 87 15 40. Em maio de 2013, custava 22 euros.

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                       Foi aqui nesse restaurante chamado Chez Gladines, na 30 Rue des cinq Diamants, Linha 5, Place d’Italie, que degustamos um delicioso cassoulet de pato. Infelizmente não tirei foto do prato, mas que nem por isso o meu testemunho pode ser invalidado. O restaurante é pequeno e bem simples, toalhinhas quadriculadas em vermelho, pouca gente servindo, porém muito gentis e eficientes, e o mais importante a comida é de primeira, principalmente para quem gosta de pato e veado. Como o restaurante é pequeno, é bom observar os horários, porque sempre tem uma fila enorme para entrar. Nós não tivemos esse problema porque nossos horários sempre estavam um pouco defasado em relação aos horários padrões das refeições. O prato, que é bem farto, custou 12 euros em maio/2013.

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                            Vale a pena conhecer esse restaurante Le Bouillon Chatier, fica na 7, Rue du Faubourg Montmartre, 75009(não confundir com o bairro Montmartre), pela decoração, pelos garçons, pela comida e pelo custo/benefício. As duas vezes que estivemos aí pedimos a mesma coisa de prato principal, confit du canard (de pato), porque era simplesmente delicioso. Variamos apenas as entradas e as sobremesas, mas fidelizamos o principal. A observação do restaurante anterior, serve para esse também, se for no horário convencional, tem que enfrentar fila.

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                          Lá no fundo da primeira fotografia dá para perceber onde estamos, claro, turistando no famoso café de Amélie Poulain,  Les deux Moulins. Passamos por lá para um café acompanhado de crème brulée. Para quem gosta muito do filme, como eu, vale a pena conhecer e tomar um café. Fica na  15 rue Lepic 75018, Montmartre, Paris.

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                            Estamos sentadas defronte da pâtisserie Du Pain & Des Idées, situada na 34 Rue Yves Toudic, 75010 Paris, perto do Canal de Saint Martin. Ela foi vencedora dos concursos de 2008 e 2012, para o melhor baguete de Paris. Ficamos sabendo, que lá é fabricado o único croissant totalmente artesanal de Paris. Se a informação é totalmente procedente não sei, mas o fato é que o croissant de lá é maravilhoso, e esse que estamos saboreando na foto, é um inacreditável croissant de pistache com gotas de chocolate, divino. Vale a pena conferir.

Nossa adeguinha que 100% consumida.
Nossa adeguinha que foi 100% consumida.
Recebendo as amigas para jantar.
Recebendo as amigas para jantar.

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                             Não se come bem apenas nos restaurantes, aproveitamos a matéria-prima encontrada nos supermercados e conseguimos produzir maravilhosos jantares. Esse foi inesquecível. Menu: aspargos frescos, arroz, salmão ao forno com alho-poró e camarão com creme fresco. Vinho: chateauneuf du pape.

Butão

         Butao                    Não me lembro de ter ouvido falar do Butão antes deste projeto. Talvez tenha no máximo, escutado um nome semelhante, mas que para mim não dizia absolutamente nada. Assim que chegou a vez dele, e fui pesquisar a respeito do país, fiquei literalmente caída de amores.  Fiquei fascinada por todas as características extraordinárias que li a respeito, como se pode observar: O Butão é um minúsculo país/reino budista situado na Ásia, entre a Índia, China e Nepal, nas montanhas perto do Himalaia, com quase 80% do seu território coberto por florestas; a arquitetura é outra grande atração do país, com estruturas rústicas de madeira e taipa, sendo as estacas esculpidas e encaixadas umas nas outras sem a ajuda de pregos, e o acabamento nos telhados é feito a mão; o país ficou fechado ao turismo até 1974, e ainda hoje é um dos poucos que tem uma política restritiva ao turismo, ou seja, não se pode fazer viagens independentes ao Butão, só via operadora, e o visto só é concedido pelo prazo de permanência, com alimentação, hotel, transporte e guia pagos antecipadamente; o país é o mais isolado do mundo aonde a televisão só chegou em 1999; foi lá também que foi criado o conceito de FIB – Felicidade Interna Bruta, que procura dar um ênfase maior aos valores espirituais budistas da população; um pais que tem como meta até 2020 tornar a agricultura 100% orgânica.

                                   Foi neste cenário que cresceu Tsomo, a personagem principal, do livro escolhido “The Circle of Karma” da escritora butanesa, Kunzan Choden. O livro narra a trajetória de vida de Tsomo, sua infância no Butão, onde sendo a filha mais velha, ajuda a mãe nas tarefas domésticas apesar de sonhar em seguir a vida religiosa, mas que para ela é um sonho distante, por ser privilégio dos homens. Com a morte da mãe realiza sua primeira viagem a uma cidade distante, e esse contato com o exterior vai mudar sua vida. O livro descreve em riquezas de detalhes os costumes butaneses, tanto que no início fica difícil distinguir o que é cultural no comportamento de Tsomo, do que vem a ser as características de sua personalidade. Ela é de uma ingenuidade e insegurança difíceis de entender, e que vai se tornando enervante a medida que vemos ela se deparar com os diversos conflitos da vida, e passar por eles sem amadurecer.

                                               O livro foi escrito originalmente em inglês, sendo o primeiro romance da escritora que já havia publicado pequenas histórias e contos populares sobre o Butão. Sem dúvida mais um livro perfeito para o projeto #198 livros, e que vale a leitura.

Chartres

                            Chartres é uma cidade medieval, situada na região Centro da França, no departamento Eure-et-Loir, 80 km a sudoeste de Paris. Tomando o trem que sai da Gare de Montparnasse, em uma hora chega-se lá. Chartres é conhecida por ser um importante local de peregrinação desde a idade média, devido a Sancta Camisa, que se acredita ser a túnica que a Virgem Maria vestia quando estava para dar a luz. Por causa dessa crença, tornou-se uma parada popular para os peregrinos que saiam da região mais central da Europa em direção aos três grandes locais de peregrinação: Santiago de Compostela, Roma e Jerusalém.

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A concha e o cajado, marca para os peregrinos
A concha e o cajado, marca para os peregrinos

                             Chartres também é muito conhecida por sua catedral, o primeiro dos 35 Patrimônios Mundiais da UNESCO na França. A catedral que tinha sido construída em 1145 foi reconstruída após um incêndio em 1194, no melhor estilo Gótico, ou alto gótico, pois à época de sua construção todas as técnicas construtivas características desse estilo já haviam sido aperfeiçoadas, e sanados todos os problemas estruturais, que faziam com que muitos tetos e torres caíssem. À época de sua construção, Chartres, além de ser o centro intelectual da França, antes de ser suplantada por Paris, estava com sua economia em ascensão. Com a revolução agrícola, muitos camponeses saíram do campo para se estabelecer na cidade, transformando-se em prósperos burgueses. Como forma de agradecimento, os comerciantes e mercadores medievais financiaram 44 vitrais, colocando um medalhão representando os diversos ofícios de acordo com quem o havia financiado. A catedral de Chartres é considerada uma das grandes maravilhas do mundo, com 176 janelas, contendo mais de 2.500 metros de vitrais e todos originais.

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DSC00885                           Para mim, Chartres tem um significado mais que especial por ser a primeira cidade que conheci na França, e por ser lá que morava uma grande amiga de infância. Fiquei hospedada em sua casa e foi ela que primeiro me apresentou a cidade, do jeito que a conhecia. A catedral, os restaurantes, as pâtisseries, os sinais dos peregrinos, etc.

                              Dessa vez, além de visitá-la, queríamos rever a catedral que claro, fazia parte do nosso roteiro das catedrais góticas. Saímos de Paris numa sexta-feira do mês de maio, o que foi uma sorte, pois não sabia que todos os anos no período de abril a outubro, as sexta-feira, os bancos da nave são retirados para que as pessoas possam percorrer os caminhos tortuosos do labirinto incrustado no chão da nave, representando simbolicamente “sua peregrinação na Terra com todas as falsas voltas – não há becos sem saída no labirinto de Chartres”. Eu e Teena fizemos questão de percorrer o labirinto circular de 261,50 metros de extensão. Segundo informação, o labirinto foi posicionado na entrada oeste da catedral de forma a representar simbolicamente nossos primeiros passos na vida espiritual.

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                                  Depois de terminada nossa visita a catedral, escolhemos uma creperia ali perto para almoçar, Loli tinha falado que havia várias, todas muito boas. Como fazia muito frio e começou a chover entramos no primeiro restaurante. Já tínhamos até sentado, mas desistimos quando vimos que não havia crepe.Finalmento encontramos um super charmoso, com mesa vaga no 1º andar. Valeu a pena!, Depois do almoço pegamos um ônibus para visitar Loli para mais uma e pela última vez, pois minha amiga se foi em novembro.

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França

foto (2)                     Foi com alegria que chegamos a França, não só por ser um destino já conhecido, e muito querido, mas também por amenizar o clima trágico das guerras dos últimos destinos visitados.

                   O livro escolhido, Les souvenirs, (As lembranças, em português), foi escrito em 2011, pelo premiado escritor francês, David Foenkinos, nascido em Paris, em 1974. Muito conhecido na França e no exterior, já teve seus livros traduzidos em mais de 30 línguas.

                          A história do narrador(não cita o nome, em nenhum momento),  se inicia a partir da morte do avô. Depois do enterro, ele se dá conta da importância que o avô tinha na sua vida e de como ele o amava. No entanto, ele não conseguiu transmitir ao avô, em vida, esse sentimento. Resolve então fazer diferente com a avó, exercendo todo o amor e carinho que sente por ela, e apoiando-a nesse momento tão difícil pelo qual ela está atravessando, com a ausência do marido, a fragilidade que lhe impõe a idade, e as dificuldades para vivê-la num país como a França, que não sabe lidar com seus idosos. Aqui vale um parêntese sobre o tema, que produziu dois excelentes filmes ambientados na França recentemente: “E se vivêsemos todos juntos?” e “Amor”. Esse último ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Voltando ao livro, a solução encontrada para o problema da avó, foi interná-la num asilo contra sua vontade.

                   A medida que essas e outras situações vão surgindo, ele vai apresentando ao leitor, as pessoas nela envolvidas e com as quais ele se relaciona, os pais, o proprietário do hotel onde ele trabalha a noite, para lhe permitir seguir o sonho de se tornar escritor, a jovem com quem ele vai se relacionar e assim por diante. Para cada um, ele cita uma lembrança especial, que considera marcante. Ao longo do livro, o personagem passará por momentos de dúvidas quanto ao futuro, dificuldades de relacionamento com os pais que vivem um momento de desestruturação de vida ao se verem diante da aposentadoria, a inadaptação da avó ao novo estilo de vida no asilo, e os conflitos no relacionamento afetivo.

                            Apesar de abordar diversas situações de conflitos e sofrimentos, a narrativa é leve e bem humorada, é o tipo de livro que lemos de um fôlego só. E no final constatamos, através do personagem, que se as lembranças do que vivemos são determinantes para nos fazer quem somos hoje, também podem nos servir de ponte para uma nova vida, um novo destino.

Orléans

                            Na França, o dia 8 de maio, é feriado nacional em comemoração a vitória dos aliados na 2ª guerra mundial, pois nesse dia foi assinado o armistício em Berlim. Na cidade de Orléans, a comemoração é dobrada! Na mesma data, há 584 anos,  sob a liderança de Joana d’Arc, os franceses conseguiram romper o cerco à cidade, vencendo os ingleses, e dando início ao fim da guerra dos cem anos.  Desde então todos os anos, quase que ininterruptamente, Orléans comemora a libertação da cidade por Joana d’Arc. Para comemorar, se revive toda a trajetória da Donzela de Orléans, como era chamada, desde a entrada na cidade, em 29 de abril, até a libertação com a batalha vitoriosa, em 08 de maio. A festa se faz com desfiles, concertos, animações medievais e espetáculos pirotécnicos.

                           A história de Joana d’Arc para mim é tão fascinante quanto dramática. É difícil imaginar uma jovem camponesa de 17 anos, que não sabia ler e nem era militar, liderar um exército e vencer. Conduzir o delfim a cidade de Reims para garantir que fosse coroado Carlos VII, Rei da França, e depois ser presa, julgada e condenada a morrer na folgueira, sem que o Rei viesse em seu auxílio, é simplesmente inacreditável e revoltante. Então aconteceu de estarmos na França no dia 8 de maio, e aí não tinha nem o que pensar, era pegar o trem e ir festejar Joana d’Arc em Orléans.

                            Pegamos o trem na Gare d’Austerlitz-Paris e em menos de uma hora chegamos na Gare des Aubrais em Orléans.

Gare des Aubrais em Orléans.
Gare des Aubrais em Orléans                        
Orléans
Orléans

                          Ao descer do trem nos dirigimos as informações turísticas, na própria estação. A atendente muito simpática nos deu um mapa da cidade e a programação das festas do dia. Assim ficamos sabendo que além do desfile, que sairia às 15:00 h defronte da Catedral, estava acontecendo um festival  medieval, no mercado medieval do Campo Santo. Depois de tomar conhecimento da programação, fizemos nosso roteiro: caminhar pela cidade; ir ao mercado ver a festa medieval e almoçar; ir a Catedral, para conhecer e assistir ao desfile.

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Mercado Medieval do Campo Santo
Mercado Medieval do Campo Santo

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Local onde compramos nosso almoço.
Local onde compramos nosso almoço.
Comida típica medieval .
Partilhando a mesa
Vinho e prato típico medieval.
Vinho e prato típico medieval. Deliciosamente inesquecível.

                   Saímos do mercado e encontramos com “Joana d’Arc” a cavalo, vestindo armadura e acompanhada por cidadãos c0muns vestindo trajes medievais, e caminhando em direção a catedral. Lá haveria uma cerimônia com representantes da igreja, do estado, políticos locais, militares, etc, antes do cortejo sair em direção ao rio Loire, no local onde Joana entrou na cidade.

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                         Enquanto o cortejo seguia até a Catedral de Sainte-Croix d’Orléans, onde aconteceria a cerimônia, nós nos adiantamos para conhecer a Catedral, onde Joana d’Arc rezou no período em que esteve em campanha na cidade.  A igreja inicialmente românica foi substituída por uma igreja gótica em 1278. No seu interior dez vitrais modernos contam a trajetória de Joana d’Arc.

Catedral ao fundo.
Catedral ao fundo.

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                     Incluímos no nosso roteiro uma visita a Maison de Jeanne d’Arc, localizada na Place du Géneral de Gaulle, onde Joana ficou como hóspede de Jacques Boucher, ministro das finanças do duque de Orléans, nos dez dias que ficou em Orléans. Comenta-se que todos os dias ela subia no telhado, de onde tinha uma excelente visão do acampamento dos ingleses. Infelizmente, como era feriado a Maison estava fechada, e o jeito foi deixar para uma próxima vez. Sempre é bom deixarmos um motivo para voltar!

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Bósnia-Herzegovina

                                BosniaMais um destino assolado pela guerra. Mais uma guerra, onde crimes contra a humanidade foram cometidos. O genocídio na Bósnia ocorreu na cidade de Srebrenica em 1995, com o massacre de milhares de muçulmanos bósnios, pelos sérvios bósnios, liderados pelo general Ratkp Mladic.

                             A origem dos conflitos na ex-Iugoslávia, que culminaram com a guerra da Bósnia, era antiga e já vinha de séculos atrás. Após a segunda guerra mundial o General Tito, conseguiu unir todos os povos da Iugoslávia, e manter a unidade nacional até sua morte, em 1980. A partir de então, começaram os conflitos, causados pelas diferenças de religiões e de etnias, e por ódios e ressentimentos mútuos, desencadeando a mais longa e violenta luta armada após a segunda guerra mundial, entre abril de 1992 a dezembro de 1995. Para que se tenha uma ideia do que era a Iugoslávia na época de Tito, nada como conhecer uma espécie de anedota que circulava na época, para tentar sintetizar o sistema político-étnico de então: “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido”.

                             De maneira resumida, segundo pude entender, havia três grupos oponentes entre si, os sérvios (católicos ortodoxos), os croatas e eslovenos (católicos romanos) e os bósnios (muçulmamos). Cada um tentava criar seu próprio estado independente e etnicamente homogêneo.  Quando no início de 1992, os muçulmanos declararam a independência da Bósnia-Herzegovina, com a capital em Sarajevo, os sérvios da Bósnia não aceitaram. Com o apoio da Sérvia, iniciaram os combates e criaram a República Sérvia da Bósnia. E é exatamente nesse panorama, que se desenvolve a história do romance – Como o soldado conserta o gramofane, de  Sasa Stanisic.

                              O livro narra a história de Aleksander Krsmanovic, um menino que passou sua infância na cidade de Visegrad, na Bosnia, até a chegada da guerra, quando tem que fugir com sua família para a Alemanha. A história se inicia com a morte do avô Slavko, com quem tinha uma grande ligação e afinidade. O avô era um nacionalista sérvio, admirador de Tito, e dotado de uma  personalidade marcante, que exercia uma grande influência sobre o neto. Entre pescarias no rio Drina, que corta a cidade, truques de mágica que aprendia com o avô, jogos de futebol, pinturas inacabadas e histórias inventadas, Aleksander vai atravessando a infância, feliz, até a morte do avô, quando então verá sua vida desmoronar, assim como a Iugoslávia foi desintegrando com a morte de Tito.

                               A história é narrada através da visão infantil e cheia de imaginação do personagem, numa mistura da realidade como  a visão que tem dos acontecimentos que se desenrolam ao seu redor, criando uma pintura inacabada do quadro da sua vida. O livro se divide em três partes. Na primeira, Aleksander vai narrando os acontecimentos que permearam sua infância, a medida que eles foram se sucedendo, até o exílio na Alemanha. A segunda parte se inicia, quando ele recebe de sua avó, que ficou na Bósnia, um pacote de lembranças.  Ele revive o paraíso perdido na infância, “Quando tudo era bom”, tornando cada fato um capítulo dentro de outro livro. Na terceira e última parte, ele volta já adulto para sua cidade natal, para tentar se encontrar, e deixar para trás a infância e só assim ter esperança de uma nova vida.

                                  A história do personagem se mescla com a própria história do autor, que nasceu em Visegrad no ano de 1978, hoje Bósnia-Herzegovina, e teve que fugir para a Alemanha por ocasião do começo da guerra. Assim com Aleksander, Sasa é filho de pai sérvio e mãe Bósnia.

                               Achei que o recurso que o autor usou, de narrar a história através da visão de uma criança, tornou a leitura confusa, difícil de assimilar. No entanto,  para mim, o livro, cumpriu a missão, de nos introduzir em uma nova cultura, mergulhar na história e alimentar o desejo de conhecer novos destinos. Foi interessante descobrir a paixão que eles têm pelo futebol, justamente na época em que a Bósnia se classificou para a copa do mundo pela primeira vez!

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Ruanda

      Ruanda (1)  A passagem por Ruanda foi devastadora. Constatar que não sabia nada a respeito do país é quase constrangedor, e o mal estar ainda é maior, quando na busca por informações verificamos que os resultados apontam sempre para os acontecimentos de 1994, quando o país foi palco do maior genocídio africano dos tempos modernos. No massacre de Ruanda, foram assassinados de cerca de 800 mil ruandeses das etnias tutsi e hutus moderados, pelo hutus radicais que eram o governo na época. Por mais que busque as causas que deram origem ao massacre, não consigo encontrar nenhuma que possa justificar tamanho ódio, capaz de ter gerado tanta violência. Também não consigo encontrar a razão da inércia dos organismos internacionais que a tudo assistiram sem nada fazer para tentar conter o massacre. 

                 Gilbert Gatore, autor do livro escolhido, Le Passe Devant Soi, nasceu em Ruanda em 1981, e se refugiou no Zaire em 1994, emigrando para a França em 1997. Quando criança mantinha um diário do qual teve que se separar na fuga para o Zaire. Foi na tentativa de reconstituir esse diário que veio a se tornar escritor. Le passe devant soi, seu primeiro romance, conquistou Le Prix Ouest-France/Étonnants Voyageurs, em 2008.

                        Trata-se de um romance de ficção, duas histórias aparentemente distintas tendo como elo, o massacre de 1994, apesar de em nenhum momento do romance o autor mencionar o nome do país onde se desenvolve a ação. As histórias de Nikos, um  jovem mudo,  que se auto exilou, passando a viver isolado numa caverna no meio de uma ilha;  e de Isaro, uma linda jovem que vive na França, tendo sido adotada por um casal francês, depois de ter sobrevivido ao massacre; vão se desenvolvendo paralelamente, passando de um personagem a outro de forma harmoniosa e ritmada.  Sem saber o que levou Nikos a se refugiar nessa ilha longe da companhia dos homens, o leitor vai sendo apresentado ao personagem, e se envolvendo com ele, da mesma forma que vamos torcendo para que Isaro leve adiante seu projeto de fazer um registro do testemunho dos sobreviventes do massacre e consiga exorcizar o fantasma do seu passado. É uma leitura envolvente, e de muita beleza, e apesar de muito triste, vale a pena conhecer.

Château de Vincennes

                           No domingo fizemos uma programação casada, que já estava planejada antes mesmo de sair de Recife e seria: participar da corrida “Les 5 et 10km de l’Anorgend” cujo percurso seria todo realizado no Bois de Vincennes, e aproveitar para conhecer o  Château de Vincennes, que fica ao lado do bosque. Participar de uma corrida em outro país é uma forma diferente de conhecê-lo, e seria uma experiência inesquecível. Fizemos a inscrição ainda no Brasil, pelo site, www.correrpelomundo.com.br.

Parque Bois de Vincennes
Parque Bois de Vincennes
Prontas para largada
Prontas para largada
Reta final
Reta final

                          Para chegar lá, pegamos a linha 1 do metrô e descemos na estação final, Château de Vincennes. Apesar do atraso para sair de casa da apreensão com a hora, e com o condicionamento físico,  pois havia semanas que não corria, deu tudo certo, e o que faltou em treino foi suprido pelo clima frio. Descobri que correr no frio, é uma tranquilidade, quase não há desgaste físico. Para mim, que estava acostumada a correr no calor, foi uma agradável surpresa. Daniel, que tinha vindo para passar o final de semana, foi nosso assistente, marcando o tempo e tirando fotos. Depois de cumprida nossa missão, andamos até o Château e iniciamos a visita.

Planta do conjunto
Planta do conjunto

                           A história do Château de Vincennes teve início a partir da construção de um pavilhão de caça, por Luix VII, na floresta de Vincennes. No século XIII Felipe Augusto e Luis IX(São Luis), foram os responsáveis pela transformação do pavilhão em uma mansão, que veio a se tornar uma das residências favoritas de Luís IX.  Depois da morte de Luis IX, numa cruzada, e até meados do século XIV, Vincennes se transformou na residência principal dos soberanos franceses. Mas foi somente no século XIV, que Carlos V, transformou Vincennes num castelo-fortaleza, com o melhor sistema defensivo daquele século, construído por um rei para proteger a si mesmo e a sua corte dos tumultos da Guerra dos Cem Anos e da peste.

Tour du Village - entrada principal com a ponte levadiça.
Tour du Village – entrada principal com a ponte levadiça.
Vista do fosso e do muro(enceite que circunta toda a fortaleza
Vista do fosso e do muro externo(enceinte)
Vista do fosso e do enceinte de outro ângulo.
Vista do fosso e do enceinte de outro ângulo.
Donjon ao fundo
Donjon ao fundo
Donjon
Donjon

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Vista da Sainte-Chapelle
Vista da Sainte-Chapelle

                           Vincennes é uma fortaleza completa, com praticamente todos os elementos da arquitetura defensiva medieval: uma torre de menagem(donjon), com mais de 50 metros de altura; um fosso e um vasto muro externo(enceite), permitindo assim a transferência do poder real do Palais da la Cité para Vincennes.  A construção da capela real, Sainte-Chapelle, teve início em 1379, mas só foi concluída em 1550, e no século XVII as construções dos pavilhões clássicos vieram completar o monumental conjunto. Depois que Versailhes ficou pronta o château foi abandonado e mais tarde transformado em arsenal por Napoleão. A floresta de Vincennes, local de caça do rei foi doada a cidade de Paris por Napoleão III, em 1860 para ser transformado em parque público.

                          No período que nós fomos,  só estavam sendo permitidas visitas ao Donjon e a Sainte-Chapelle, acredito que a partir do final de maio em diante as visitas às outras construções são liberadas.